quarta-feira, 4 de março de 2015

Segunda-feira - 3ª Semana da Quaresma - 09.03.2015


Lectio

Primeira leitura: 2 Reis, 5, 1-15

Naqueles dias 1 Naaman, general dos exércitos do rei da Síria, gozava de grande prestígio diante do seu amo e era muito estimado, porque, por meio dele, o Senhor salvou a Síria; era um homem robusto e valente, mas leproso. 20ra tendo os sírios feito uma incursão no território de Israel, levaram consigo uma jovem donzela, que ficou ao serviço da mulher de Naaman. 3 Ela disse à sua senhora: «Ah, se o meu amo fosse ter com o profeta que vive na Samaria, certamente ficava curado da Ieprst» 4Naaman foi contar ao seu soberano aquilo que dissera a jovem israelita. 50 rei da Síria respondeu­lhe: «Vai, que eu vou escrever uma carta ao rei de Isreei» Naaman partiu levando consigo dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupa. 6 Levou ao rei de Israel uma carta escrita nestes termos: «Juntamente com esta carta, aí te mando o meu servo Naaman, para que o cures da sua lepra.» 7Ao terminar de ler a carta, o rei de Israel rasgou as suas vestes e exclamou: «Sou eu, porventura, um deus que possa dar a morte ou a vida, de modo que me enviem alguém para eu o curar da lepra? Reparai e vede como ele busca pretextos contra mim.» sMas Eliseu, o homem de Deus, soube que o rei rasgara as suas vestes e mandou-lhe dizer: «Porque rasgaste as tuas vestes? Que ele venha ter comigo e saberá que há um profeta em Isreei» "üieçou. pois, Naaman com o seu carro e os seus cavalos e parou à porta de Eliseu. 10 Este mandou-lhe dizer por um mensageiro: «Vai, lava-te sete vezes no Jordão e a tua carne ficará limpa.» llNaaman, despeitado, retirou-se, dizendo: «Pensava que ele sairia a receber-me e, diante de mim, invocaria o Senhor, seu Deus, colocaria a sua mão no lugar infectado e me curaria da lepra. 12 Porventura, os rios de Damasco, o Abaná e o Parpar, não são acaso melhores do que todas as águas de Israel? Não me poderia lavar neles e ficar limpo?» E, virando costas, retirou-se indignado. 13Mas os seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Meu pai, mesmo que o profeta te tivesse mandado uma coisa difícil, não a deverias fazer? Quanto mais agora, ao dizer­te: 'Lava-te e ficarás curado. ~> 14 Naaman desceu ao Jordão e lavou-se sete veze~ como lhe ordenara o homem de Deus, e a sua carne tornou-se como a de uma criança e ficou limpo. 15Voltou, então, ao homem de Deus com toda a sua comitiva; entrou, apresentou-se diante dele e disse: «Reconheço agora que não há outro Deus em toda a Terra, senão o de Israel. Aceita este presente do teu servo.»

Naaman, homem valente e conceituado, general dos exércitos do rei da Síria, tinha ficado leproso. A lepra, vista como castigo divino, implicava separação, impureza, solidão. Era uma situação humanamente insolúvel, sem esperança. Mas Naaman acolhe a proposta de uma jovem prisioneira israelita, e vai ao encontro do profeta que está na Samaria. O rei da Síria apoia benevolentemente a ideia, que todavia provoca suspeitas no rei de Israel. A tensão entre os dois países é atenuada pela intervenção do profeta Eliseu. Seguindo as suas orientações, tão simples que parecem banais, Naaman recupera a saúde e dispõe-se a uma profissão de fé no Deus de Israel. Ao lado dos protagonistas do episódio, Naaman, Eliseu e os dois reis, vemos a jovem escrava, o mensageiro e os servos, mediações de que Deus se serve para orientar o curso dos acontecimentos.

O texto apresenta referências à simbologia baptismal, tais como a imersão nas águas, a eficácia da palavra do Deus de Israel, o carácter universal da salvação.



Evangelho: Lucas 4, 24-30

Naquele tempo, ao chegar a Nazaré, Jesus disse ao povo reunido na sinagoga: 24 «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. 25 Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; "cootudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. 27 Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.» 28Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. 29 E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. 30 Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho.

Ainda no começo da sua missão, Jesus regressa à sua terra, vai à sinagoga e lê um texto de Isaías. Conclui afirmando que esse texto se realiza na sua pessoa.

A recusa dos habitantes de Nazaré em recebê-lo tem o seu melhor comentário na frase de João: «Veio ao que era seu, mas os seus não O receberem- (Jo 1, 11). A revelação do «Verbo feito cerne», o filho de José, vai-se transformando, de admiração e espanto, em incredulidade hostil e mesmo em ódio homicida: «levaram-no ao cimo do monte a fim de o precipitarem dali abaixo. ». É o destino de todos os profetas: «Nenhum profeta é bem recebido na sua petrie», afirma Jesus. Os preconceitos, religiosos, culturais, nacionalistas, impedem ou dificultam o acolhimento humilde da revelação de Deus, tal como ela é feita, muitas vezes de modo que não esperamos. Mas a viúva de Sarepta e Naaman, estrangeiros e pagãos, acolhem a salvação, que os seus primeiros destinatários recusam. Estão abertos às iniciativas surpreendentes de Deus.

Meditatio

As leituras de hoje mostram-nos que havemos de estar dispostos a acolher o modo escolhido por Deus para Se revelar, para realizar as suas intervenções salvíficas. Não faz sentido pôr condições e, menos ainda, arrogar-se direitos. A única atitude correcta é a disponibilidade para acolher as iniciativas tantas vezes surpreendentes de Deus. Foi o que sucedeu em Nazaré. O filho de Maria e de José era certamente admirado por todos. Mas quando se revela como profeta, como instrumento de Deus, as opiniões mudam. Afinal, que tinha feito de extraordinário para justificar as suas pretensões? Mas é esta atitude dos seus conterrâneos que os impede de receber os dons de Deus, porque a graça divina é gratuita, é livre no modo de corresponder às expectativas humanas.

Naaman, pelo contrário, aceita pôr de parte os seus preconceitos. Como pagão, não pretende ter direitos sobre o Deus de Israel. Apenas aceita os bons serviços diplomáticos do rei e se preocupa em captar a boa vontade do rei de Israel, com ricos presentes. O rei de Israel não corresponde às suas expectativas. Intervém o profeta Eliseu, sem qualquer espécie de diplomacia: não sai ao seu encontro para o saudar, acolher convenientemente e proceder aos devidos rituais de cura. Pelo contrário, manda um criado para lhe dizer que vá lavar-se sete vezes no rio Jordão. Uma verdadeira decepção! O poderoso homem da Síria mostra a sua indignação, tal como os nazarenos a mostraram em relação a Jesus! O rei de Israel tinha dito: «Sou eu, porventura, um deus que possa dar a morte ou a vids?». Naaman teve realmente que morrer aos seus preconceitos, às suas certezas e seguranças, para aceitar a iniciativa divina, marcada pela simplicidade. E foi curado: «a sua carne tornou-se como a de uma criança e ficou ümpo-,

É com esta simplicidade, de palavras e gestos, que, no baptismo, somos purificados do nosso pecado e revestidos de graça, revestidos de Cristo, tornando-nos homens novos, filhos de Deus.

Também os gestos simples da nossa vida se podem tornar instrumentos da graça de Deus, quando realizados por amor. Pensemos em tantos santos e santas que se dedicaram à realização das obras de misericórdia, gestos simples do dia a dia como dar de comer, dar de beber, visitar doentes e presos, agasalhar quem precisava, etc., tornando-se instrumentos da graça para aqueles que beneficiavam e para tantos que testemunhavam esses actos de amor.

A disponibilidade para acolher as iniciativas de Deus, leva à disponibilidade para com os irmãos. Esta disponibilidade não pode limitar-se a nobres e belos sentimentos, à compaixão. Devem levar ao compromisso pessoal, à acção, à "disponibilidade" para com os irmãos em necessidade, com simplicidade e amor. Só assim poderemos reviver a experiência do Pe. Dehon "sensível ao pecado que enfraquece a Igreja", aos "males da sociedade", de que "descobre a causa mais profunda ... na recusa do amor de Cristo". É essa a verdadeira lepra da humanidade. "Possuído por este amor que não é acolhido" corresponde-lhe "com uma união íntima ao Coração de Cristo e com a instauração do seu Reino nas almas e nas sociedades" (Cst. 4). Trata-se de uma "solidariedade" afectiva e efectiva com Cristo. Daí o seu apostolado, caracterizado por uma extrema atenção aos homens, especialmente aos mais desprotegidos e pela solicitude em remediar activamente as insuficiências pastorais da Igreja do seu tempo" (n. 5).

Oratio

Senhor, eis-me aqui! Tu és a minha esperança. Tu conheces-me. Coloco diante de Ti a minha miséria e o meu profundo desejo de cura. Tu podes curar-me. Tu tens palavras de vida eterna. Espero em Ti, espero na tua palavra, porque é grande a tua misericórdia. Não Te peço acções espectaculares. Peço um coração simples, humilde, dócil para acolher as tuas iniciativas sempre cheias de originalidade, sempre surpreendentes. Dá-me a simplicidade de uma criança, para me espantar diante da grandeza do teu amor escondido na fragilidade dos sinais sacramentais e na voz e no rosto de cada irmão. Dá-me a simplicidade de Naaman, da viúva de Sarepta. Dá-me a simplicidade de Maria de Nazaré. Dá-me a tua simplicidade de Filho muito amado do Pai, feito homem entre os homens. Amen.

Contemplatio

Quem vem? É o celeste médico que tomou sobre si as nossas enfermidades, para nos curar. - O profeta Isaías descreve longamente esta substituição (c. 53). Nós é que estamos moralmente doentes. Afastámo-nos como ovelhas errantes, desviámo-nos da via do Senhor. Éramos como leprosos pelos nossos pecados, merecíamos ser abandonados ao sofrimento e à morte; mas o celeste médico tomou tudo sobre si. Ergue-se diante do Senhor como um arbusto ressequido, está coberto de chagas e cheio de desprezos. Já não tem beleza. Vai para a morte como um cordeiro que se deixa levar. É que ele tomou sobre si todas as nossas responsabilidades e todos os nossos sofrimentos redentores que nós mesmos deveríamos ter sofrido.

Fez mais do que o bom samaritano, não apenas pensou as nossas feridas, tomou-as sobre si.

Nada se aproxima desta generosidade. O Coração do celeste médico ultrapassa todos os corações pela sua bondade, pelo seu desinteresse (Leão Dehon, 05P 3, p. 627).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «O Senhor faz msrevilhes» (SI 4, 4).


Fonte http://www.dehonianos.org/

03º Domingo do Tempo da Quaresma - Ano B - 08.03.2015


ANO B
3º DOMINGO DA QUARESMA

Tema do 3º Domingo da Quaresma

A liturgia do 3º Domingo da Quaresma dá-nos conta da eterna preocupação de Deus em conduzir os homens ao encontro da vida nova. Nesse sentido, a Palavra de Deus que nos é proposta apresenta sugestões diversas de conversão e de renovação.
Na primeira leitura, Deus oferece-nos um conjunto de indicações (“mandamentos”) que devem balizar a nossa caminhada pela vida. São indicações que dizem respeito às duas dimensões fundamentais da nossa existência: a nossa relação com Deus e a nossa relação com os irmãos.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus… É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está na lógica da cruz – isto é, no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.
No Evangelho, Jesus apresenta-Se como o “Novo Templo” onde Deus Se revela aos homens e lhes oferece o seu amor. Convida-nos a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.


LEITURA I – Ex 20,1-17

Leitura do Livro do Êxodo

Naqueles dias, Deus pronunciou todas estas palavras:
«Eu sou o senhor teu Deus,
que te tirei da terra do Egipto, dessa casa da escravidão.
Não terás outros deuses perante Mim.
Não farás para ti qualquer imagem esculpida,
nem figura do que já existe lá no alto dos céus
ou cá em baixo na terra ou nas águas debaixo da terra.
Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto.
Eu, o senhor teu Deus, sou um Deus cioso:
castigo a ofensa dos pais nos filhos
até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem;
mas uso de misericórdia até à milésima geração
para com aqueles que Me amam
e guardam os meus mandamentos.
Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus,
porque o Senhor não deixa sem castigo
aquele que invoca o seu nome em vão.
Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares.
Durante seis dias trabalharás
e levarás a cabo todas as tuas tarefas.
Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus.
Não farás nenhum trabalho,
nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha,
nem o teu servo nem a tua serva,
nem os teus animais domésticos,
nem o estrangeiro que vive na tua cidade.
Porque em seis dias
o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm;
mas no sétimo dia descansou.
Por isso, o Senhor abençoou e consagrou o dia de sábado.
Honra pai e mãe,
a fim de prolongares os teus dias
na terra que o Senhor teu Deus te vai dar.
Não matarás.
Não cometerás adultério.
Não furtarás.
Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.
Não cobiçarás a casa do teu próximo;
não desejarás a mulher do teu próximo,
nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento,
nem coisa alguma que lhe pertença».

AMBIENTE

O texto que hoje nos é proposto como primeira leitura faz parte de um conjunto de tradições que referem uma Aliança entre Jahwéh e Israel (cf. Ex 19-40). Essa Aliança é situada num monte, algures no deserto do Sinai, o mesmo monte onde Jahwéh se havia revelado a Moisés.
No texto bíblico não temos indicações geográficas suficientes para identificar o monte da Aliança. Em si, o nome “Sinai” designa uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 km de extensão norte/sul, estendendo-se entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. A norte, junto do Mediterrâneo, o Sinai apresenta uma faixa arenosa de 25 km de largura; mas à medida que descemos para sul, o território torna-se mais acidentado, com montanhas que chegam a atingir 2400 m de altura. A península inteira é um deserto árido; não há, praticamente, vegetação (excepto em alguns pequenos oásis) e as comunicações são difíceis. Nesta enorme extensão de areia e rochas, é difícil situar o “monte da Aliança”. Contudo, uma tradição cristã tardia (séc. IV d. C.) identifica o “monte” com o Gebel Musah (o “monte de Moisés”), um monte com 2244 m de altitude, situado a sul da península sinaítica. Embora a identificação do “monte da Aliança” com este lugar levante problemas, o Gebel Musah é, ainda hoje, um lugar de peregrinação para judeus e cristãos.
A Aliança entre Jahwéh e Israel, celebrada no Sinai, vai ser apresentada pelos catequistas de Israel através de uma estrutura literária que é muito semelhante aos formulários jurídicos conhecidos no mundo antigo para apresentar os acordos políticos entre duas partes, nomeadamente entre um “senhor” e o seu “vassalo”. Nesses formulários, depois de recordar ao “vassalo” a sua acção, a sua generosidade, os seus benefícios, o “senhor” apresentava as “cláusulas da Aliança” – isto é, a lista das obrigações que o “vassalo” assumia para com o seu “senhor” (obrigações que o “vassalo” devia cumprir fielmente).
De entre as “cláusulas da Aliança” do Sinai, sobressai um bloco especial, onde são apresentadas as dez obrigações fundamentais que Israel vai assumir diante do seu Deus: os “dez mandamentos” ou as “dez palavras”. É esse texto que a nossa primeira leitura nos apresenta. Aí está, verdadeiramente, o “coração” da Aliança; aí se define o caminho que Israel deve percorrer para ser o Povo de Deus.
A lista dos “dez mandamentos” é uma lista irregular, com mandamentos enunciados com brevidade e secura, sem nenhuma justificação (“não matarás”; não roubarás”) e outros mais desenvolvidos, contendo um comentário explicativo (cf. Ex 20,4.17), uma motivação (cf. Ex 20,7) ou uma promessa (cf. Ex 20,12). Por vezes Deus fala em primeira pessoa (cf. Ex 20,2.5-6); noutras, fala-se de Deus em terceira pessoa (cf. Ex 20,7.11.12). Dois mandamentos são formulados positivamente (cf. Ex 20,8: “lembra-te”; Ex 20,12: “honra”); todos os outros são formulados negativamente (“não matarás”; “não roubarás”). Estas irregularidades significam que o “decálogo” sofreu, através dos séculos, por motivos pastorais e catequéticos, retoques, acrescentos, comentários, modificações.
É provável que Moisés tenha uma certa relação com estas leis que estão no centro da Aliança entre Deus e o seu Povo; mas o texto, na sua forma actual, não vem de Moisés. É, certamente, um texto muito trabalhado, que sofreu muitas elaborações ao longo dos séculos. Ainda que esta lista de preceitos possa lembrar algumas listas de proibições encontradas na Babilónia e no Egipto, ocupa um lugar à parte no conjunto dos formulários legais dos povos do Crescente Fértil: é um núcleo legal sóbrio e equilibrado, despojado de tudo aquilo que nos outros povos é magia, superstição, tabu.

MENSAGEM

O “decálogo” abarca os dois vectores fundamentais da existência humana: a relação do homem com Deus e a relação que cada homem estabelece com o seu próximo.
Os primeiros quatro mandamentos dizem respeito à relação que Israel deve estabelecer com Deus (vers. 3-11). Dois, sobretudo, são de uma tremenda originalidade (o mandamento que obriga Israel a não ter outro Deus, outro Senhor, outra referência; e o mandamento que proíbe construir imagens de Deus), pois não encontram paralelo em nenhuma das religiões antigas que conhecemos.
A questão essencial que sobressai, nestes quatro mandamentos, é esta: Jahwéh deve ser a referência fundamental da vida do Povo, o centro à volta do qual se constrói toda a existência de Israel. Nada nem ninguém deve ocupar, no coração do Povo, o lugar que só a Deus pertence. É preciso que Israel reconheça que só em Jahwéh está a vida e a salvação (vers. 3: “não terás nenhum deus além de mim”); é necessário que Israel reconheça a absoluta transcendência de Jahwéh – que não pode ser reproduzida em qualquer criatura feita pelo homem – e não se prostre perante obras criadas pela mão do homem (vers. 4: não farás para ti qualquer imagem esculpida… não hás-de prostrar-te diante delas, nem prestar-lhes culto”); é preciso que Israel reconheça que não deve manipular Deus e usá-l’O em apoio de projectos e interesses puramente humanos (vers. 7: “não hás-de invocar o nome do Senhor teu Deus em apoio do que não tem fundamento”); é preciso que Israel reconheça que só o Senhor é o dono do tempo e que reserve espaço para o encontro e o louvor do Senhor (vers. 8: “hás-de lembrar-te do dia de sábado, a fim de o santificares”).
Os outros seis mandamentos dizem respeito às relações comunitárias (vers. 12-17). Procuram inculcar o respeito absoluto pelo próximo – a sua vida, os seus direitos na comunidade, os seus bens. São “a magna carta da liberdade, da justiça, do respeito pela pessoa e pela sua dignidade”. Recomendam que cada membro da comunidade reconheça a sua dependência dos outros e aceite a sua vinculação a uma família e a uma cultura (vers. 12: “honra teu pai e tua mãe”); pedem que cada membro do Povo de Deus respeite a vida do irmão (vers. 13: “não matarás”); recomendam que seja defendida a família e respeitadas as relações familiares (vers. 14: “não cometerás adultério”); exigem que se respeite absolutamente quer os bens, quer a própria liberdade dos outros membros da comunidade (vers. 15: “não tomarás para ti” – o que pode referir-se a pessoas ou a coisas. Pode traduzir-se por “não roubarás”, mas também por “não privarás de liberdade o teu irmão, não o reduzirás à escravidão”); pedem o respeito pelo bom nome e pela fama do irmão, nomeadamente dando sempre um testemunho verdadeiro diante do tribunal e garantindo a fiabilidade de uma justiça que é a base da correcta ordem social (vers. 16: “não levantarás falso testemunho contra o teu próximo”); exigem o respeito pelos “bens básicos” que asseguram ao irmão a sua subsistência e procuram evitar que o coração dos membros da comunidade do Povo de Deus seja dominado pela cobiça e pelos instintos egoístas (vers. 17: “não cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás a mulher dele, nem o criado ou a criada, o boi ou o jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”).
Porque é que Deus apresentou estas propostas a Israel e lhe recomendou este caminho? Qual o interesse de Deus em que Israel viva de acordo com as regras aqui apresentadas? O que é que Deus “tem a ganhar” com a fidelidade do Povo a estas normas?
A resposta a esta questão está na primeira afirmação do Decálogo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto, da casa da servidão” (vers. 2). Jahwéh, o Deus libertador, está interessado em que Israel se liberte definitivamente da escravidão e se torne um Povo livre e feliz. Os “mandamentos” são, precisamente, um contributo de Deus para isso. Ao colocar estes “sinais” no percurso do seu Povo, Jahwéh não está a limitar a liberdade de Israel, mas está a propor ao Povo um caminho de liberdade e de vida plena. Os mandamentos pretendem ajudar Israel a deixar a escravidão do egoísmo, da auto-suficiência, da injustiça, do comodismo, das paixões, da cobiça, de exploração… Os mandamentos nascem do amor de Jahwéh a Israel e procuram indicar ao Povo o caminho para ser feliz. A resposta do Povo a essa preocupação de Deus será aceitar as indicações e viver de acordo com esses preceitos. Israel responderá, assim, ao amor de Deus e será feliz. É essa Aliança que Jahwéh quer fazer com o seu Povo, é esse o “interesse” de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

• Os mandamentos que dizem respeito à relação do homem com Deus sublinham a centralidade que Deus deve assumir no coração e na vida do seu Povo. Na vida de todos os dias somos, com frequência, seduzidos por outros “deuses” – o dinheiro, o poder, os afectos humanos, a realização profissional, o reconhecimento social, os interesses egoístas, as ideologias, os valores da moda – que se tornam o objectivo supremo, no valor último que condiciona os nossos comportamentos, as nossas atitudes e as nossas opções. Com frequência, prescindimos de Deus e instalamo-nos num esquema de orgulho e de auto-suficiência que coloca Deus e as suas propostas fora da nossa vida. A Palavra de Deus garante-nos: esse não é um caminho que nos conduza em direcção à vida definitiva e à liberdade plena. Neste tempo de Quaresma, somos convidados a voltarmo-nos para Deus e a redescobrirmos o seu papel fundamental na nossa existência… Quais são os “deuses” que nos seduzem mais e que condicionam a nossa vida, as nossas tomadas de posição, as nossas opções? Que espaço é que reservamos, na nossa vida, para o verdadeiro Deus?

• Os mandamentos que dizem respeito à nossa relação com os irmãos convidam-nos a despir esses comportamentos que geram violência, egoísmo, agressividade, cobiça, intolerância, escravidão, indiferença face às necessidades dos outros. Tudo aquilo que atenta contra a vida, a dignidade, os direitos dos nossos irmãos, é algo que gera morte, sofrimento, escravidão, para nós e para todos os que nos rodeiam e é algo que contribui para subverter os projectos de vida e de felicidade que Deus tem para nós e para o mundo. O que é que, nos meus gestos, nas minhas atitudes, nos meus valores, é gerador de injustiça, de sofrimento, de exploração, de escravidão, de morte, para mim e para todos aqueles que me rodeiam?

• O que está aqui em jogo não é o respeitar regras “religiosamente correctas”, o evitar que Deus tenha razões de queixa contra nós, ou o fugir aos castigos divinos; mas é, antes de mais, o construir a nossa própria felicidade. É preciso aprendermos a não ver os “mandamentos” de Deus como propostas reaccionárias, descabidas e ultrapassadas, inventados por uma moral obsoleta e antiquada, que apenas servem para limitar a nossa liberdade ou para impedir a nossa autonomia; mas é preciso ver os “mandamentos” como “sinais de trânsito” com os quais Deus, no seu amor e na sua preocupação com a nossa realização plena, nos ajuda a percorrer os caminhos da liberdade e da vida verdadeira.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 18 (19)

Refrão: Senhor, Vós tendes palavras de vida eterna.

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma;
as ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples.

Os preceitos do Senhor são rectos
e alegram o coração;
os mandamentos do Senhor são claros
e iluminam os olhos.

O temor do senhor é puro
e permanece para sempre;
os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos.

São mais preciosos que o ouro,
o ouro mais fino;
são mais doces que o mel,
o puro mel dos favos.


LEITURA II – 1 Cor 1, 22-25

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Os judeus pedem milagres
e os gregos procuram a sabedoria.
Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado,
escândalo para os judeus e loucura para os gentios;
mas para aqueles que são chamados,
tanto judeus como gregos,
Cristo é poder e sabedoria de Deus.
Pois o que é loucura de Deus
é mais sábio do que os homens
e o que é fraqueza de Deus
é mais forte do que os homens.

AMBIENTE

No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52).
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Um dos graves problemas da comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com uma escola de sabedoria: os cristãos de Corinto – na linha do que acontecia nas várias escolas de filosofia que infestavam a cidade – viam várias figuras proeminentes do cristianismo primitivo como mestres de uma doutrina e aderiam a essas figuras, esperando encontrar nelas uma proposta filosófica credível, que os conduzisse à plenitude da sabedoria e da realização humana. É de crer que os vários adeptos desses vários mestres se confrontassem na comunidade, procurando demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: esta perspectiva punha em causa o essencial da fé.
Paulo vai esforçar-se, então, por demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia coerente, brilhante, elegante, que conduza à sabedoria, entendida à maneira dos gregos. Quem procura na mensagem cristã um sistema lógico, coerente, inquestionável à luz da lógica humana, é porque não percebeu nada do essencial da mensagem cristã, da “loucura da cruz”.

MENSAGEM

Judeus e gregos, cada um à sua maneira, buscam seguranças. Os judeus procuram milagres que garantam a veracidade da mensagem anunciada; os gregos procuram as belas palavras, a coerência do discurso, a lógica dos argumentos… Na verdade, Jesus não Se apresentou como um Deus espectacular, a exibir o seu poder e as suas qualidades divinas através de gestos estrondosos e milagrosos, como os judeus estavam à espera; nem Se apresentou como o “mestre” iluminado de uma filosofia capaz de se impor pelo brilho das suas premissas e pela sua lógica inatacável, como os gregos gostariam.
A essência da mensagem cristã está na “loucura da cruz” – isto é, na lógica ilógica de um Deus que veio ao encontro da humanidade, que fez da sua vida um dom de amor e que aceitou uma morte maldita para ensinar aos homens que a verdadeira vida é aquela que se coloca integralmente ao serviço dos irmãos, até à morte. No entanto, foi precisamente dessa forma que Deus apresentou aos homens o seu projecto de salvação e de vida definitiva. Na cruz de Jesus manifestou-se, de forma plena, o poder salvador de Deus. Decididamente, considera Paulo, a lógica de Deus não é exactamente igual à lógica dos homens.
O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. Nele manifesta-se de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

• O nosso texto convida-nos a descobrir e a interiorizar a lógica de Deus, que é bem diferente da lógica dos homens. Os homens sentem-se mais seguros e confortáveis diante de líderes vencedores, que se impõem pela força e que exibem o seu poder através de gestos espectaculares; e Deus aparece-lhes na figura de um obscuro carpinteiro galileu, condenado pelas autoridades constituídas, abandonado por amigos e discípulos, escarnecido pelas multidões, e morto numa cruz fora dos muros da cidade. Os homens gostam de ser convencidos por projectos intelectualmente brilhantes, que apresentem argumentos fortes e uma lógica inquestionável; e Deus oferece-lhes um projecto de salvação que passa pela morte na cruz, em plena e radical contradição com todos os esquemas mentais e toda a lógica humana. O apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus… É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.

• A força e a “sabedoria de Deus” manifestam-se na fragilidade, na pequenez, na obscuridade, na pobreza, na humildade. Sendo assim, não nos parecem ridículas, descabidas e pretensiosas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de êxito humano?

• “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios”. Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem anunciar a mensagem com verdade e radicalidade, renunciando à tentação de a suavizar, de a tornar mais “politicamente correcta”, de a tornar menos radical e interpelativa. Às vezes, o invólucro “brilhante” com que envolvemos a Palavra torna-a mais atractiva, mas menos questionante e, portanto, menos transformadora.


ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Jo 3,16

(escolher um dos 7 refrães)

1. Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.
2. Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.
3. Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.
4. Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.
5. Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.
6. Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.
7. A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito;
quem acredita n’Ele tem a vida eterna.


EVANGELHO – Jo 2, 13-25

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Estava próxima a Páscoa dos judeus
e Jesus subiu a Jerusalém.
Encontrou no templo
os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas
e os cambistas sentados às bancas.
Fez então um chicote de cordas
e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois;
deitou por terra o dinheiro dos cambistas
e derrubou-lhes as mesas;
e disse aos que vendiam pombas:
«Tirai tudo isto daqui;
não façais da casa de meu Pai casa de comércio».
Os discípulos recordaram-se do que estava escrito:
«Devora-me o zelo pela tua casa».
Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe:
«Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?»
Jesus respondeu-lhes:
«Destruí este templo e em três dias o levantarei».
Disseram os judeus:
«Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo
e Tu vais levantá-lo em três dias?»
Jesus, porém, falava do templo do seu corpo.
Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,
os discípulos lembraram-se do que tinha dito
e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus dissera.
Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa,
muitos, ao verem os milagres que fazia,
acreditaram no seu nome.
Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos
e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém:
Ele bem sabia o que há no homem.

AMBIENTE

O episódio que hoje nos é proposto aparece na “secção introdutória” do Evangelho de João (cf. Jo 1,19-3,36), onde se diz quem é Jesus e se apresentam as grandes linhas programáticas do seu ministério.
A cena situa-nos no Templo de Jerusalém. Trata-se desse Templo majestoso, construído por Herodes para demonstrar as suas boas disposições para com o culto a Jahwéh e para conseguir a benevolência dos judeus. A construção do Templo iniciou-se em 19 a.C. e ficou essencialmente pronta no ano 9 d.C. (embora os trabalhos só tivessem sido dados por concluídos em 63 d.C.). No ano 27 d.C., efectivamente, o Templo estava a ser construído há 46 anos e ainda não estava terminado, conforme a observação que os dirigentes judeus fizeram a Jesus (cf. Jo 2,20).
João situa o episódio nos dias que antecedem a festa da Páscoa. Era a época em que as grandes multidões se concentravam em Jerusalém para celebrar a festa principal do calendário religioso judaico. Jerusalém, que normalmente teria à volta de 55.000 habitantes, chegava a albergar cerca de 125.000 peregrinos nesta altura. No Templo sacrificavam-se cerca de 18.000 cordeiros, destinados à celebração pascal.
Neste ambiente, o comércio relacionado com o Templo sofria um espantoso incremento. Três semanas antes da Páscoa, começava a emissão de licenças para a instalação dos postos comerciais à volta do Templo. O dinheiro arrecadado com a emissão dessas licenças revertia para o sumo-sacerdote. Havia tendas de venda que pertenciam, directamente, à família do sumo-sacerdote. Vendiam-se os animais para os sacrifícios e vários outros produtos destinados à liturgia do Templo. Havia, também, as tendas dos cambistas que trocavam as moedas romanas correntes por moedas judaicas (os tributos dos fiéis para o Templo eram pagos em moeda judaica, pois não era permitido que moedas com a efígie de imperadores pagãos conspurcassem o tesouro do Templo). Este comércio constituía uma mais valia para a cidade e sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados do Templo.
Vai ser neste contexto que Jesus vai realizar o seu gesto profético.

MENSAGEM

Os profetas de Israel tinham, em diversas situações, criticado o culto sacrificial que Israel oferecia a Deus, considerando-o como um conjunto de ritos estéreis, vazios e sem significado, uma vez que não eram expressão verdadeira de amor a Jahwéh; tinham, inclusive, denunciado a relação do culto com a injustiça e a exploração dos pobres (cf. Am 4,4-5; 5,21-25; Os 5,6-7; 8,13; Is 1,11-17; Jer 7,21-26). As considerações proféticas tinham, de alguma forma, consolidado a ideia de que a chegada dos tempos messiânicos implicaria a purificação e a moralização do culto prestado a Jahwéh no Templo. O profeta Zacarias liga explicitamente o “dia do Senhor” (o dia em que Deus vai intervir na história e construir um mundo novo, através do Messias) com a purificação do culto e a eliminação dos comerciantes que estão “no Templo do Senhor do universo” – Zac 14,21).
O gesto que o Evangelho deste domingo nos relata deve entender-se neste enquadramento. Quando Jesus pega no chicote de cordas, expulsa do Templo os vendedores de ovelhas, de bois e de pombas, deita por terra os trocos dos banqueiros e derruba as mesas dos cambistas (vers. 14-16), está a revelar-Se como “o messias” e a anunciar que chegaram os novos tempos, os tempos messiânicos.
No entanto, Jesus vai bem mais longe do que os profetas vétero-testamentários. Ao expulsar do Templo também as ovelhas e os bois que serviam para os ritos sacrificiais que Israel oferecia a Jahwéh (João é o único dos evangelistas a referir este pormenor), Jesus mostra que não propõe apenas uma reforma, mas a abolição do próprio culto. O culto prestado a Deus no Templo de Jerusalém era, antes de mais, algo sem sentido: ao transformar a casa de Deus num mercado, os líderes judaicos tinham suprimido a presença de Deus… Mas, além disso, o culto celebrado no Templo era algo de nefasto: em nome de Deus esse culto criava exploração, miséria, injustiça e, por isso, em lugar de potenciar a relação do homem com Deus, afastava o homem de Deus. Jesus, o Filho, com a autoridade que Lhe vem do Pai, diz um claro “basta” a uma mentira com a qual Deus não pode continuar a pactuar: “não façais da casa de meu Pai casa de comércio” (vers. 16).
Os líderes judaicos ficam indignados. Quais são as credenciais de Jesus para assumir uma atitude tão radical e grave? Com que legitimidade é que Ele se arroga o direito de abolir o culto oficial prestado a Jahwéh?
A resposta de Jesus é, à primeira vista, estranha: “destruí este Templo e Eu o reconstruirei em três dias” (vers. 19). Recorrendo à figura literária do “mal-entendido” (propõe-se uma afirmação; os interlocutores entendem-na de forma errada; aparece, então, a explicação final, que dá o significado exacto do que se quer afirmar), João deixa claro que Jesus não Se referia ao Templo de pedra onde Israel celebrava os seus ritos litúrgicos (vers. 20), mas a um outro “Templo” que é o próprio Jesus (“Jesus, porém, falava do Templo do seu corpo” – vers. 21). O que é que isto significa? Jesus desafia os líderes que O questionaram a suprimir o Templo que é Ele próprio, mas deixa claro que, três dias depois, esse Templo estará outra vez erigido no meio dos homens. Jesus alude, evidentemente, à sua ressurreição. A prova de que Jesus tem autoridade para “proceder deste modo” é que os líderes não conseguirão suprimi-l’O. A ressurreição garante que Jesus vem de Deus e que a sua actuação tem o selo de garantia de Deus.
No entanto, o mais notável, aqui, é que Jesus Se apresenta como o “novo Templo”. O Templo representava, no universo religioso judaico, a residência de Deus, o lugar onde Deus Se revelava e onde Se tornava presente no meio do seu Povo. Jesus é, agora, o lugar onde Deus reside, onde Se encontra com os homens e onde Se manifesta ao mundo. É através de Jesus que o Pai oferece aos homens o seu amor e a sua vida. Aquilo que a antiga Lei já não conseguia fazer – estabelecer relação entre Deus e os homens – é Jesus que, a partir de agora, o faz.

ACTUALIZAÇÃO

• Como é que podemos encontrar Deus e chegar até Ele? Como podemos perceber as propostas de Deus e descobrir os seus caminhos? O Evangelho deste domingo responde: é olhando para Jesus. Nas palavras e nos gestos de Jesus, Deus revela-Se aos homens e manifesta-lhes o seu amor, oferece aos homens a vida plena, faz-Se companheiro de caminhada dos homens e aponta-lhes caminhos de salvação. Neste tempo de Quaresma – tempo de caminhada para a vida nova do Homem Novo – somos convidados a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.

• Os cristãos são aqueles que aderiram a Cristo, que aceitaram integrar a sua comunidade, que comeram a sua carne e beberam o seu sangue, que se identificaram com Ele. Membros do Corpo de Cristo, os cristãos são pedras vivas desse novo Templo onde Deus Se manifesta ao mundo e vem ao encontro dos homens para lhes oferecer a vida e a salvação. Esta realidade supõe naturalmente, para os crentes, uma grande responsabilidade… Os homens do nosso tempo têm de ver no rosto dos cristãos o rosto bondoso e terno de Deus; têm de experimentar, nos gestos de partilha, de solidariedade, de serviço, de perdão dos cristãos, a vida nova de Deus; têm de encontrar, na preocupação dos cristãos com a justiça e com a paz, o anúncio desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens. Talvez o facto de Deus parecer tão ausente da vida, das preocupações e dos valores dos homens do nosso tempo tenha a ver com o facto de os discípulos de Jesus se demitirem da sua missão e da sua responsabilidade… O nosso testemunho pessoal é um sinal de Deus para os irmãos que caminham ao nosso lado? A vida das nossas comunidades dá testemunho da vida de Deus? A Igreja é essa “casa de Deus” onde qualquer homem ou qualquer mulher pode encontrar essa proposta de libertação e de salvação que Deus oferece a todos?

• Qual é o verdadeiro culto que Deus espera? Evidentemente, não são os ritos solenes e pomposos, mas vazios, estéreis e balofos. O culto que Deus aprecia é uma vida vivida na escuta das suas propostas e traduzida em gestos concretos de doação, de entrega, de serviço simples e humilde aos irmãos. Quando somos capazes de sair do nosso comodismo e da nossa auto-suficiência para ir ao encontro do pobre, do marginalizado, do estrangeiro, do doente, estamos a dar a resposta “litúrgica” adequada ao amor e à generosidade de Deus para connosco.

• Ao gesto profético de Jesus, os líderes judaicos respondem com incompreensão e arrogância. Consideram-se os donos da verdade e os únicos intérpretes autênticos da vontade divina. Instalados nas suas certezas e preconceitos, nem sequer admitem que a denúncia que Jesus faz esteja correcta. A sua auto-suficiência impede-os de ver para além dos seus projectos pessoais e de descobrir os projectos de Deus. Trata-se de uma atitude que, mais uma vez, nos questiona… Quando nos barricamos atrás de certezas absolutas e de atitudes intransigentes, podemos estar a fechar o nosso coração aos desafios e à novidade de Deus.


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 3º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. PALAVRA DE VIDA.
Jesus vem mudar a maneira de encontrar Deus seu Pai. Até aqui bastava ir ao templo, doravante é preciso escutar a mensagem de amor do seu Enviado e beneficiar dos seus gestos de salvação, sinais da bondade de Jesus para com os homens. Mesmo que se procure destruir o verdadeiro templo de Deus entre os homens, o seu próprio Filho, Ele levantar-se-á. E quando tiver desaparecido aos olhos dos homens, é a sua Igreja que será o novo templo, porque Deus vem morar no meio dos homens. Se os seus discípulos se recordam das palavras e dos gestos de Jesus, é para fazer memória da fidelidade de Deus. É com os olhos da fé que reconheceram, nos sinais realizados por Jesus, a acção de Deus. E se hoje podemos fazer memória da morte e da ressurreição de Cristo, tal acontece graças a todos estes testemunhas que acreditaram e contaram o que tinham visto e ouvido.

3. À ECUTA DA PALAVRA.
Imensa vocação de todo o baptizado… É no Templo de Jerusalém que Jesus tinha estabelecido a sua morada. É certo que os Judeus sabiam que não se pode encerrar Deus dentro de quatro muros. Mas era somente no Templo que era preciso oferecer os sacrifícios, o culto de adoração e de acção de graças. É preciso também dizer que os escribas e os doutores da Lei tinham bem fechado o acesso a Deus. Eis que com Jesus surge algo de inaudito: Deus salta o muro! E a cólera de Jesus é a manifestação disso. Doravante, Deus deixa-Se aproximar num homem que não é um especialista do Templo, um homem que encontra as prostitutas, os publicanos, que come com eles, sem nunca pedir a ninguém para ir primeiro purificar-se no Templo. Doravante, dirá São Paulo, “em Jesus temos livre acesso ao Pai”. Quando vamos comungar, é este homem, Jesus ressuscitado, que vem encher-nos com a sua Presença. E, de repente, tornamo-nos a Presença de Deus junto dos nossos irmãos e das nossas irmãs. Imensa vocação de todo o baptizado! Estamos verdadeiramente conscientes disso?

4. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Reler e meditar os dez Mandamentos… Esta semana, somos convidados a retomar muitas vezes esta oração do Salmo 18, a cantar este louvor da lei do Senhor, que é um apoio para a nossa vida, que nos ajuda ao discernimento, que nos dá a sabedoria e vai guiar-nos na boa direcção se nos deixarmos conduzir pelo Espírito do Senhor… Convite à disponibilidade, à confiança. De seguida, convite a reler e meditar estes “dez mandamentos” que pensamos conhecer: embora sendo da “antiga Aliança”, têm algo a dizer-nos e a revelar-nos de Deus, que só quer a nossa felicidade.


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.pt – www.ecclesia.pt/dehonianos

Sábado - 2ª Semana da Quaresma - 07.03.2015


Lectio

Primeira leitura: Miqueias 7, 14-15.18-20

14Apascenta com o cajado o teu povo, o rebanho da tua herança, os que habitam isolados nas florestas no meio dos prados. Sejam eles apascentados em Basan e Guilead, como nos dias antigos. 15 Mostra-nos os teus prodígios, como nos dias em que nos tiraste do Egipto. 18Qual é o Deus que, como Tu, apaga a iniquidade e perdoa o pecado do resto da sua herança? Não se obstina na sua cólera, porque prefere a bondade. 19 Uma vez mais, terá compaixão de nós, apagará as nossas iniquidades e lançará os nossos pecados ao fundo do mar. 20 Mostrarás a tua fidelidade a Jacob, e a tua bondade a Abraão, como juraste a nossos pais, desde os tempos antigos.

Regressado do exílio em Babilónia, o povo de Israel confrontou-se com grandes dificuldades e teve saudades da fartura das terras da Transjordânia, tal como, ao regressar do Egipto, perante as dificuldades do deserto, teve saudades do peixe, dos pepinos, dos melões, dos alhos porros, das cebolas e dos alhos que comia no Egipto (cf. Nm 11, 6). Nesta situação, Miqueias ergue um lamento, quase que uma elegia fúnebre (v. 14): «Mostra-nos os teus prodígios, como nos dias em que nos tiraste do Egipt(J» (v. 15). E entra em cena Aquele que é o protagonista dos grandes eventos salvíficos: Deus preparou um lugar deserto onde, Ele mesmo, apascenta o seu rebanho disperso, que só n ' Ele encontra segurança e só n ' Ele confia. Então, o profeta entoa um hino cheio de emoção a Deus que perdoa (w. 18-20). Deus é como um pai que se comove diante do sofrimento dos filhos que erraram e sofrem as consequências dos seus erros (v. 19). Como nos tempos do êxodo, levado por um instinto quase materno, Deus usa de compaixão para com o seu povo, apaga as suas culpas e lança-as ao mar, do mesmo modo que nele afogou o faraó e os seus exércitos (cf. Ex 15). A sua fidelidade manifesta-se na gratuidade do perdão, para que o «resto» do seu povo possa manter-se fiel à Aliança (v. 20).

Evangelho: Lucas 15, 1-3.11-32

1 Aproximavam-se dele todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. 2 Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles.» 3Jesus propôs-lhes, então, esta parábola: 11 Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. 120 mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde. ' E o pai repartiu os bens entre os dois. 13 Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. 14 Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. 15 Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. 16 Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17 E, caindo em si, disse: 'Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18 Levsntsr-me-el. irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; 19já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.' 20 E, levantando-se, foi ter com o pai. Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo­se de compaixão, correu a tençsr-se-Ihe ao pescoço e cobriu-o de beijos.

210 filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. ,22 Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. 23 Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, 24porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' E a festa principiou. 250ra, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27 Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo. ,28 Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. 29 Respondendo ao pai, disse-lhe: 'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; 30 e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.' 31 O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32 Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado. »

As parábolas da misericórdia (Lc 15) revelam-nos o rosto do Pai bom, disposto a perdoar, a acolher e a fazer festa com os filhos que reconhecem o seu pecado. Hoje, escutamos a parábola do filho pródigo. Este decide organizar a sua vida segundo os seus projectos, rejeitando os do pai. Por isso, exige ao pai a sua herança. Este termo equivale a vida (v. 12) ou a património. Obtido o que pede, parte e esbanja «tudo quanto possuía (a sua riqueza), numa vida desreçrsde-. Este filho perde os bens, mas perde, sobretudo, a si mesmo. A experiência da miséria (v. 17) fá-lo cair em si e dar-se conta da desgraça a que o levara a sua vida de estroina. Decide, então, regressar a casa e recomeçar uma vida nova. O pai esperava-o (v. 20), porque nunca tinha deixado o seu coração afastar-se daquele filho. Recebe-o comovido e de braços abertos, restituindo-lhe a dignidade perdida (w. 22-24).

Com esta parábola, Jesus revela o modo de agir do Pai, e o seu, em relação aos pecadores que se aproximam e dão um sinal de arrependimento. Mas os fariseus e os escribas, recusam-se a participar na festa do perdão, como o filho mais velho (v. 29), sempre bem comportado e que, por isso, até se julga credor do pai. O pai não desiste, nem diante deste filho malévolo. Por isso, sai de casa, revelando a todos o amor que sabe esperar, procurar, exortar, porque todos quer abraçar e reunir na sua morada.

Meditatio

Esta parábola é claramente dirigida aos fariseus e escribas que criticavam Jesus pelo modo como lidava e tratava com os pecadores (cf. w 1-3). A intenção principal de Jesus vê-se no fim da narração, na reacção do filho mais velho e nas palavras do Pai, que são a chave de interpretação de toda a parábola. Todos podemos ver-nos num ou noutro filho, no pecador assumido ou no justo presumido. O pai sai sempre ao encontro de um e de outro, quer venha da dispersão, como o filho pródigo, quer venha das regiões de uma falsa justiça ou de uma falsa fidelidade, como o filho mais velho. O importante, para nós, quer venhamos de uma ou de outra situação, é que nos deixemos acolher e abraçar pelo Pai bom, que quer a felicidade de todos os seus filhos.

Talvez seja relativamente fácil ver-nos no filho pródigo. Pode ser mais difícil dar-nos conta de que pensamos e reagimos como o filho mais velho, que contabiliza o que dá ao Pai e o que não recebe d ' Ele, tal como contabiliza o que irmão mais novo recebeu, sem dar nada em troca, e até ofendendo o Pai. E clamamos pela injustiça. Pode-se julgar anormal manifestar tanta bondade a quem cometeu o mal. Mas o Senhor quer fazer-nos compreender que, para quem é fiel a Deus, está reservada uma recompensa ainda maior: não a alegria de receber, mas a alegria de dar. «A felicidade está mais em dar do que em receber» (Act 20, 35).

Esta é, por excelência, a parábola da misericórdia. Mais que «parábola do filho pródigo», deve ser chamada «parábola do Pai misericordioso», do Pai pródigo em misericórdia. Como Ele, havemos de aprender a abrir o coração a todos os irmãos, a estarmos com Ele para acolher os pródigos ou os pretensos justos, a vermos a todos do seu ponto de vista, que não é a justiça fria e cega.

Todo o evangelho de Jesus é uma mensagem de alegria, sobretudo para os pobres, para os infelizes, para os pecadores. A alegria por causa de um pecador que se arrepende é alegria de Deus. "As parábolas de Lc 15 são uma trilogia do perdão e da misericórdia divina e mostram-nos a estreita ligação que há entre o perdão e a alegria, entre a conversão e a festa. Tal como a ovelha tresmalhada ou a dracma perdida são causa de alegria para quem as encontra, assim também exulta de alegria o coração de Deus, quando um dos Seus filhos regressa a Ele. Mais ainda, todo o céu faz festa por um pecador que se converte, porque se trata de um irmão que estava morto e volta à vida, estava perdido e foi encontrado".

Oratio

Pai misericordioso, que estás sempre à nossa espera, para nos acolher, nos abraçar, nos perdoar e nos restituir a dignidade de filhos, acende em nós a saudade de Ti, do teu amor. Faz-nos voltar à tua intimidade, quer sejamos pródigos dispersos, quer sejamos justos presumidos. Queremos fazer festa Contigo e com todos os teus filhos, nossos irmãos. Queremos aprender que há maior alegria em dar do que em receber. Queremos aprender a ser pródigos em misericórdia para com todos os nossos irmãos, para não termos inveja dos dons que lhes fazes, para sabermos desculpar e perdoar as suas faltas, para sabermos alegrar-nos com eles e Contigo, quando manifestarem algum sinal de arrependimento, alguma vontade de regressarem à casa que, connosco e com eles, queres partilhar. Amen.

Contemplatio

Quem vem? O Pai de misericórdia que nos ama ternamente. - Chama-nos seus filhinhos: filioli. Descreveu-se com complacência na parábola do filho pródigo.

Eu sou este filho pródigo, que viveu, se não na luxúria, pelo menos na vaidade e na inutilidade.

Volto para o meu Pai, hesitante, tímido, temeroso, mas ele está lá, que me acolhe com amor. O seu coração bate fortemente no seu peito. Deseja-me com ardor, observa, procura. E se regresso, atira-se ao meu pescoço e aperta-me contra si, coração contra coração.

E chama os seus servos, os seus anjos, para me darem tudo o que perdi. Nada falta: o manto de outrora, o anel de nobreza, os sapatos, e o vitelo gordo para a festa.





o Coração de Jesus está emocionado; os seus olhos choram de ternura, mas sorriem de alegria: «Alegremo-nos, diz o bom Mestre, este filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado» (Leão Dehon, 05P 3, p. 653).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Converteste o meu pranto em festa» (5130, 12).


Fonte http://www.dehonianos.org/

Sexta-feira - 2ª Semana da Quaresma - 06.03.2015


Lectio

Primeira leitura: Génesis 37, 3-4.12-13a.17b-28

3 Ora Israel preferia José aos seus outros filhos, porque era o filho da sua velhice, e mandara-lhe fazer uma túnica comprida.

40S irmãos, vendo que o pai o amava mais do que a todos eles, ganharam-lhe ódio e não podiam falar-lhe amigavelmente. 12 Um dia, os irmãos de José conduziram os rebanhos de seu pai para Siquém. 13 E Israel disse a José: «Os teus irmãos apascentam os rebanhos em Siquém. José seguiu os passos dos irmãos e encontrou-os em Dotain. 18 Eles viram-no de longe e, antes que se aproximasse, fizeram planos para o matar.

19 Disseram uns aos outros: «Eis que se aproxima o homem dos sonhos. 20Vamos, matemo-lo, atiremo-lo a qualquer cisterna e depois diremos que um animal feroz o devorou. Veremos, então, como se realizarão os seus sonhos.» 21Rúben ouviu-­os e quis salvá-lo das suas mãos. Então disse: «Não atentemos contra a sua vida» 22 Rúben disse ainda: «Não derrameis sangue! Atirai-o à cisterna que está no deserto, mas não levanteis a mão contra ele.»

O seu intento era livrá-lo das suas mãos para o fazer regressar ao seu pai.

23Quando José chegou junto dos irmãos, estes despojaram-no da túnica comprida que usava 24 e, agarrando-o, lançaram-no à cisterna. Esta estava vazia e sem água. 25 Depois, sentaram-se para comer. Erguendo, porém, os olhos, viram uma caravana de ismaelitas que vinha de Guilead. Os camelos estavam carregados de aroma, de bálsamo e láudano, que levavam para o Egipto. 26 Judá disse aos irmãos: «Que vantagem tiramos da morte de nosso irmão, ocultando o seu sangue?» 27Vinde, vendamo-lo aos ismaelitas e que a nossa mão não caia sobre ele, porque é nosso irmão e da nossa família.» E os irmãos consentiram. 28Passaram por ali alguns negociantes madianitas, que conseguiram tirar José da cisterna; e eles venderam-no aos ismaelitas por vinte moedas de prata. Estes levaram José para o Egipto.

A história de José é mais um exemplo de como Deus escolhe os «pequenos» (v. 3) para realizar os seus projectos de salvação. Essas escolhas de Deus suscitam, muitas vezes, o ódio e a inveja (v. 4) que levam ao afastamento, se não mesmo à eliminação, do predilecto (w. 20.28).

A história tem evidentes objectivos didácticos. A sua composição, a partir de legendas com origem em diferentes tradições literárias da Bíblia, javista, eloista, sacerdotal, explica algumas divergências como a iniciativa de salvar José ora atribuída a Ruben (v. 21), ora atribuída a Judá (w. 26s.). Há, em toda a história, um horizonte de optimismo e universalidade (v. 28): dentro das intrigas e contendas tribais, actua a invisível providência de Deus (cf. 45, 7; 50, 20), que conduz o seu eleito por aparentes caminhos de morte, mas que acaba por ser salvo e salvar a todos. José é um homem permanentemente atento aos sinais da vontade de Deus, mesmo durante os sonhos, que aprende a interpretar (cf. v. 19). A túnica de príncipe separa-o dos irmãos, cavando uma profunda incomunicabilidade entre eles (v. 4).

José é figura de Cristo: a sua perseguição e o seu sangue são o preço que o pai tem de pagar para abraçar, num só amplexo, todos os filhos, já não unidos pela corresponsabilidade no mal (v. 25), mas pelo beijo de paz que, com o perdão (cf. 45, 15), lhes é oferecido pelo irmão inocente.

Evangelho: Mateus 21, 33-43.45-46

Naquele tempo, Jesus disse aos príncipes dos sacerdotes e aos ansiãos do povo: 33 «Escutai outra parábola:

Um chefe de família plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, construiu uma torre, arrendou-a a uns vinhateiros e ausentou-se para longe. 34Quando chegou a época das vindimas, enviou os seus servos aos vinhateiros, para receberem os frutos que lhe pertenciam. 35 Os vinhateiros, porém, apoderaram-se dos servos, bateram num, mataram outro e apedrejaram o terceiro. 36Tornou a mandar outros servos, mais numerosos do que os primeiros, e trataram-nos da mesma forma. 37 Finalmente, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: 'Hão-de respeitar o meu filho. ' 38 Mas os vinhateiros, vendo o filho, disseram entre si: 'Este é o herdeiro. Matemo-lo e ficaremos com a sua herança.' 39 E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. 400ra bem, quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?» 41 Eles responderam-lhe: «Dará morte afrontosa aos malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos na altura devida.» 42 Jesus disse-lhes: «Nunca lestes nas Escriturasque eram eles os visados. 46 Embora procurassem meio de o prender, temeram o povo, que o considerava profeta.

o v. 37, com o advérbio «ttnatmente. é a verdadeira pedra angular de todo o texto. Os judeus, a quem Jesus se dirige no átrio do templo, compreendem muito bem a parábola que lh:A pedra que os construtores rejeitaram transformou-se em pedra angular? Isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos?

43Por isso vos digo: O Reino de Deus ser-vos-é tirado e será confiado a um povo que produzirá os seus frutos. 45 Os sumos sacerdotes e os fariseus, ao ouvirem as suas parábolas, compreenderam es conta, inspirada na alegoria da vinha (cf. Is 5, 1-7).

Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos são os vinhateiros que têm o privilégio de cultivar a vinha predilecta de Deus, o povo de Israel. No momento da colheita, em vez de apresentarem os frutos ao dono, que é Deus, querem apropriar-se deles e maltratam os profetas que lhes são enviados. «Finalmente, Deus envia-lhes o seu próprio Filho, que é Jesus que lhes está a falar. É a última oportunidade que Deus lhes oferece para que se tornem seus colaboradores na obra da salvação. Mas acontece exactamente o que a parábola dizia sobre os vinhateiros malvados: compreenderam que eram eles os visados e procuravam prendê-I 'O (cf. vv. 45-46). E, conduzidos habilmente por Jesus, são eles mesmos que tiram as consequências de um tal acto: o dono, que é Deus, «Dará morte afrontosa aos malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos na altura devida» (v. 41).

Quando Mateus escreve este evangelho, já se tinham verificado a alegoria de Isaías e a profecia de Jesus: os chefes do povo de Israel tinham efectivamente matado o Filho fora da vinha - fora dos muros de Jerusalém - e a cidade santa já tinha sido destruída por Tito, no ano 70, e caído em mãos estrangeiras, o império romano. Os novos vinhateiros, os pagãos convertidos, cultivavam a nova vinha, a Igreja, dando a Deus abundantes frutos, com adesões cada vez mais numerosas à fé cristã.





Meditatio

José, de quem nos fala a primeira leitura, é uma impressionante figura de Jesus, tal como o filho herdeiro de que nos fala o evangelho. Em ambas as leituras escutamos já o «Crucifica-Ol». «Eis que se aproxima o homem dos sonhos. Vamos matemo-lo», disseram os irmãos de José; «Este é o herdeiro. Matemo-lo», disseram os vinhateiros malvados. O único protagonista é, portanto, Jesus, escondido na figura de José e na figura do filho herdeiro da parábola. Estes textos fazem-nos pensar nos sofrimentos do Coração de Jesus, morto por inveja, como nos referem os relatos da paixão. Foi a inveja que mobilizou a má vontade dos irmãos contra José e a dos vinhateiros contra o filho herdeiro da parábola.

Mas também se fala de nós nas leituras que escutamos hoje. Jesus é o protagonista. Mas nós também entramos na sua história. Somos os irmãos, somos os vinhateiros malvados. Mas não devemos desesperar com os nossos pecados. Na história de José, a inveja foi maravilhosamente vencida: no Egipto, José não puniu os irmãos, mas salvou-os. Soube ler a história das suas tribulações, do seu exílio, como preparação, querida por Deus, para poder salvar os seus irmãos e todo o seu povo no tempo da carestia. Jesus também venceu a inveja aceitando tornar-se o último de todos. Quando O contemplamos na cruz, não podemos dizer que cause inveja a alguém! Pondo-se no último lugar, Jesus revelou o seu poder. O domínio que o Pai lhe prometeu é um domínio de amor, no serviço de todos.

Ao escutarmos as leituras de hoje, não devemos, portanto, sentir-nos condenados, mas devemos erguer os olhos mais alto, para o coração do Pai. Jesus veio revelá-I' O. É Ele, o Pai, que, por amor, envia Jesus, como fora enviado José, a «procurar os irmãos» (cf. Gn 37, 16). A predilecção de Israel por José, ou do Pai por Jesus, não é mais do que uma particular participação no amor paterno. É esse amor, que tem origem no coração do Pai, que os torna diferentes e capazes de vencer a inveja, o ódio e a rivalidade, com o perdão.

Este mesmo amor do Pai foi derramado nos nossos corações. Tornando-nos diferentes, tornando-nos participantes da natureza divina, fez-nos capazes de amar ao jeito de Deus, de vencer a inveja, o ódio, com o perdão. Mas, provavelmente, como José, e como Jesus, Filho de Deus, teremos também nós que passar por algumas tribulações. Assim poderemos tornar-nos colaboradores de Deus na obra da reconciliação que está a realizar no coração do mundo. "A vida reparadora será, por vezes, vivida na oferta dos sofrimentos suportados com paciência e abandono, mesmo na noite escura e na solidão, como eminente e misteriosa comunhão com os sofrimentos e com a morte de Cristo pela redenção do mundo" (Cst. 24). "Para Glória e Alegria de Deus" (Cst. 25).

Oratio

Senhor Jesus, quanto me impressionam a história de José e a parábola dos vinhateiros malvados! Em José, e no filho herdeiro, vejo-Te a Ti mesmo, enviado pelo Pai, a reunir os seus filhos dispersos, a procurar os teus irmãos. Eu também sou um desses filhos, um dos teus irmãos. Contemplo-Te, vítima da inveja e do ódio, e penso nos sofrimentos do teu Coração sensível e inocente. Contemplo o amor obediente com que realizaste o projecto do Pai e nos alcançaste o perdão e a graça de uma vida nova. Um amor verdadeiramente vencedor! Por isso, Te peço: purifica o meu coração de todo o sentimento de inveja e de ciúme, e enche-me de mansidão e humildade para, Contigo, estar ao serviço de todos os irmãos. Amen.





Contemplatio

Quem vem? O irmão ao seu irmão culpado, para o reconduzir e lhe perdoar. - Sim, embora Deus, não se envergonhe de nos chamar seus irmãos: non confunditur fratres eos vocare. S. Paulo exprime abundantemente a sua admiração sobre este assunto, nos primeiros capítulos da sua carta aos Hebreus. «Outrora, diz, Deus falou aos nossos pais pelos profetas, mas nos nossos dias foi pelo seu próprio Filho, que criou o mundo com ele e que o fez herdeiro de todas as coisas. Ele é o esplendor da sua glória e imagem da sua substância; tudo sustém pelo poder da sua palavra, e depois de nos ter purificado dos nossos pecados, sentou-se no mais alto dos céus, à direita da Majestade divina, sendo também elevado acima dos anjos que o seu nome comporta, porque quem é o anjo ao qual Deus tenha alguma vez dito: Vós sois meu Filho, hoje vos gerei, e ainda: serei o seu Pai e ele será meu Filho? ... A Escritura diz dos anjos que Deus os fez seus ministros, mas diz ao Filho de Deus: o vosso trono, ó Deus, será um trono eterno ... E, noutro lugar, reconhecendo-o como Criador de todas as coisas, ela diz-lhe: Senhor, criastes a terra desde o começo do mundo ... Também, quem é o anjo ao qual o Senhor tenha dito: Sentai-vos à minha direita até que eu tenha reduzido os vossos inimigos a servir de escabelo? ...

«Entretanto o seu Filho adorável, Deus tornou-o por um pouco de tempo inferior aos anjos, tornando-o passível e mortal, mas em seguida coroou-o de glória e de honra.

Era digno de Deus que, para conduzir à glória os seus filhos, consumisse pelos sofrimentos aquele de entre eles que devia ser o autor da sua salvação. Porque o Salvador e os resgatados são da mesma raça humana e não se envergonha de os chamar seus irmãos ... ».

Tal é o magnífico ensino de S. Paulo. O hóspede do sacrário é nosso irmão, um irmão amoroso, que se sacrificou por nós, como haveríamos de hesitar em ir dizer-lhe o nosso amor? (Leão Dehon, OSP 3, p. 652s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:

«A pedra que os construtores rejeitaram transformou-se em pedra angular» (cf. Mt 21, 42).


Fonte http://www.dehonianos.org/

terça-feira, 3 de março de 2015

Quinta-feira - 2ª Semana da Quaresma - 05.03.2015


Lectio
Primeira leitura: Jeremias 17, 5-10

5Isto diz o SENHOR: Maldito aquele que confia no homem e conta somente com a força humana, afastando o seu coração do SENHOR. 6Assemelha-se ao cardo do deserto; mesmo que lhe venha algum bem, não o sente, pois habita na secura do deserto, numa terra salobra, onde ninguém mora. 7Bendito o homem que confia no SENHOR, que tem no SENHOR a sua esperança. BÉ como a árvore plantada perto da água, a qual estende as raízes para a corrente; não teme quando vem o calor, e a sua folhagem fica sempre verdejante. Não a inquieta a seca de um ano e não deixará de dar fruto. 9Nada mais enganador que o coração, tantas vezes perverso: quem o pode conhecer? 10 Eu, o SENHOR, penetro os corações e sondo as entranhas, a fim de recompensar cada um pela sua conduta e pelos frutos das suas acções.

Jeremias oferece-nos duas sentenças sapienciais. Servindo-se da contraposição, aponta claramente onde está, para o homem, a maldição cujo resultado é a morte (w. 5- 8), e onde está a bênção cujo resultado é a vida. O ímpio é aquele que, ainda antes de praticar o mal, apenas confia no que é humano e se afasta interiormente do Senhor. O resultado só pode ser a prática do mal. Aquilo em que o homem põe a sua confiança é como o terreno donde uma árvore retira o alimento. Por isso, o ímpio é comparado a um cardo do deserto que não pode dar fruto nem durar muito (v. 6). O homem piedoso também se caracteriza, em primeiro lugar, pela sua atitude de confiança diante de Deus. Por isso, é comparado a uma árvore plantada junto de um rio: não há-de morrer de sede, nem será estéril (w. 9ss.).

Na segunda sentença, o profeta insiste na importância do «coração», centro das decisões e da afectividade do homem. Só Deus experimenta e avalia com justiça os comportamentos e os frutos de cada um dos homens, porque, só Ele conhece de verdade o coração do homem e o pode curar.

Evangelho: Lucas 16,19-31

19*«Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. 2D*Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. 21Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. 22*Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. 23*Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. 24Então, ergueu a voz e disse: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas. ' 25Abraão respondeu-lhe: 'Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. 26Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão-pouco vir daí para junto de nós.' 270 rico insistiu: 'Peço-te, pai, que envies Lázaro à casa do meu pai, pois tenho cinco irmãos; 28que os previna, a fim de que não venham tembém para este lugar de tormento. ' 29Disse-Ihe Abraão: 'Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!' 30Replicou-Ihe ele: 'Não, pai Abraão; se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se. ' 31 *Abraão respondeu-lhe: 'Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.

S. Lucas recolhe, no capítulo 16 do seu evangelho, os ensinamentos de Jesus sobre as riquezas. A parábola, que hoje escutamos, ensina-nos a considerar a nossa condição actual à luz da condição eterna. A sorte pode inverter-se. E seguem algumas aplicações práticas (v. 25). Jesus fala-nos de um homem rico que «fazia todos os dias esplêndidos benquete» e de um pobre significativamente chamado Lázaro (termo que significa Deus ajuda). Atormentado pela fome e pela doença, permanece à porta do rico, à espera de alguma migalha. Os cães comovem-se com Lázaro; mas o rico permanece indiferente.

Chega porém o dia da morte, a que ninguém escapa. E inverte-se a situação.

Jesus levanta um pouco o véu do tempo para nos fazer entrever o banquete eterno, anunciado pelos profetas. Lázaro é conduzido pelos anjos a um lugar de honra, nesse banquete, enquanto o rico é sepultado no inferno. Do lugar dos tormentos, o rico vê Lázaro e atreve-se a pedir, por meio dele, um mínimo gesto de conforto (v. 24). Mas as opções desta vida tornam definitiva e imutável a condição eterna (v. 26). Nem o milagre da ressurreição de um morto, diz Jesus, aludindo a Si mesmo, podem sacudir um coração endurecido que se recusa a escutar o que o Senhor permanentemente ensina por meio das Escrituras (w. 27-31).

Meditatio

Hoje, tanto a primeira leitura como o evangelho, com imagens muito simples mas pintadas a cores fortes, nos colocam perante o facto de que é nesta vida que decidimos o nosso destino eterno, a vida ou a morte, sem outras possibilidades. Aquele que, nesta vida, põe a sua confiança nos meios humanos e nas coisas materiais e, sobretudo, aquele que se afasta do Senhor, e organiza a própria existência independentemente de Deus, é «metdlti». O apego a uma felicidade egoísta leva à cegueira, que não permite ver para além do imediato, do material. Não permite ver a Deus, nem a caducidade da nossa actual condição, como não permite ver as necessidades dos pobres que jazem à nossa porta. Aquele que confia no Senhor, reconhecendo a sua condição de criatura, dependente e amada por Ele, é «bendito», Leva no coração uma semente de eternidade que florescerá em felicidade e paz eternas. Por outro lado, a verdadeira confiança em Deus é sempre acompanhada pela solidariedade com os pobres, com pobres que o são materialmente, com os que o são espiritualmente, mas também com os doentes, com vítimas de contrariedades e opressões de qualquer espécie. Tanto Jeremias como Jesus nos ensinam tudo isto, não de modo abstracto, mas com imagens expressivas como a da árvore plantada no deserto ou junto de um rio ou como o pobre Lázaro.

O pobre Lázaro caracteriza-se pelo silêncio, tanto diante das provações da vida como diante da falta de atenção daqueles de quem esperava ajuda. Não grita contra Deus nem contra os homens. Permanece silencioso e paciente no seu sofrimento físico, psicológico e espiritual, confiando em Deus. Finalmente surge a morte e tudo se transforma. Levado pelos anjos para o seio de Abraão, continua em silêncio. No seu rosto, primeiro sereno e confiante, e agora glorioso, transparece outro Rosto, o de Jesus, que se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza. Sendo de condição divina, por nosso amor, assumiu a condição humana, para que pudéssemos participar da sua condição divina. Sendo rico fez-Se pobre, homem pobre, para que todos pudéssemos participar da sua riqueza.

A nossa confiança em Deus leva-nos a solidarizar-nos com o amor de Jesus por todos os homens, um "amor que salva". Como Ele, queremos estar presentes e actuantes junto de todos os lázaros desta humanidade de que somos parte. Queremos viver e actuar unidos "no seu amor pelo Pai e pelos homens" (Cst 17), especialmente pelos "pequenos" e pelos "pobres" (Cst 28), porque "Cristo se identificou" com eles (Cst 28; cf. Mt 25, 40). Esta é a primeira, boa nova (cf. lc 4, 19) porque os quer libertar da sua opressão, sofrimento, pobreza. Porque os quer felizes, é para eles a primeira bem-aventurança: "Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino de Deus' (Lc 6, 20) e o Reino de Deus é, antes de mais, Jesus pequeno e pobre, que quer elevar todos "os pequenos ... os pobres" (Cst. 28) a "pobres em espíritd' (Mt 5, 3), onde a pobreza nem sequer já é uma desgraça, onde, mais do que a carência de bens materiais, é realçada a mansidão e a humildade de coração, a confiança, o abandono à vontade de Deus, dando espaço a Jesus, para que viva a Sua pobreza na nossa pobreza.

Oratio

Senhor Jesus, que sendo rico Te fizeste pobre por nosso amor, para nos tornar participantes da tua riqueza, dá-nos um coração de pobre que confie apenas em Ti e saiba ser solidário com todos os lázaros desta pobre humanidade. Que jamais caiamos na tentação de cortar relações com eles nesta vida terrena, para que possamos tê-Ias, com eles e Contigo, na vida eterna.

Durante esta Quaresma, queremos colocar-nos entre os pobres e pecadores, não para sermos coniventes e cúmplices no pecado, mas para sentirmos verdadeira necessidade da tua graça, e caminharmos para Ti certos de que seremos libertados das nossas culpas. Confiamos em Ti, Senhor, jamais seremos confundidos. Amen.

Contemplatio

Quem vem? É o rico herdeiro de seu Pai, que vem despojar-se para nos enriquecer. - «Vós sabeis, diz S. Paulo, qual é a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que nos tornássemos ricos pela sua pobreze» (2Cor 8).

Senhor, sou um pobre mendigo todo coberto de úlceras, como este Lázaro que descrevestes no Evangelho (Lc 16). Esperava à porta do mau rico e teria sido feliz por receber os restos ou as migalhas do festim.

Mas eu sou mais feliz do que Lázaro, porque me dirijo a um bom rico, a um rico, cujo Coração está repleto de misericórdia e de generosidade. Vós sois este rico. Diante do tabernáculo, estou à vossa porta. Não são apenas as migalhas que me dareis. Ofereceis-me todo o tesouro dos vossos méritos. Despojastes-vos para me enriquecerdes, tudo sacrificastes por mim. Desposastes a pobreza, a humildade, os desprezos, os sofrimentos, para pagardes todas as minhas dívidas e para me enriquecerdes com os vossos sacrifícios.

Que vos darei, Senhor, por esta infinita bondade do vosso Coração? Irei ter convosco com toda a confiança, é o que pedis de mim. Esperais-me para me cumulardes com os vossos benefícios (leão Dehon, OSP 3, p. 647).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Bendito o homem que confia no SENHOR,

que tem no SENHOR a sua esperança (Jer 17, 7).


Fonte http://www.dehonianos.org/

segunda-feira, 2 de março de 2015

Quarta-feira - 2ª Semana da Quaresma - 04.03.2015


Lectio
Primeira leitura: Jeremias 18, 18-20

18*Eles disseram: «Vinde e tramemos uma conspiração conta Jeremias, porque não nos faltará a lei se faltar um sacerdote, nem o conselho se faltar um sábio, nem a palavra divina por falta de um profeta! Vinde, vamos difamá-lo, e não prestemos atenção às suas palavras!» 19SENHOR, ouve-me! Escuta o que dizem os meus adversários. 20É assim que se paga o bem com o mal? Abriram uma cova para me tirarem a vida. Lembra-te de que me apresentei diante de ti, a fim de interceder por eles e afastar deles a tua cólera.

o versículo 18 situa o texto que hoje escutamos. Jeremias está novamente sob ameaça de morte (cf. Jer 11, 18s.). Agora são os próprios chefes de Israel que tentam reduzi-lo ao silêncio. Daí a dureza da invocação de vingança que, de acordo com a lei vetero-testamentária de Talião, sai da boca do profeta. Mas o nosso texto omite esses versículos, orientando-nos, sim, para a escuta do evangelho.

Jeremias é tipo do Servo sofredor (cf. Is 53, 8-10) e é perseguido por causa da fidelidade à sua vocação e do seu amor ao povo. Jeremias abandona-se confiadamente a Deus, de quem espera a salvação.

Tudo aquilo que o profeta faz por amor do seu povo, e diz na sua oração, irá realizar-se de modo perfeito no verdadeiro Servo sofredor, Jesus. Ele será morto pelos chefes do povo. Mas não pedirá vingança a Deus; pedirá perdão para os seus inimigos, e oferecerá livremente a vida em favor daqueles que O crucificam.

Evangelho: Mateus 20, 17-28

Naquele tempo, 17*ao subir a Jerusalém, pelo caminho, Jesus chamou à parte os Doze e disse-lhes: 18«Vamos subir a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos-sacerdotes e aos doutores da Lei, que o vão condenar à morte. 19Hão-de entregá-lo aos pagãos, que o vão escarnecer, açoitar e crucificar. Mas Ele ressuscitará ao terceiro dia.»

20Aproximou-se então de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu, com os seus filhos, e prostrou-se diante dele para lhe fazer um pedido. 21 *«Que queres?» perguntou-lhe Ele. Ela respondeu: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino.» 22*Jesus retorquiu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?» Eles responderam: «Podemos.» 23Jesus replicou-lhes: «Na verdade, bebereis o meu cálice; mas, o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado.»

240uvindo isto, os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos. 25*Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. 26Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e 27quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.»

Jesus sobe a Jerusalém consciente daquilo que lá O espera. Pela terceira, vez fala aos discípulos da sua paixão. Fala claramente. Para espanto e confusão dos seus contemporâneos, identifica-se com o Filho do homem, figura celeste e gloriosa esperada para instaurar o reino escatológico de Deus, mas também se identifica com outra figura, de sinal aparentemente oposto, a do Servo sofredor. Os discípulos não conseguem compreender e aceitar tais perspectivas e preferem cultivar as de sucesso e poder (vv. 20-23). Jesus explica-lhes, mais uma vez, o sentido da sua missão e o sentido do seguimento que lhes propõe: Ele veio para «beber o cálic(!» (v. 22), termo que, na linguagem dos profetas, indica a punição divina a reservada aos pecadores. Quem aspira aos lugares mais elevados no Reino, terá que, como Ele, estar pronto a expiar o pecado do mundo. É mesmo o único privilégio que pode oferecer, porque não Lhe compete distribuir lugares no Reino. Ele é o Filho de Deus, mas não veio para dominar. Veio para servir como o Servo de Javé, oferecendo a sua vida em resgate para que os homens, escravos do pecado e sujeitos à morte, sejam libertados.

Meditatio

À mãe dos filhos de Zebedeu, que pensava que a vida vale pelos lugares que se ocupam na sociedade, pelo poder de que se dispõe, o profeta Jeremias e, sobretudo, Jesus oferecem o exemplo de uma vida gasta no serviço, por amor. Não é fácil compreender uma tal perspectiva. Jesus vê-se na necessidade de, por três vezes, preparar e anunciar aos discípulos a sua paixão, dizendo-lhes que será preso, condenado, escarnecido, crucificado. Mas eles continuam a procurar satisfazer as suas ambições. Hoje, são os filhos de Zebedeu que, por meio da mãe, tentam a sua sorte. Jesus tinha falado de humilhações. Eles pedem honras, lugares de privilégio: sentar-se «um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino. (v. 21).

Isto mostra-nos a necessidade da paixão. Só ela poderia mudar o coração do homem. Não eram suficientes palavras, mesmo que fossem as de Jesus. A paixão de Jesus revela-nos onde se encontra a verdadeira alegria, a verdadeira glória, a verdadeira vida: servir, amar como Ele, até ao sacrifício da própria vida pelos outros vistos como mais importantes do que nós mesmos. Isto pressupõe a humildade, virtude que torna verdadeiro todo o gesto de amor e o liberta de equívocos, da busca dos interesses. Foi o caminho do profeta Jeremias. Só depois de o percorrer, descobriu o seu verdadeiro significado. Por isso, gritava a Deus: «É assim que se paga o bem com o met;» (v. 20).

Também no caminho espiritual de cada um de nós, a provação é importante para nos transformar interiormente. Depois, dela já não ambicionamos a satisfação terrena que antes procurávamos. E, se a vivemos unidos a Cristo, d ' Ele recebemos a força para realizar o bem incondicionalmente, sabendo que não se perderá, mas que, a seu tempo, dará fruto: depois da paixão e da morte, vem a ressurreição (cf. Mt 20, 18ss.). O serviço humilde, até ao fim, motivado pelo amor, conduz à vida, a glória eterna.

O Espírito faz-nos superar o nosso egoísmo ou amor de exigência e impele-nos para o amor oblativo; faz-nos ultrapassar a busca dos interesses e comodidades pessoais, para actuar conforme a justiça em relação a cada uma das pessoas e em relação à comunidade, para não violarmos os seus direitos. O Espírito impele-nos a dar-nos aos outros, especialmente aos mais pobres e marginalizados, não só com aquilo que temos, mas também com aquilo que somos: tempo, capacidades, cultura, etc. O Espírito leva-nos à vida de amor e serviço desinteressado, mas também universal, porque deita por terra todas as barreiras de raça, de cultura, de sexo:

"Todos os que fostes baptizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo' (Gal 3, 27-28).

Oratio

Obrigado Senhor Jesus, porque, com doçura e firmeza nos conduziste pelo caminho da cruz. Quando nos apontas o Calvário, talvez nos escandalizemos como Pedro, talvez discutamos entre nós sobre quem é o maior, talvez Te apresentemos pedidos de privilégio e de poder. Tem paciência connosco, diz-nos e repete-nos que a verdadeira grandeza está em servir e em dar a vida pelos amigos e inimigos. Como bom pedagogo, conduz-nos pela mão pelas várias etapas, rumo à vida, à alegria eterna. Contigo saberemos passar pelas provações, beber o cálice e aguardar a recompensa que só o Pai nos destina e quer dar. O importante é aprendermos Contigo a amar e a servir até dar a vida para que todos experimentem a graça da para redenção. Amen.

Contemplatio

Tiago e João, filhos de Zebedeu e de Salomé, eram de Betsaida, como S. Pedro, e pescadores como ele. João tinha conhecido o Salvador junto de João Baptista no Jordão. Tinha conversado com Ele, tinha comunicado a Tiago, seu irmão. E alguns dias depois, quando estavam ocupados a consertar as suas redes, Jesus chamou um e outro, dizendo-lhes: «Vinde comigo, farei de vós pescadores de homens». Nosso Senhor já tinha chamado Pedro e André. Estes quatro ficaram os seus preferidos, os seus privilegiados.

Tiago e João tinham um ardor exuberante. Nosso Senhor formou-os. Para os advertir dos seus defeitos, tratava-os como Boanerges, filhos do trovão. Um dia propõem a Jesus que faça cair um raio sobre toda uma cidade de Samaritanos que não tinha querido receber o Salvador e os seus. «Não sabeis de que espírito sois, diz Nosso Senhor; Deus é paciente, espera os pecadores e trata-os com misericórdia». Noutro dia os dois irmãos vêm com sua mãe pedir a Nosso Senhor o primeiro lugar no reino de Deus. «Estas honras, diz Nosso Senhor, dependem dos desígnios da Providência; mas em todo o caso, para ter um bom lugar no reino de Deus é preciso beber o cálice do sacrifício».

Deixemo-nos formar por Nosso Senhor, como Tiago e João, os seus discípulos bem amados (Leão Dehon, OSP 3, p. 90).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:

«O Filho do homem veio para servir e dar a vide» (cf. Mt 20, 28).


Fonte http://www.dehonianos.org/

domingo, 1 de março de 2015

Terça-feira - 2ª Semana da Quaresma - 03.03.2015


Lectio
Primeira leitura: Isaías 1, 10.16-20

10*Ouvi a palavra do Senhor, ó príncipes de Sodoma; escuta a lição do nosso Deus, povo de Gomorra: 16 Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, 17*aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas. 18 Vinde agora, entendamos-nos -diz o Senhor. Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tomer-se-ão brancos como a neve. Mesmo que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. 19Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra; 20 se recusardes, se vos revoltardes, sereis devorados pela espada. É o Senhor quem o declara.»

o capítulo primeiro de Isaías anuncia, de certo modo, a temática que irá ser desenvolvida nos seguintes capítulos: o amor fiel de Deus a que o povo responde com a infidelidade (w. 2-9); essa infidelidade atrai o castigo divino; mas não há culpa que a misericórdia de Deus não possa perdoar; um pequeno "resto" será salvo, e será raiz de vida nova.

Hoje escutamos um ensinamento profético contra o ritualismo, no quadro de uma demanda judicial (w. 10.19s.). A referência a Sodoma e Gomorra estabelece a ligação ao oráculo sobre a infidelidade dos chefes de Judá e de Jerusalém (w. 4-9), e de todo o povo de Israel, que atrai um castigo semelhante ao das duas cidades tristemente célebres (cf. Gen 19; Dt 29, 22; 32,32).

Sem fidelidade à Lei divina, a oração é ineficaz e o culto é inútil, e mesmo perverso. Mas, apesar da sua infidelidade, Israel continua a ser o destinatário da Palavra de vida, e dons de Deus são irrevogáveis. Por isso, o profeta insiste na necessidade de mudança, para acolher o perdão oferecido por Deus. Ainda é possível escolher entre a bênção e a maldição (w. 19.20).

Evangelho: Mateus 23, 1-12

Naquele tempo, 1Jesus falou assim à multidão e aos seus discípulos: 2*«Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. 3Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem. 4*Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar. 5*Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam as filatérias e alongam as orlas dos seus mantos. 6Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. 7Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados 'Mestres' pelos homens. 8*Quanto a vós, não vos deixeis tratar por 'Mestres; pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. 9E, na terra, a ninguém chameis 'Pai; porque um só é o vosso 'Pai; aquele que está no Céu. 10Nem permitais que vos tratem por 'doutores; porque um só é o vosso 'Doutor; Cristo. 11 *0 maior de entre vós será o vosso servo. 12Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado.

Jesus, depois dos debates no templo, dirige-se à multidão e aos discípulos para continuar a diatribe com os escribas e fariseus. Desmascara-lhes a incoerência (vv. 2- 4), a ostentação e vanglória (vv. 5-7), e dirige-lhes os sete «Ai de vós» (vv. 13-36) que desembocarão no sentido lamento sobre Jerusalém (vv. 37-39). Por outro lado, põe de sobreaviso os discípulos contra o vício da ambição (vv. 8-10), gangrena da comunidade já nos tempos em que foram redigidos os evangelhos. O formalismo, a busca de prestígio pessoal, profanam a religião e tornam-na idolátrica.

A conclusão não pode ser deixar de escutar a Palavra proclamada por chefes incoerentes, mas usar o discernimento para fazer o que eles dizem, e não fazer o que fazem. Acima de tudo, há que ter o olhar bem fixo em Jesus, o verdadeiro Mestre, o fiel intérprete do Pai.

Meditatio

A Igreja faz-nos escutar, hoje, palavras fortes e reconfortantes: «Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tomsr-se-êo brancos como a neve. (Is 1, 18). Estas palavras caiem como bálsamo sobre a nossa ingratidão, superficialidade e malícia. Deus, na sua paciente misericórdia continua disposto a perdoar-nos.

Disse que estas palavras caiem como bálsamo sobre o nosso coração ferido pelo pecado. A palavra de Deus fala-nos de neve. Como se torna bela uma paisagem coberta de neve! Mas a palavra de Deus vai mais longe. Os nossos pecados não são apenas cobertos, do modo que a neve cobre a terra. A sua misericórdia transforma-os em ocasião de graça, em fonte de amor. Isaías diz-nos que os nossos pecados, ainda que sejam escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve. É essa a extraordinária maravilha que Deus quer operar em nós, apagando todas as nossas manchas, mesmo as mais horríveis, com um «detergente» muito especial, o sangue de Cristo, como nos diz o Apocalipse: «lavaram as suas vestes no sangue do comem» (7, 14).

O sangue de Cristo, derramado por nosso amor, é a nossa única garantia de purificação e de salvação. Não é a simples observância exterior dos preceitos, com que, por vezes, nos gloriamos, em vez de darmos glória ao Senhor. A nossa vida, o nosso culto, como nos recomenda Isaías, hão-de ser expressão de que conhecemos o amor de Deus e queremos corresponder de modo generoso e total à sua fidelidade para connosco. Os sacrifícios e as ofertas nada valem, se o ouvido e o coração, seduzidos pelo pecado, estão endurecidos e não reconhecem o amor misericordioso e fiel de Deus para connosco. Só a Palavra de Deus, escutada pelo ouvido, descida ao coração, guardada com amor, e praticada com simplicidade, nos torna sensíveis ao amor de Deus e nos leva a corresponder-lhe com sinceridade de coração.

"De acordo com o apelo premente do Senhor à conversão, procuramos discernir atentamente o pecado nas nossas vidas; teremos a peito celebrar frequentemente o seu perdão no sacramento da reconciliação" (Cst. 79). O sacramento da Reconciliação permite-nos um muito particular acesso ao precioso sangue de Cristo, que nos lava de todo o pecado, nos renova interiormente e nos torna capazes de corresponder adequadamente ao amor fiel e misericordioso do nosso Deus.

Oratio

Senhor Jesus, Cordeiro imolado, eis-nos aqui, manchados pelas nossas culpas.

Derrama sobre nós o teu sangue imaculado, para que nos purifique, renove e torne capazes de correspondermos ao teu amor fiel e misericordioso. Tu que amas a santidade e queres realizá-Ia em nós, lava-nos no teu sangue precioso e transforma-­nos interiormente. Faz-nos mais brancos do que a neve. Então, tendo experimentado o teu amor, havemos de corresponder-lhe com uma vida de oblação generosa e total, no louvor, na ação de graças, no testemunho, para que todos possam escutar as maravilhas da tua misericórdia e dispor-se a acolhê-Ias, para também serem transformados. Amem.

Contemplatio

Já no Antigo Testamento, Deus pedia ao seu povo a prática das obras de misericórdia, como condição do perdão e da salvação. «Corrigi-vos, dizia em Isaías, purificai os vossos pensamentos e os vossos corações, deixai de me ofender, mas também aprendei a fazer o bem, sede justos, socorrei os oprimidos, fazei justiça às viúvas e aos órfãos, e então podeis vir interpelar-me e reclamar de mim o vosso perdão, e então, mesmo que as vossas almas fossem amarelas como o açafrão, tornar-se-iam brancas como a neve; e se fossem vermelhas como a púrpura, tornar-se-iam brancas como a lã do cordeiro» (Is 1, 17).

Em que ponto me encontro nesta virtude fecunda e redentora? Quais são os meus sentimentos a respeito daqueles que me ofendem ou me ferem, daqueles que me criticam ou me fazem sofrer? Que piedade tenho no coração por aqueles que penam e que sofrem? - Quero fazer para mim uma lei da clemência e da misericórdia. A beneficência é o sinal da aliança com Deus: Elemosyna viri quasi signaculum cum ipso (Eccli. 17,18).

Ajuda os pequenos e os pobres, diz o sábio, e a tua esmola rezará por ti diante de Deus e afastará de ti todos os perigos (Eccli 29, 15). /47

Foi com um Coração enternecido de misericórdia que o Salvador nos visitou: Per viscera misericordiae in qulbus visitavit nos oriens ex alto (Lc 1, 77). Sejamos bons para com todos, como Ele foi bom para connosco.

Resoluções. - Senhor, quero ser bom e benevolente, e perdoar a todos para que também vós me perdoeis: em que ponto me encontro neste caminho?

Quero revestir-me de misericórdia a vosso exemplo como S. Paulo me convida (Coi 3, 12). Misericórdia divina, incarnada no Sagrado Coração de Jesus, cobri o mundo, expandi-vos sobre nós e fazei reinar a misericórdia no meu coração (leão Dehon, OSP 4, p. 66s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:

«Os vossos pecados tomer-se-êo brancos como a neve» (Is 1, 18).


Fonte http://www.dehonianos.org/