segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Advento - Terceira Semana - Terça-feira - 15.12.2015


Tempo do Advento Terceira Semana - Terça-feira


Lectio


Primeira leitura: Sofonias 3, 1-2. 9-13
 

Eis o que diz o Senhor:1 Ai da cidade rebelde, manchada e opressora! 2*Ela não ouviu o apelo, nem aceitou o aviso; não confiou no SENHOR, nem se aproximou do seu Deus.
 9*Então, darei aos povos lábios puros, para que todos possam invocar o nome do SENHOR e servi-lo de comum acordo. 1 O Da outra banda dos rios da Etiópia, os meus adoradores dispersos virão trazer-me ofertas. 11 *Naquele dia, não te envergonharás dos pecados que cometeste contra mim, porque exterminarei do meio de ti os orgulhosos e os arrogantes; e cessarás de te orgulhar na minha montanha santa.12 Deixarei subsistir no meio de ti um povo pobre e humilde; eles procurarão refúgio no nome do SENHOR. 13 O resto de Israel não cometerá mais a iniquidade nem proferirá mentiras; não se achará mais na sua boca uma língua enganadora. Eles apascentarão e repousarão sem que ninguém os inquiete.
 o texto que escutamos hoje abre com uma invectiva contra os chefes das nações que, em vez de cuidar da fé do povo, apenas se preocupam com os seus interesses. Mas chega logo uma palavra de esperança: a purificação dos povos e de Jerusalém tem por finalidade a alegria messiânica e a reunião dos dispersos. A purificação dos povos pagãos (v. 9), que abandonam os ídolos para se voltarem para o Senhor, exprime a expectativa profética de uma profunda renovação da humanidade, realizada pelo Senhor.
 A renovação anunciada consiste na conversão do coração humano, manifestada no acolhimento da lei divina, no culto do verdadeiro Deus. Essa transformação acontecerá, em primeiro lugar, no povo de Deus, que será purificado do orgulho que o leva a pretender ocupar o lugar de Deus (v. 11). O povo, no tempo da salvação, não passará de um «resto (v. 13), isto é, de um grupo politicamente frágil e culturalmente irrelevante e desprezado, que não poderá presumir das suas forças, mas que experimentará o repouso e a paz gratuitamente oferecidos por Deus, de coração agradecido. É o povo «dos pobres do senno», os que têm Deus como único recurso, nele confiam plenamente e a cuja vontade obedecem fielmente.


Evangelho: Mateus 21, 28-32


Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo: 28«Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: 'Filho, vai hoje trabalhar na vinha.' 29Mas ele respondeu: 'Não quero.' Mais tarde, porém, arrependeu-se e foi. 30Dirigindo-se ao segundo, falou-lhe do mesmo modo e ele respondeu: 'Vou sim, senhor.' Mas não foi. 31Qual dos dois fez a vontade ao pei?» Responderam eles: «O primeiro.» Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder-vos no Reino de Deus. 32*João  veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os cobradores de impostos e as meretrizes acreditaram nele. E vós nem depois de verdes isto, vos arrependestes para acreditar nele.»


Os chefes do povo, como já ficou demonstrado (cf. Mt 21, 23-27), não têm qualquer intenção de escutar a Jesus. Por isso, o mesmo Jesus lhes desmascara a incoerência e os provoca, afirmando que os publicanos e as prostitutas os hão-de preceder no Reino de Deus. Fá-lo com a parábola dos dois filhos, que se compreende no quadro vétero-testamentário da necessidade da «justiça», isto é, de uma fé que leva à realização da vontade de Deus na vida do dia a dia.


Jesus não exalta os pecadores, nem despreza os devotos, como poderia parecer, à primeira vista. Mas anuncia a extraordinária proximidade de Deus em relação aos pecadores a quem oferece a possibilidade de mudarem de vida. Mas também denuncia a incoerência de tantos crentes, representados no primeiro filho, obediente apenas nas palavras. O contraste entre publica nos e prostitutas e os homens da religião (vv. 31-32) não é tanto uma condenação dos segundos, quanto um derradeiro convite à sua conversão.


Meditatio


«Ai da cidade rebelde, manchada e opressora! Ela não ouviu o apelo, nem aceitou o aviso; não confiou no SENHOR, nem se aproximou do seu DeU9>. Jesus vem até nós na humildade, na simplicidade e na pobreza. É também na humildade, na simplicidade e na pobreza que havemos de nos preparar para ir ao seu encontro, para O acolhermos. O orgulho impede-nos a aproximação a Jesus, porque não reconhecemos a nossa carência de salvação.


Também é importante preparar-se para o Natal, vivendo na verdade. A mentira é a nossa protecção inconsciente. Mentimos a nós mesmos, mesmo sem nos darmos conta disso, para nos defendermos, para não reconhecermos que estamos cheios de coisas e, sobretudo, de nós mesmos, e que, desse modo, não agradamos a Deus. «O resto de Israel não cometerá mais a iniquidade nem proferirá mentiras; não se achará mais na sua boca uma língua enganadora». A vivência da verdade aproxima-nos do «resto» de Israel, o povo simples, pobre e humilde, que estava disposto para receber o Senhor.


A parábola evangélica é um aviso para nós. Há que evitar a atitude do filho mais velho: diz que vai para a vinha; mas não vai. É preciso afastar toda a incoerência da nossa vida. Há que não cair numa obediência meramente formal. Caso contrário, corremos o risco de reduzir a nossa justiça moral e religiosa a simples fachada, esquecendo-nos de procurar e cumprir a vontade de Deus, como expressão do nosso amor para com Ele.


A melhor defesa contra estas tentações é contemplar o estilo do nosso Deus, que convida à conversão e derrama as suas bênçãos sobre os simples, os pobres, os humildes, sobre aqueles que apenas confiam n ' Ele, e não nos seus próprios méritos.


Maria é a imagem mais expressiva daqueles que esperam e acolhem o Salvador. Ela é a mais pobre entre os "pobres de Jahvé", os "anawiti', que não tendo prestígio ou poder humano, se apoiam unicamente em Deus, se abandonam totalmente a Ele, e dizem como a Virgem: "faça-se em Mim segundo a tua palavra", isto é: faz de mim o que quiseres. Deus doa-Se totalmente a eles: aos simples, aos pobres e humildes.


Maria é, pela Sua vida, um sim total à vontade de Deus. Nela revive, aperfeiçoado o "sim" de Abraão, que preanuncia o "sim" total de Cristo à vontade do Pai, até à "kénosiS', ao aniquilamento (cf. Fil 2, 8).

Mas, como o Pai encheu Cristo da Sua glória (cf. Fil 2, 9-11), assim também enche Maria com a Sua graça C'kekaritomene: cheia de graça; Lc 1, 28). A humildade não anula a personalidade de Maria, mas potencia-a, porque dá espaço à fé, à caridade, a Deus; é um vazio que se enche da plenitude da graça.


Oratio


Senhor, que eu Te sirva sempre com coerência e verdade, jamais cedendo à mentira, ao fingimento, à mania de cultivar uma imagem que não corresponda à minha realidade. Que o teu Filho, feito homem, me liberte de mim mesmo, da excessiva preocupação com os meus interesses pessoais, para que possa responder com generosidade e entusiasmo ao mandato de cuidar da tua vinha. Que a minha adesão à tua vontade não se reduza a belas palavras, mas seja um "sim" decidido e generoso aos teus projectos!
Hoje, mais uma vez, me apresento diante de ti, confiando, não nos meus méritos, mas na tua misericórdia e fidelidade. Acolhe-me como acolheste os pecadores, que reconheceram a sua condição, e acolheram o teu perdão. Amen.


Contemplatio


Consideremos mais de perto em que condições Deus nos deu o seu Filho. Não era apenas o pecado de Adão que se encontrava sob o olhar de Deus, mas também todos os seus séquitos e todas as suas consequências, até às nossas ingratidões e até mesmo os abusos que faríamos da graça da Redenção. Era, numa palavra, o mundo coberto da lepra do pecado como de um manto hediondo e repugnante. E, no entanto, Deus não desdenhou ter piedade de nós. Ele não podia dar-nos o seu Filho como irmão nem como rei, a menos que no-lo desse primeiro como resgate, como vítima de expiação e de reparação. Para isso era necessário enviá-lo para sofrer. Quis fazê-lo. Revestiu-o com uma carne semelhante à do homem pecador: Fi/ium suum, mittens in simi/itudinem carnis peccati (Rom 8, 5) ...


O sacrifício de Abraão foi apenas a sombra do sacrifício que Deus Pai fez do seu Filho. O sacrifício de Abraão não teve o seu efeito, o de Jesus Cristo foi consumado pelo seu Pai, sobre o calvário. E era a Deus que Abraão imolava o seu filho Isaac, ao passo que Deus Pai imolava o seu próprio Filho em favor dos homens. Quando não deve ter custado ao amor infinito deste Pai para arrancar assim o seu próprio Filho do seu seio e no-lo entregar! Se Deus pudesse sofrer, que sofrimento infinito teria suportado! Mas o seu amor por nós tudo superou.


Santo Agostinho, um dos doutores que mais admirou a excelência deste dom divino, exclama: Non satiabor considerare a/titudinem consi/ii tui super sa/utem generis humani (Conf. IX, 6): Não, nunca deixarei de estudar e de contemplar esta maravilha, a ela voltarei sem cessar, hei-de contemplá-Ia ainda e sempre, disso nunca me fatigarei, aí hei-de encontrar sempre novos motivos de admiração: non satiabor. S. Paulo também não deixava de se extasiar diante da altura, da largura e da profundidade do plano divino, na Redenção. E Santo Agostinho ainda aflito por ver como este dom celeste era desconhecido e tão pouco saboreado, lançava este desafio a todos os homens: «A/iud desidera si me/ius inveneris: Procurai, procurai por toda a parte e sempre, eu vos desafio a encontrar algo de mais belo, de maior, de mais doce, de melhor para vós mesmos» (S. Aug., ln ps. 26 enarr.).


Rezemos a Deus para que nos faça conhecer este excesso e este prodígio de amor; digamos-lhe com Santo Agostinho: Ignis qui semper ardes accende me (So/iI. Ad Dom. ch. 34). Fogo ardente que queimais sem cessar no coração de Deus, abrasai-me com um ardor recíproco, com um amor de retorno. Queira Nosso Senhor renovar espiritualmente para nós a graça que Ele fez a Santa Maria Madalena de Pazzi ao enviar Santo Agostinho para gravar no seu coração estas palavras: «Et Verbum caro factum est O Verbo fez-se carne». Estas palavras divinas eram como a madeira do sacrifício destinada a alimentar perpetuamente no coração da santa o fogo do holocausto (Leão Dehon, OSP 2, p. 196s.).


Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra: «Senhor, Tu és o meu refúgio»


Fonte http://www.dehonianos.org/

domingo, 13 de dezembro de 2015

Advento - Terceira Semana - Segunda-feira - 14.12.2015


Tempo do Advento Terceira Semana - Segunda-feira
Lectio


Primeira leitura: Números 24, 2-7.15-17a


Naqueles dias. 2 o profeta Balaão levantou os olhos e viu Israel acampado por tribos. Desceu sobre ele o Espírito de Deus 3e ele proferiu o seu oráculo, dizendo: «Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo do homem de olhar penetrante; 4*oráculo do que escuta as palavras de Deus, que tem a visão do Omnipotente, que se prostra, mas de olhos abertos. 5Como são belas as tuas tendas, Jacob, As tuas moradas, ó Israel! 6Estendem-se como os vales, como jardins junto de um rio! O SENHOR plantou¬as como árvores de aloés, como cedros junto das águas! 7*A água escorre de seus reservatórios e suas sementeiras têm água abundante. O seu rei é mais forte que Agag, e exalta o seu reino!
15E Balaão pronunciou o seu oráculo, dizendo: «Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo do homem de olhar penetrante. 160ráculo daquele que escuta as palavras de Deus, e conhece a sabedoria do Altíssimo, que tem a visão do Omnipotente, que se prostra, mas de olhos abertos. 17*Eu vejo, mas não para já; contemplo-o, mas ainda não próximo: Uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel.


Na tentativa de se opor à passagem de Israel, Balac, rei de Moab, contratou Balaão, um adivinho pagão, para fazer sortilégios contra Israel e amaldiçoá-lo. Mas Balaão, em vez de destruir o povo, como significa o seu nome de "devorador", foi confundido pelo Senhor e obrigado a profetizar em favor de Israel. Hoje escutámos alguns versículos do terceiro e do quarto oráculo. O terceiro oráculo anuncia a prosperidade e a fecundidade do povo de Israel, descrevendo um enorme acampamento com tendas bonitas e ricas, numa paisagem luxuriante de plantas e de águas abundantes que indicam vitalidade (vv. 5-7). O quarto oráculo (vv. 16-17) acrescenta a descrição de uma realeza ideal, a da monarquia davídica, destinatária da promessa divina comunicada por Natan (cf 2 Sam 7), que está na origem do messianismo real. Balaão é obrigado a profetizar um grande futuro a Israel, como sinal da fidelidade divina à promessa feita a David.


O ceptro é claramente símbolo da realeza; a estrela deve entender-se no contexto cultural da antiguidade em que a aparição de um novo astro significava o nascimento de um rei, ou um grande evento da história. Começa aqui a tradição judaica da estrela como símbolo do Messias.


Evangelho: Mateus 21,23-27


Naquele tempo, 23*Jesus foi ao templo e, enquanto ensinava, aproximaram-se d 'Ele os sumos sacerdotes e os anciãos do povo e disseram-lhe: «Com que autoridade fazes isto? E quem te deu tal poder?» 24Jesus respondeu-lhes: «Também Eu vou fazer-vos uma pergunta. Se me responderdes, digo-vos com que autoridade faço isto.

25De onde provinha o Baptismo de João? Do Céu ou dos homens?» Mas eles começaram a pensar entre si: «Se respondermos: 'Do Céu; vai dizer-nos: 'Por que não lhe destes crédito?' 26E, se respondermos: 'Dos homens; ficamos com receio da multidão, pois todos têm João por um profeta.» 27E responderam a Jesus: «Não sabe¬mos.» Disse-lhes Ele, por seu turno: «Também Eu vos não digo com que autoridade faço isto»


Mateus mostra a contestação dos adversários de Jesus ao seu julgamento sobre o templo e à expulsão dos vendilhões: «Com que autoridade fazes isto? E quem te deu tal poderi» (v. 23). Jesus responde com outra pergunta: «De onde provinha o Bap¬tismo de João? Do Céu ou dos homenst» (v. 25). Baptizar tinha sido a acção mais vistosa de João. Jesus quer obrigá-los a tomar posição diante desse facto. Assim os obriga a reflectir sobre a sua atitude em relação a Deus. Não se trata, pois, de uma qualquer estratégia de Jesus para afastar atenções ou evitar uma resposta embaraçosa. É, pelo contrário, um forte convite à conversão: há que tomar posição perante a pregação do Baptista, que apelava exactamente à conversão.


A pregação de João punha os chefes religiosos numa posição semelhante àquela em que Jesus os queria pôr. A recusa em responder manifesta a sua má vontade, o seu calculismo, a sua política de conveniências, recusando o dever da conversão. Nesta situação, Deus pode fazer descer o silêncio sobre o incrédulo, como sugere a afirmação final de Jesus: «Também Eu vos não digo com que autoridade faço isto. (v. 27).


Meditatio
a Natal, desde os tempos mais remotos, é a festa da Luz, que é Jesus Cristo, Sol de Justiça. A liturgia actual recorda Isaías que diz: "Um povo que caminhava nas trevas viu uma grande IUL." (9,2) e Lucas, que afirma "a glória do Senhor envolveu-os de lui' (2,9). a Prefácio I de Natal canta" Uma nova luz brilhou aos nossos olhos'.


A luz de Cristo é acolhida por uns, como os Magos, e rejeitada por outros, como Herodes. As leituras de hoje já nos deixam entrever essa diferença de atitudes: o pagão Balac acolhe a luz do Senhor; os chefes religiosos dos judeus recusam Jesus, como já tinham recusado João Baptista.


É um risco que todos corremos: contentar-nos com atitudes exteriores de religião, adaptar Deus aos nossos interesses, não apreciar suficientemente a graça. Mas, o importante é cultivarmos o espanto de quem acaba de descobrir o Senhor, uma alma de pobre, aberta às suas surpresas maravilhosas. A nossa atitude não pode ser a de sábios satisfeitos e fechados nas suas certezas reais ou imaginárias, mas a dos humildes, sempre dispostos a acolher a luz do Senhor.


A promessa messiânica da primeira leitura convida-nos a meditar sobre a fidelidade de Deus às suas promessas. Para isso, confunde qualquer poder que a Ele se oponha, ou que se oponha ao seu projecto de libertação, seja poder humano ou sobre-humano. a episódio de Balaão revela-nos que nada pode resistir ao triunfo do plano de Deus.


a texto evangélico pede-me para confrontar as minhas opções com as exigências evangélicas. Por vezes, posso incluir-me entre os adversários de Jesus, ou revelar a minha indisponibilidade interior para a acolher, com as suas exigências. Não tenho também resistido a uma decisão responsável diante de Deus? É provável, se não tiver um olhar de fé sobre os acontecimentos da vida, se pretender manter-me na área da procura das minhas conveniências ou da consideração dos outros. a Evangelho desmascara a qualidade de muitas das minhas preocupações, demasiado humanas,  que não são ditadas pelo temor de Deus, mas pelo desejo de conservar o poder ou simplesmente ver realizados os meus desejos. Mas estes, sem a busca da vontade de Deus, têm a mesma consistência que os projectos de Balac e de Balaão que Deus confundiu e deitou por terra.


Lemos nas Constituições: «Pelo seu Ecce ancilla, estimula-nos à disponibilidade na fé» (n. 85). O "Ecce anci//a" é, de facto, a expressão mais clara e mais profunda da fé de Maria. É uma fé abertura à escuta, uma fé disponibilidade para realizar a palavra e a vontade de Deus.
Esta fé de Maria é plenamente e perfeitamente humana. É, em primeiro lugar, com certeza, um dom perfeito de Deus; mas é um dom perfeitamente acolhido por uma criatura humana, com todos os privilégios necessários para a sua missão, mas também com todas as exigências da condição humana: obscuridade, surpresas imprevistas, abandono confiante. É uma fé perfeita em Maria que, embora sendo "cheia de graça", está submetida ao tempo, à história, aos eventos, onde a fé é posta à prova, provoca sofrimento e se torna mais adulta.
O "Ecce anci//a" de Maria é um acto de pura fé, é uma adesão à Palavra na obscuridade da fé, é acolhimento puro do Espírito que desce sobre Ela e do poder do Altíssimo que a cobre com a Sua sombra, é o abandono total do Seu ser à vontade de Deus, para que tudo se faça segundo a Sua vontade (cf. Lc 1, 38).


Oratio
Senhor, os oráculos de Balaão proporcionam-me uma ocasião para crescer na esperança e torná-Ia mais firme porque me mostram que uma estrela nasce quando Tu queres e os homens nada podem fazer para impedir que ela brilhe. Tu abençoas o teu povo, ainda que os teus e nossos adversários pretendam o contrário. Transformas as maldições, que nos são dirigidas, em bênçãos. Os judeus também quiseram transformar Jesus em maldição: «Ma/dito o que pende do medem», Mas essa maldição tornou-se a maior bênção para toda a Terra. É por essa razão que tenho uma esperança firme. Não espero em mim, na minha fraqueza, mas espero em Jesus, que é a tua bênção triunfal para todo o género humano. Senhor, aumenta a minha esperança! Amen.


Contemplatio


Observemos como as coisas se passavam quando Nosso Senhor pregava na Palestina. Encontrava corações dóceis, discípulos fiéis que O seguiam ansiosos até nos desertos. Acreditavam na sua missão. Consideravam as suas acções, escutavam as suas palavras com fé, com respeito, com edificação. Convertiam-se, apegavam-se a Ele. Eram ovelhas dóceis do Bom Pastor: Oves ejus audiunt(Jo 10, 3).
Mas também havia corações indóceis, espíritos rebeldes, como os habitantes de Corazim, de Cafarnaúm, de Betsaida. Nem os milagres, nem as pregações de Nosso Senhor os convertiam. Procuravam interpretar tudo humanamente e escandalizavam¬se de tudo. Aos seus olhos, João Baptista era um possesso e Nosso Senhor era amigo dos pecadores.


Quais são os escolhos em que embatem os espíritos indóceis? É a falta de fé, o orgulho secreto e a lassidão. A nossa pouca fé leva-nos a dar pouca atenção e a ter pouca estima pelo que nos vem de Deus; os mistérios não nos impressionam, pensamos neles tão frouxamente, esquecemo-los tão depressa; a palavra, as inspirações de Nosso Senhor não nos impressionam, somos distraídos e esquecidos!

o nosso orgulho secreto põe-se de parte. Envergonhamo-nos da cruz, não podemos decidir-nos a amar os menosprezados. A nossa lassidão afasta-nos da doutrina de cruz, recuamos diante da mortificação, a nossa sensualidade tem medo dela.


Lembremo-nos das recomendações divinas: já no Antigo Testamento o Espírito Santo nos tinha dito: «Tende um justo sentimento da divindade e procurai a Deus na simplicidade do vosso coreçêo. (Sab 1). E ainda: «A sabedoria divina entretém-se com as almas simples» (Prov 3, 32).


Nosso Senhor recomendou a simplicidade dos cordeiros, a das pombas, a das crianças. Esta simplicidade honra-O, alegra-O, ganha o seu coração. (Leão Dehon, OSP 4, p. 570s.).


Actio


Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Cristo, Luz das nações, vem iluminar-nos»


http://www.dehonianos.org/

sábado, 12 de dezembro de 2015

03º Domingo do Tempo do Advento - Ano C - 13.12.2015


ANO C
3º DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO



Tema do 3º Domingo do Tempo do Advento

O tema deste 3º Domingo pode girar à volta da pergunta: “e nós, que devemos fazer?” Preparar o “caminho” por onde o Senhor vem significa questionar os nossos limites, o nosso egoísmo e comodismo e operar uma verdadeira transformação da nossa vida no sentido de Deus.
O Evangelho sugere três aspectos onde essa transformação é necessária: é preciso sair do nosso egoísmo e aprender a partilhar; é preciso quebrar os esquemas de exploração e de imoralidade e proceder com justiça; é preciso renunciar à violência e à prepotência e respeitar absolutamente a dignidade dos nossos irmãos. O Evangelho avisa-nos, ainda, que o cristão é “baptizado no Espírito”, recebe de Deus vida nova e tem de viver de acordo com essa dinâmica.
A primeira leitura sugere que, no início, no meio e no fim desse “caminho de conversão”, espera-nos o Deus que nos ama. O seu amor não só perdoa as nossas faltas, mas provoca a conversão, transforma-nos e renova-nos. Daí o convite à alegria: Deus está no meio de nós, ama-nos e, apesar de tudo, insiste em fazer caminho connosco.
A segunda leitura insiste nas atitudes correctas que devem marcar a vida de todos os que querem acolher o Senhor: alegria, bondade, oração.


LEITURA I – Sof 3,14-18a

Leitura da Profecia de Sofonias

Clama jubilosamente, filha de Sião;
solta brados de alegria, Israel.
Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém.
O Senhor revogou a sentença que te condenava,
afastou os teus inimigos.
O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti
e já não temerás nenhum mal.
Naquele dia, dir-se-á a Jerusalém:
«Não temas, Sião,
não desfaleçam as tuas mãos.
O Senhor teu Deus está no meio de ti,
como poderoso salvador.
Por causa de ti, Ele enche-Se de júbilo,
renova-te com o seu amor,
exulta de alegria por tua causa,
como nos dias de festa».

AMBIENTE

O profeta Sofonias prega em Jerusalém, durante a primeira fase do reinado de Josias (séc. VII a.C.). Nas décadas anteriores, o rei ímpio Manassés abriu o país aos costumes dos povos vizinhos, erigiu altares aos deuses estrangeiros (chegando a colocar no templo de Jerusalém a imagem da deusa Astarte), dedicou-se à adivinhação e à magia e multiplicou as injustiças, sobretudo contra os mais pobres e mais débeis. Entretanto, subiu ao trono o rei Josias, que procurou alterar este estado de coisas e promover uma verdadeira reforma religiosa; mas, na época em que Sofonias exerce o seu ministério profético, os erros de Manassés ainda se fazem sentir.
Neste contexto, Sofonias ataca a idolatria cultual, as injustiças, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade: todo este quadro configura uma situação de grave infidelidade à “aliança”; Deus não irá, diz o profeta, pactuar com esta situação.
No entanto, a intenção de Sofonias não é somente anunciar o castigo… A sua mensagem é, antes de mais, um apelo à conversão, primeiro passo para a salvação. O que o profeta pede ao seu Povo é que se volte de novo para Jahwéh, assuma as suas responsabilidades para com Deus e viva de acordo com os compromissos assumidos no âmbito da “aliança”. O texto que vamos ver, no entanto, está incluído nas “promessas de salvação”: aí, o profeta traça o quadro desse tempo novo de alegria e de felicidade, que há-de suceder-se à conversão de Judá.

MENSAGEM

O texto que hoje nos é proposto é um convite à alegria, porque foi revogada a sentença que condenava Judá. O amor de Deus pelo seu Povo venceu. A partir de agora, Deus residirá no meio do seu Povo; e essa nova comunhão entre Jahwéh e Judá é uma garantia de segurança, de felicidade e de vida em plenitude. Mais: o amor de Deus – esse amor que nada consegue desmentir nem apagar – vai renovar o coração do Povo e fazer com que Judá volte para os caminhos da “aliança”; e o próprio Deus Se alegrará com essa transformação.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão e actualização da Palavra podem fazer-se à volta dos seguintes pontos:

• Nunca é demais sublinhar a essência de Deus: o amor. Neste texto, o amor de Deus não só introduz na relação com o Povo um dinamismo de perdão; mas esse amor faz ainda mais: provoca a própria conversão do Povo. Esta consciência de que Deus nos ama, muito para além das nossas falhas e fraquezas, e que o seu amor nos transforma, nos torna menos egoístas e mais humanos, é uma das mais belas constatações que os crentes podem fazer.

• O que renova o mundo e o transforma não é o medo, mas o amor. O medo provoca insegurança, pessimismo, angústia, sofrimento, bloqueamento; o amor é que faz crescer, é que cria dinamismos de superação, é que nos torna mais humanos, é que nos faz confiar, é que potencia o encontro e a comunhão… Devemos ter isto bem presente quando formos chamados a anunciar o Evangelho e a proclamar a proposta de salvação que o nosso Deus faz aos homens.

• Também é necessário sublinhar a constatação de que Deus não desiste de vir ao nosso encontro e de residir no meio de nós. Ele tem uma proposta de salvação que quer, a todo o custo, apresentar-nos. Não é uma constatação consoladora, frente às dificuldades, às angústias, às inseguranças que dia a dia preenchem a nossa existência?

• Finalmente, convém notar o apelo à alegria… A constatação de que Deus nos ama e que reside no meio de nós com uma proposta de salvação e de felicidade para todos os que O acolhem não pode provocar senão uma imensa alegria no coração dos crentes. Damos sempre testemunho dessa alegria? Será que as nossas comunidades são espaços onde se nota a alegria pelo amor e pela presença de Deus?


SALMO RESPONSORIAL – Is 12,2-3.4bcd.5-6

Refrão 1: Exultai de alegria,
porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.

Refrão 2: Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.

Deus é o meu Salvador,
tenho confiança e nada temo.
O Senhor é a minha força e o meu louvor.
Ele é a minha salvação.

Tirareis água com alegria das fontes da salvação.
Agradecei ao Senhor, invocai o seu nome;
anunciai aos povos a grandeza das suas obras,
proclamai a todos que o seu nome é santo.

Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas,
anunciai-as em toda a terra.
Entoai cânticos de alegria, habitantes de Sião,
porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.


LEITURA II – Filip 4,4-7

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Irmãos:
Alegrai-vos sempre no Senhor.
Novamente vos digo: alegrai-vos.
Seja de todos conhecida a vossa bondade.
O Senhor está próximo.
Não vos inquieteis com coisa alguma;
mas em todas as circunstâncias,
apresentai os vossos pedidos diante de Deus,
com orações, súplicas e acções de graças.
E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência,
guardará os vossos corações e os vossos pensamentos
em Cristo Jesus.

AMBIENTE

Paulo, na prisão, recebeu a ajuda fraterna dos Filipenses. Retribui com uma carta em que manifesta o seu afecto pela comunidade cristã de Filipos. Depois de agradecer a Deus pela sensibilidade dos Filipenses ao anúncio do Evangelho (cf. Flp 1,11), de informar a comunidade sobre a sua situação pessoal (cf. Flp 1,12-26), de dirigir exortações várias à comunidade (cf. Flp 1,27-2,18), de dar notícias sobre Timóteo e Epafrodito (cf. Flp 2,19-30) e de denunciar as acusações que lhe fazem os seus adversários (cf. Flp 3,1-21), Paulo – consciente de que ainda nem tudo é perfeito nesta comunidade exemplar – apresenta um conjunto de recomendações diversas de carácter prático. Este texto contém algumas dessas recomendações.

MENSAGEM

A primeira e mais importante recomendação de Paulo é um convite à alegria. Trata-se de algo tão fundamental, que Paulo repete duas vezes no espaço de um versículo: “alegrai-vos”. A palavra aqui utilizada (o verbo “khairô”) leva-nos a essa “alegria” (“khara”) que os anjos anunciam aos pastores, a propósito do nascimento de Jesus em Belém. É, portanto, uma alegria que resulta da presença salvadora do Senhor Jesus no meio dos homens. Depois, Paulo acrescenta outras recomendações: a bondade, a confiança, a oração (de súplica e de acção de graças). São estas algumas das atitudes que devem acompanhar o cristão que espera a vinda próxima do Senhor: alegria, porque a sua libertação plena está a chegar; tolerância e mansidão para com os irmãos; serena confiança em Deus; diálogo com Deus, agradecendo-Lhe os dons e apresentando-Lhe as suas dores e dificuldades.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão deste texto pode tocar os seguintes aspectos:

• A alegria, constitutiva da experiência cristã, deve estar especialmente presente neste tempo de espera do Senhor. Não é uma alegria que resulta dos êxitos desportivos da nossa equipa, nem do nosso êxito profissional, nem do aumento da nossa conta bancária, mas é uma alegria pela presença iminente do Senhor nas nossas vidas, como proposta libertadora. É a certeza da presença libertadora do Senhor que a nossa alegria deve anunciar aos homens nossos irmãos.

• A bondade e a indulgência com que acolhemos os que nos rodeiam têm de ser, também, distintivos de quem espera o Senhor. Será possível que Deus nasça quando o caminho do nosso coração está fechado com cadeias de intolerância, de prepotência, de incompreensão?

• A espera do Senhor faz-se, também, num diálogo contínuo com Ele. Não é possível estar disponível para O acolher, quando estamos indiferentes e não partilhamos com Ele, a cada instante, as nossas alegrias e as nossas dificuldades, os nossos sonhos e as nossas esperanças. Não é possível acolher alguém com quem não comunicamos e de quem não nos sentimos próximos.


ALELUIA – Is 61,1

Aleluia. Aleluia.

O Espírito do Senhor está sobre mim:
enviou-me a anunciar a Boa Nova aos pobres.


EVANGELHO – Lc 3,10-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
as multidões perguntavam a João Baptista:
«Que devemos fazer?»
Ele respondia-lhes:
«Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma;
e quem tiver mantimentos faça o mesmo».
Vieram também alguns publicanos para serem baptizados
e disseram:
«Mestre, que devemos fazer?»
João respondeu-lhes:
«Não exijais nada além do que vos foi prescrito».
Perguntavam-lhe também os soldados:
«E nós, que devemos fazer?»
Ele respondeu-lhes:
«Não pratiqueis violência com ninguém
nem denuncieis injustamente;
e contentai-vos com o vosso soldo».

Como o povo estava na expectativa
e todos pensavam em seus corações
se João não seria o Messias,
ele tomou a palavra e disse a todos:
«Eu baptizo-vos com água,
mas está a chegar quem é mais forte do que eu,
e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias.
Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo.
Tem na mão a pá para limpar a sua eira
e recolherá o trigo no seu celeiro;
a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga».
Assim, com estas e muitas outras exortações,
João anunciava ao povo a Boa Nova».

AMBIENTE

O Evangelho de hoje vem na sequência daquele que reflectimos no passado domingo: o profeta João Baptista indica, com pormenores concretos e a grupos concretos, como proceder para percorrer esse caminho de “metanoia” e preparar a “vinda do Senhor”.

MENSAGEM

A primeira parte do Evangelho de hoje (vers. 10-14) é uma secção própria de Lucas. Pôr as pessoas as perguntar “o que devemos fazer” é habitual em Lucas (cf. Act 2,37; 16,30; 22,10): sugere uma abertura à proposta de salvação que vem de Deus. João Baptista propõe, então, três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência de conversão e de encontro com o Senhor que vem: ao povo em geral, João Baptista recomenda a sensibilidade às necessidades de quem nada tem e a partilha dos bens; aos publicanos, pede que não explorem, que não se deixem convencer por esquemas de enriquecimento ilícito, que não despojem ilegalmente os mais pobres; aos soldados, pede que não usem de violência, que não abusem do seu poder contra fracos e indefesos… Repare-se como João Baptista põe em relevo os “crimes contra o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra Deus; quem o comete, está a fechar o seu coração e a sua vida à proposta libertadora que Cristo veio trazer.
Na segunda parte do Evangelho (vers. 15-18), João Baptista anuncia a chegada do baptismo no Espírito Santo, contraposto ao baptismo “na água” de João. O baptismo de João é, apenas, uma proposta de conversão; mas o baptismo de Jesus consiste em receber essa vida de Deus que actua no coração do homem, transforma o homem velho em homem novo, faz do homem egoísta e fechado em si um homem novo, capaz de partilhar a vida e amar como Jesus. Faz-se, aqui, referência a essa transformação que Cristo operará no coração de todos os que estão dispostos a acolher a sua proposta de libertação: começará, para eles, uma nova vida, uma vida purificada (fogo), uma vida de onde o pecado e o egoísmo foram eliminados, uma vida segundo Deus. Para Lucas, este anúncio do profeta João concretizar-se-á plenamente no dia de Pentecostes.

ACTUALIZAÇÃO

Elementos para a reflexão e actualização da Palavra:

• “E nós, que devemos fazer?” A expressão revela a atitude correcta de quem está aberto à interpelação do Evangelho. Sugere-se aqui a disponibilidade para questionar a própria vida, primeiro passo para uma efectiva tomada de consciência do que é necessário transformar.

• Os bens que temos à nossa disposição são sempre um dom de Deus e, portanto, pertencem a todos: ninguém tem o direito de se apropriar deles em seu benefício exclusivo. As desigualdades chocantes, a indiferença que nos leva a fechar o coração aos gritos de quem vive abaixo do limiar da dignidade humana, o egoísmo que nos impede de partilhar com quem nada tem, são obstáculos intransponíveis que impedem o Senhor de nascer no meio de nós. As nossas comunidades e nós próprios damos testemunho desta partilha que é sinal do Reino proposto por Jesus?

• Os publicanos eram aqueles que extorquiam dinheiro de modo duvidoso, despojando os mais pobres e enriquecendo de forma ilícita. Que dizer dos modernos esquemas imorais (às vezes lícitos, mas imorais) de enriquecimento rápido? Que dizer da corrupção, do branqueamento de dinheiro sujo, da fuga aos impostos, das taxas exageradas cobradas por certos serviços, das falcatruas? Será possível prejudicar conscientemente um irmão ou a comunidade inteira e acolher “o Senhor que vem”?

• “Não exerçais violência sobre ninguém”… E os actos de violência, que tantas vezes atingem inocentes e derramam sangue ou, ao menos, provocam sofrimento e injustiça? E os actos gratuitos de terrorismo, ainda que sejam mascarados de luta pela libertação? E a exploração de quem trabalha, a recusa de um salário justo, ou a exploração de imigrantes estrangeiros? E as prepotências que se cometem nos tribunais, nas repartições públicas, na própria casa e, tantas vezes, nas recepções das nossas igrejas? Neste quadro, é possível acolher Jesus?

• Ser cristão é ser baptizado no Espírito, quer dizer, é ser portador dessa vida de Deus que nos permite testemunhar Jesus e a sua proposta. O que é que conduz a nossa caminhada e motiva as nossas opções – o Espírito, ou o nosso egoísmo e comodismo?


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3º DOMINGO DO ADVENTO
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 3º Domingo do Advento, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. GESTO PARA O INÍCIO DA CELEBRAÇÃO.
Convidar a assembleia à alegria… Sem ler o texto, mas fazendo-lhe referência, o presidente poderá alimentar a sua palavra de abertura com o apelo que Paulo lança aos Filipenses na segunda leitura: “Irmãos: alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. O Senhor está próximo”.

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
“A nossa felicidade está em Ti, Senhor nosso Deus. Nós Te dirigimos as nossas orações e os nossos gritos de alegria, porque vieste habitar no meio de nós por Jesus teu Filho, o Ressuscitado.
Nós Te pedimos por todos os homens nossos irmãos que a obscuridade do mal e do ódio mergulhou na tristeza: que a salvação venha até eles”.

No final da segunda leitura:
“Pai, nós Te damos graças pela alegria que nos dás e que vem de Jesus, porque está completamente próximo de nós, como Luz nas trevas e Paz nas inquietudes da existência.
Nós Te pedimos: que a paz do teu Espírito guarde os nossos corações e as nossas inteligências em Cristo Jesus”.

No final do Evangelho:
“Deus fiel, bendito és Tu pela Boa Nova anunciada por João Baptista e pelo caminho de conversão que ele abria aos teus fiéis. Bendito és Tu pelo baptismo no Espírito Santo que Jesus nos deu.
Doravante, é a Jesus que nós pedimos: «Que devemos fazer?» Nós Te pedimos: que o teu Espírito nos faça conhecer a tua vontade”.

4. BILHETE DE EVANGELHO.
Deus não pede a mesma coisa aos cobradores de impostos e aos soldados, mas pede a todos para fazerem algo que manifeste mais justiça, mais generosidade, mais paz… É no momento em que os homens se deixam baptizar na água do Jordão que perguntam o que devem fazer. Se vêm encontrar João Baptista, é porque procuram converter-se, procuram tornar-se homens novos. Aceitam viver outra coisa a fim de se tornarem outros. Mas vem o dia, anuncia o Percursor, em que a conversão não é apenas obra do homem, mas acção comum de Deus e dos homens: vem Aquele que baptizará no Espírito Santo e no fogo para fazer surgir um mundo novo e varrer o velho mundo. A Boa Nova que João Baptista anuncia ao povo é precisamente a intervenção de Deus em pessoa pela vinda do Messias que vai comprometer a humanidade nesta renovação radical, fruto da Aliança Nova selada entre Deus e a humanidade, Aliança com os dois parceiros da salvação: Deus e o homem.

5. À ESCUTA DA PALAVRA.
“Que devemos fazer?” Esta questão é posta três vezes a João Baptista, pelas multidões, pelos publicanos, pelos soldados. João não parece ser muito exigente nas respostas. Nada de extraordinário. Não pede para saírem do real das suas vidas. Por exemplo, exorta as multidões à partilha com os mais pobres. Hoje, dir-nos-ia para transformarmos a festa comercial de Natal numa ocasião de partilha mais generosa. A atenção ao quotidiano sugerir-nos-á como partilhar! Não são necessárias coisas extraordinárias. Basta deixar iluminar pela Boa Nova de Jesus a nossa vida de todos os dias…

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Neste domingo que convida à alegria, pode-se escolher a Oração Eucarística II da Missa com Crianças: “Sim, bendito seja o teu enviado, o amigo dos pobres e dos pequenos… Ele veio arrancar do coração do homem o mal que impede a amizade, o ódio que impede de ser feliz…”

7. PALAVRAS PARA O CAMINHO…
• No dia 8 de Dezembro, a Igreja festejou a Imaculada Conceição da Virgem Maria. O que Paulo recomenda na segunda leitura, Maria viveu-o desde a primeira hora. Viveu sempre na alegria do Senhor: “A minha alma glorifica o Senhor, o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador”. A sua serenidade era conhecida por todos, não andava inquieta com nada: “Fazei o que Ele vos disser”. E a paz de Deus guardou o seu coração e a sua inteligência no seu Filho Jesus: “A sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração”. Ao longo da próxima semana, na espera do 4º domingo do Advento e da narração da visita de Maria a Isabel, conservemos no nosso coração a alegria e a paz recebidas nesta Eucaristia e, por intercessão de Maria, “em qualquer circunstância”, rezemos para fazer chegar a Deus os nossos pedidos.
• Uma partilha concreta. Embora menos habitual que durante a Quaresma, pode ser proposto um “gesto de partilha” para esta semana, na linha das palavras de João Baptista. Na paróquia, ou pessoalmente, prever a natureza desta partilha (dinheiro, tempo, acolhimento no momento das festas) e os seus beneficiários.





UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org – www.dehonianos.org

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Advento - Segunda Semana - Sábado - 12.12.2015


Tempo do Advento Segunda Semana - Sábado

Lectio

Primeira leitura: Ben Sira 48, 1-4.9-11


Levantou-se. depois, o profeta Elias, ardoroso como o fogo; as suas palavras eram ardentes como um facho. 2Fez vir sobre eles a fome e, no seu zelo, reduziu-os a poucos. 3Com a palavra do Senhor fechou o céu e assim fez cair fogo por três vezes. 4Quão glorioso te tornaste, Elias, pelos teus prodígios! Quem pode gloriar-se de ser como tu?

9Tu foste arrebatado num redemoinho de fogo, num carro puxado por cavalos de fogo; 10*tu foste escolhido, nos decretos dos tempos, para abrandar a ira antes de enfurecer, reconciliar os corações dos pais com os filhos e restabelecer as tribos de Jacob. 11 *Felizes os que te viram e os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente.

o livro de Ben Sira relê didacticamente a história de Israel, apresentando uma galeria de ilustres personagens. Entre essas personagens ressalta a do profeta Elias, comparado ao fogo, por causa do seu zelo e da sua paixão pela causa do Deus de Israel. A sua vida foi, de facto, totalmente votada ao serviço de Deus, em cuja presença Elias se mantinha permanentemente (cf. 1 Re 18, 15).

Além da sua ardente pregação para reconduzir o povo a Deus, o retrato traçado por Ben Sira exalta os seus poderes taumatúrgicos, de acordo com a sensibilidade popular da época (w. 2-4). Mas o elogio do profeta atinge o auge na consideração do seu destino especial, o seu arrebatamento pelo fogo (cf. v. 9), visto como uma vitória da vida sobre a morte, alcançada pelo amor de Deus. Elias é pois um incentivo à esperança na vida para além da morte, à bem-aventurança total e definitiva que espera aqueles que, como Elias, «morreram no amor» (v. 11).
Por ter sido arrebatado ao céu, a tradição judaica (cf. Mt 3, 24) espera que regresse, a fim de preparar o povo para a vinda do Messias (v. 10). O Novo Testamento recebe esta tradição judaica do regresso de Elias e vê-a realizada em João Baptista.


Evangelho: Mateus 17, 10-13

Naquele tempo, 10ao descerem do monte, os discípulos fizeram a Jesus esta pergunta: «Então, por que é que os doutores da Lei dizem que Elias há-de vir primeiro?» 11E1e respondeu: «Sim, Elias há-de vir e restabelecerá todas as coisas. 12*Eu, porém, digo-vos: Elias já veio, e não o reconheceram; trataram-no como quiseram. Também assim hão-de fazer sofrer o Filho do Homem.» 13Então, os discípulos compreenderam que se referia a João Baptista.

Depois da transfiguração, ao descer do monte, Jesus conversa com os discípulos sobre um dos protagonistas da visão: o profeta Elias. Referindo-se às discussões rabínicas sobre a missão de Elias, sobre a verdade e sobre o significado do seu regresso preanunciado por Malaquias (3, 23-24), Jesus declara aceitar a tese daqueles que afirmam a necessidade de uma vinda de Elias antes do Juízo. Por outro lado, Jesus nega toda a visão fantasiosa, divulgada entre o povo, do regresso de Elias, alertando os discípulos para a necessidade de discernirem o plano de Deus, que se revela a seus olhos. Por isso, afirma que Elias já veio, mas foi desconhecido, e que a sua sorte preanuncia a do Filho do homem (v. 12).

Jesus identifica expressamente Elias com o Baptista para convidar o povo à conversão urgente, à cura das relações com as outras pessoas e da relação com Deus. Os discípulos compreendem essa identificação (v. 13). Parece claro que essa identificação não se deduz automaticamente das Escrituras, mas que se revela a quem, dócil à fé, está disposto a acolher a pregação de João, com o insistente convite à conversão e à preparação para o encontro com Aquele que vem. Os discípulos, por momentos, parecem compreender, embora seguidamente voltem a cair na incredulidade (cf. Mt 15, 20).


Meditatio

O elogio a Elias não é feito por um seu contemporâneo, mas por Ben Sirá que viveu muito tempo depois dele. Assim acontece com os profetas. Não se faz caso deles quando vivem. Muitas vezes até são perseguidos e mortos. Só mais tarde são elogiados. Tudo isto porque a sua palavra incomoda, ou não está sempre de acordo com os nossos pontos de vista, ou com as nossas expectativas.

Foi o que aconteceu com Jesus. Os que deviam estar preparados, porque conheciam as Escrituras, usaram-nas para levantar objecções a Cristo: «Não tem Elias que vir prtmeiro?» Jesus responde: «Elias já veio, e não o reconheceram; trataram-no como quiseram ... Então, os discípulos compreenderam que se referia a João Baptista».

A missão do Baptista enfrenta, de modo análogo à de Elias, dois pontos centrais da minha própria vida: a minha relação com Deus (que me pede para regressar a Ele) e a cura das minhas relações com o próximo.

Devo deixar-me interpelar por João Baptista cuja voz proclamava corajosamente, como fizera o profeta Elias, o direito de Deus sobre a nossa humanidade: só a Ele prestar culto, aderir integralmente à Aliança. Neste sentido, João é, como Elias, um fogo irresistível, um profeta cuja palavra ilumina os meus caminhos e os da minha comunidade, e se ergue como juízo severo contra o pecado, contra toda a infidelidade à Aliança.

O facto de, tanto Elias como João, serem perseguidos pelos poderosos, e incompreendidos pelos seus contemporâneos, alerta-me para o risco de, eu mesmo, me tornar obstáculo ao caminho da Palavra divina, às vezes incómoda e inquietante. Por outro lado, também me recorda que, apesar de todas as oposições, acabará por triunfar.

Como dehonianos, somos chamados a ser no mundo de hoje "profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens e do mundo em Cristo" (Cst. 7), conforme o desejo ardente do Pe. Dehon, especialmente por meio do culto e da devoção ao Coração de Cristo, por meio da vida de oblação, de reparação, de imolação. Participamos, deste modo, na "na obra de reconciliação" que "cura a humanidade, reúne-a no Corpo de Cristo e consagra-a para Glória e Alegria de Deus" (Cst. 25). Não se trata de uma missão fácil, como não foi fácil a missão de Elias, ou a de João Baptista. Pode ser preciso enfrentar a desconfiança, a oposição, a perseguição ou até a morte. Nessas situações, a nossa oblação tornar-se-é imolação, participação e vivência do mistério pascal de Cristo, para redenção do mundo.


Oratio
Senhora do Advento, Virgem da escuta, Virgem disponível, Virgem que acolhe, intercede por mim, para que me prepare convenientemente para escutar a Palavra, acolhê-Ia no meu coração e na minha vida, estar disponível para caminhar e seguir Nosso Senhor Jesus Cristo. Então serei iluminado, saberei reconhecer os falsos profetas que continuam a actuar no mundo, e saberei seguir que efectivamente exortam ao bem, ao fervor operante da caridade. Intercede por mim, Senhora, para o Espírito Santo me inflame, e possa tornar-me um fogo ardente, um verdadeiro profeta do amor de Deus, presente e actuante no mundo, um servidor da reconciliação dos homens entre si e com o Pai. Amen.


Contemplatio
S. João Baptista entrega-se à penitência e à reparação pelo seu povo, como os profetas. Como Jeremias, é santificado no seio de sua mãe. É o novo Elias, predito por Malaquias.

Desde a sua infância entrega-se à penitência. «Não beberá nem vinho nem adre», diz o anjo a Zacarias.
Passa a sua adolescência no deserto, está vestido com uma túnica de peles de camelo apertada por um cinto de couro; come mel silvestre e gafanhotos.


«Que fostes ver ao deserto? diz Jesus aos seus discípulos. Não é um homem molemente vestido. É um anjo, que não come nem bebe. (Mt 11, 18). Nosso Senhor exprime assim a extrema mortificação do Precursor.

É um profeta, um asceta. S. Bernardo chama-o patriarca, o mestre e o guia dos religiosos. Como os religiosos contemplativos, amou a solidão, a oração, a penitência; como os religiosos apostólicos, pregou a todas as classes da sociedade, reconduziu um grande número de pecadores, conduziu as almas a Jesus Cristo.


Imitemos a sua penitência e o seu zelo. (Leão Dehon, OSP 3, p. 687).


Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Felizes os que te viram e os que morreram no emot» (Sir 48, 11).


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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Advento - Segunda Semana - Sexta-feira - 11.12.2015


Tempo do Advento Segunda Semana - Sexta-feira

Lectio

Primeira leitura: Isaías 48, 17-19


17Eis o que diz o Senhor, teu redentor, o Santo de Israel: Eu sou o Senhor teu Deus, que te dou lições para teu bem, que te guio pelo caminho que deves seguir. 18Ah! Se tivesses atendido ao que Eu mandava! O teu bem-estar seria como um rio, a tua felicidade como as ondas do mar.19A tua posteridade seria como a areia, como os seus grãos, os frutos do teu ventre. O teu nome não seria aniquilado, nem destruído diante de mim.

o Deutero- Isaías concentra-se na revelação do Senhor como Deus de Israel e oferece-nos uma espécie de "rosário" dos nomes de Deus: Redentor, Santo de Israel (título repetido 7 vezes: 41, 14; 43, 3.14; 47,4; 48, 17; 49, 7; 54,5). A salvação, que manifesta a santidade de Deus, também se realiza por meio do ensino do coração do povo, possibilitando-lhe viver a Aliança e conhecer o plano de amor salvífico gratuito, que Deus tem para toda a humanidade, e que é razão última da criação do mundo (v. 17).

O profeta faz também uma espécie de balanço da história passada da Aliança: a palavra de Deus não foi escutada; a Lei não foi observada; por isso é que Israel está tão longe da prosperidade que a Aliança comportava. Mas, agora, Deus volta a dar-lhe a sua Palavra eficaz, de modo que a obediência a ela possa ter efeitos profundos e duradoiros e conduza Israel a uma vida na justiça oferecida por Deus (v. 18), garantindo o cumprimento da promessa feita aos Pais (v. 19; cf. Gn 12, 2-3; 22, 17).

 

Evangelho: Mateus 11,16-19


Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 16«Com quem poderei comparar esta geração? É semelhante a crianças sentadas na praça, que se interpelam umas às outras, 17dizendo: 'Tocámos flauta para vós e não dançastes; entoámos lamentações e não batestes no peito!' 18Na verdade, veio João, que não come nem bebe, e dizem dele: 'Está possesso!' 19*Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ~í está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e pecadores!' Mas a sabedoria foi justificada pelas suas próprias obras.» 
Jesus acentua a incapacidade dos seus contemporâneos para compreenderem a bondade do tempo presente, uma vez que não estão abertos ao novo. Por isso, são como crianças que não sabem lamentar-se nem divertir-se. A parábola apresenta-nos dois grupos de miúdos que contrastam entre si: o segundo grupo perdeu interesse

pelo jogo, e amuou, ainda antes de o iniciar (vv. 16-17). Os contemporâneos de João Baptista e de Jesus comportaram-se do modo idêntico, devido à má vontade.

Em Mateus, a sentença final dá resposta a esta reacção oposta de estilos de devoção: o estilo sábio de Deus foi reconhecido por aqueles que tomaram seriamente em consideração o seu modo de agir. O que Jesus pretende é agitar as consciências dos seus ouvintes e convidá-los a acolher a "desconhecida hora de Deus". As palavras sobre o Baptista terminam com um apelo a uma compreensão de fé que leve a optar pelo projecto salvífico de Deus, sintonizando com o seu modo de agir e de se revelar na história.

 

Meditatio

O Advento ensina-nos a desejar e a acolher o Senhor. Mas é preciso estar disposto a acolhê-lo como Ele se apresentar, e não segundo os nossos sonhos e critérios. Caso contrário, jamais O acolheremos, porque Ele gosta de nos surpreender sempre. Se não Se apresenta como sonhávamos, melhor, porque os nossos sonhos fecham-nos em nós mesmos, enquanto que a Sua presença real e concreta nos faz sair de nós e nos põe em relação com o Pai.

Há que estar pronto para reconhecer a hora de Deus. Isso significa, em primeiro lugar, renunciar a entrincheirar-nos em desculpas que apenas mascaram o nosso desinteresse e a nossa resistência ao convite à conversão, que incessantemente nos é dirigido pela Palavra de Deus. As recorrentes advertências dos profetas exortam¬nos a caminhar na justiça e numa fé operante e sincera.

Mas a hora de Deus não é só a da penitência e da mudança de vida. É também a da alegria trazida pelo Evangelho de Jesus. A alegria evangélica nascerá em nós se soubermos reconhecer que Ele não se envergonhou de ser chamado «amigo dos pub/icanos e dos pecedores- O perdão que nos anuncia não é uma palavra vazia ou uma notícia genérica sobre a boa disposição de Deus em relação a nós. É o evento perturbante da sua vinda, o seu querer fazer festa connosco, pecadores. E não é uma festa que podemos adiar para amanhã, como gostariam de fazer os miúdos caprichosos da parábola evangélica, porque é para nós, hoje!

Que o Senhor que nos livre do espírito de crítica que tudo recusa, que sempre encontra razões para não aceitar, para não acolher a vida como ela se apresenta, as pessoas como são. Que o Senhor nos dê verdadeiro espírito de acolhimento, espírito de benevolência para acolhermos a todos, espírito que nos faça ver em tudo o que é bom, o que podemos aproveitar para o serviço do Senhor, o que nos faz progredir no 
amor.

Para os cristãos, e particularmente para os religiosos, é um perigo grave encerrar-nos no egoísmo pessoal e comunitário, fechando-nos a Deus e aos irmãos. Essa atitude seria negação do amor e da disponibilidade para acolher a Cristo, onde quer que se manifeste. Muitas vezes manifesta-se nos irmãos, particularmente nos carenciados e oprimidos.

Por isso as Constituições afirmam correctamente: "A comunidade deixa-se interpelar pelos homens no meio dos quais vive" Cst. 61); "A nossa vida religiosa ... é constantemente interpelada. Somos obrigados a repensar e a reformular a sua missão e as suas formas de presença e de testemunho ... exige o encontro frequente com o Senhor na oração, a conversão permanente ao Evangelho e a disponibilidade de coração e de atitudes, para acolher o Hoje de Deus" (Cst. 144).

 

Oratio

Senhor, hoje, sinto-me interpelado a pensar e a reflectir sobre mim mesmo. Sei que há tempo para chorar e tempo para dançar. Mas descubro que, muitas vezes, sou pouco sábio, e sou muito distraído e incapaz de reconhecer a tua hora na minha vida. Queria ser eu a marcar o tempo e o modo como Te apresentas na minha vida. Por isso, comporto-me como os miúdos caprichosos de que falas no evangelho. Por isso, temo tornar-me vítima da obstinação, e não conseguir julgar correctamente os sinais da tua presença na minha vida, na vida da minha comunidade, na vida da Igreja, na vida do mundo.

Não desistas de dirigir a tua Palavra ao meu coração obstinado e endurecido, para que saiba compreender o teu plano sobre mim e atinja a verdadeira sabedoria. Repreende-me, ainda que duramente, quando quiseres que eu escute os apelos de João Baptista à penitência e à conversão. Ajuda-me a reconhecer que é este o tempo da graça, o tempo em que me ensinas para meu bem e me guias pelo caminho que devo percorrer. Amen.

 

Contemplatio

Jesus sofreu também a calúnia. Foi rejeitado pelos homens, que escondiam a cara afastando-se d' Ele como se corassem ao reconhecê-lo. Foi falsamente acusado como jamais alguém depois d' Ele o foi. Chamaram-n'O Samaritano e fizeram correr o boato de que estava possuído pelo demónio. Era, dizia-se, «um bom comedor e bebedor de vinho, um amigo dos publicanos e dos pecadores». Era um impostor, um sedutor, um sedicioso. Ser suspeito e acusado de pecado foi para o Salvador uma indizível humilhação. 
O padre falsamente acusado sofre também horrivelmente.

Os que acusavam Jesus e queriam precipitá-lo da rocha abaixo e matá-lo, tinham sido cumulados dos seus benefícios. Todo o padre deve estar pronto a sofrer a mesma ingratidão.

Quantos bons padres, cuja conduta é criticada, censurada, acusada, condenada abertamente ou em segredo! Mesmo os seus amigos se afastam deles. Mesmo os seus irmãos no sacerdócio, mesmo os seus superiores talvez dêem crédito à calúnia. São nisto, como na sua dignidade e no seu ministério, a imagem viva do Salvador.

Enfim, o divino Mestre morreu debaixo de uma verdadeira tempestade de falsas acusações. Tinha sido abandonado mesmo pelos seus amigos.

«Meus amados, diz S. Pedro, não vos surpreendais com o fogo ardente que serve para vos provar, mas participando assim nos sofrimentos de Cristo, alegrai-vos e no momento da revelação da sua glória participareis também na sua alegria ... » (lPd 4, 12). (Leão Dehon, OSP 2, p. 601s.).

Actio 
Repete frequentemente e vive hoje a palavra: 
(«Eu sou o Senhor teu Deus, que te guio pelo caminho que deves segui!») (Is 48, 17).


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Advento - Segunda Semana - Quinta-feira - 10.12.2015


Tempo do Advento Segunda Semana - Quinta-feira

Lectio

Primeira leitura: Isaías 41, 13-20

13porque Eu, o Senhor, teu Deus tomo-te pela mão, e digo-te: 'Não tenhas medo, Eu mesmo te ajudarei!' 14*Não tenhas medo, pobre vermezinho de Jacob, mísero insecto de Israel. Eu próprio te ajudarei. -oráculo do Senhor. O teu redentor é o Santo de Israel. 15Farei de ti uma grade aguçada, nova e armada de dentes; trilharás as montanhas e as triturarás. Reduzirás a palha as colinas. 16Tu as joeirarás e o vento levá-Ias-á, e o vendaval as espalhará. Exultarás, então, no Senhor, gloriar-te-ás no Santo de Isreei» 170s pobres e os necessitados buscam água e não a encontram. Têm a língua ressequida pela sede. Mas Eu, o Senhor, os atenderei; Eu, o Deus de Israel, não os abandonarei.18Farei brotar rios nos morros escalvados e fontes do fundo dos vales. Transformarei o deserto num reservatório e a terra árida em arroios de água. 19P1antarei no deserto cedros e acácias, murtas e oliveiras. Farei crescer na terra seca o cipreste, ao lado do ulmeiro e do buxo, 20para que vejam e saibam, considerem e compreendam, de uma vez por todas, que é a mão do Senhor que faz estas coisas, que o Santo de Israel as realizou.


No contexto social do Antigo Testamento, havia a figura do "resgatador" (go 'el), parente que, devido à proximidade de sangue, tinha a função de resgatar outro parente caído na escravidão ou obrigado a alienar uma propriedade para pagar uma dívida. A função de "resgatador" podia também resultar de uma aliança: uma pessoa comprometia-se a resgatar outra caída nas referidas situações, ou a vingá-Ia, caso fosse morta. O Senhor resgata Israel porque lhe estava ligado por uma familiaridade ou solidariedade parental fundadas na criação e, mais ainda, na libertação do Egipto e no dom da Aliança e da Terra. O povo pode e deve, pois, contar com o Senhor, que quer salvá-lo dos inimigos e enchê-lo de alegria e de benefícios.

O povo deve, portanto, reconhecer-se entre os sedentos que em vão procuram água, mas a quem o Senhor vai ao encontro para os saciar. Para esse povo, Deus prepara um novo êxodo através de um deserto, que cobre de luxuriante vegetação e rega por meio de rios de água como o Éden (v. 18). Nesse encantador jardim, o povo de Deus irá reencontrar o seu Deus: verá, reflectirá e finalmente compreenderá a obra do Senhor (v. 20).

Recorrendo ao tema da criação, Isaías lembra que a acção salvífica de Deus não será exclusiva de Israel, mas aberta a todos os povos.


Evangelho: Mateus 11, 11-15

Naquele tempo disse Jesus á multidão: 11 *Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele. 12*Desde o tempo de João

Baptista até agora, o Reino do Céu tem sido objecto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. i3porque todos os profetas e a Lei anunciaram isto até João. i4E, quer acrediteis ou não, ele é o Elias que estava para vir. i5Quem tem ouvidos, oiça!»

Mateus, depois de narrar o envio a Jesus de alguns discípulos de João, refere as palavras de Jesus sobre o mesmo João, prisioneiro de Herodes. Exalta a firmeza da fé e a grandeza do profeta, afirmando que não apareceu ninguém maior do que ele no mundo (v. 11). Mas quem se torna discípulo de Jesus entra numa nova ordem de salvação, na economia do reino, onde, mesmo o mais pequeno, é revestido da incomparável dignidade de filho de Deus (v. 11). Jesus dá ainda a entender que a missão de João não se esgota em anunciar o Messias, mas que, no Baptista, será antecipado o destino doloroso do Messias.

Finalmente Jesus convida-nos a uma compreensão profunda da missão e da pessoa de João Baptista, à luz da Lei e dos Profetas, isto é, do projecto de Deus testemunhado nas Escrituras. Uma leitura atenta e um bom discernimento (v. 15) levar-nos-ão a compreender que João está na charneira entre as duas economias, está entre a expectativa e a realização, que nele se realiza o regresso de Elias, objecto de esperança na tradição bíblico-judaica, como precursor imediato do Messias.


Meditatio

«Eu, o Senhor, teu Deus tomo-te pela mão, e digo-te: 'Não tenhas medo, Eu mesmo te ajudarei! ' Não tenhas medo ... Eu próprio te ajudarei». Estas palavras, ou outras semelhantes são frequentemente repetidas na Sagrada Escritura. São dirigidas a Israel ou a pessoas concretas que Deus escolhe chama para servir o seu povo. «Não tenhas medo; Eu estarei cootiço-, diz Deus a Moisés, quando o encarrega de ir libertar o seu povo do Egipto. «Não tenhas medo; Eu estarei contiço-, diz o Senhor a Josué quando o põe à cabeça de umas tribos nómadas, as de Israel, para conquistar cidades fortificadas. «Não tenhas medo; Eu estarei contiço», diz o Senhor a Paulo em várias circunstâncias da sua vida apostólica e especialmente quando, no cárcere, aguarda a morte.

É esta Presença, que tudo transforma, que esperamos no Natal. Deus vem ao encontro do seu povo e de cada um de nós. Torna-se Emanuel, Deus connosco. Vem na fraqueza da condição humana, para nos socorrer, não pelo poder e pela força, mas pela solidariedade e pela proximidade connosco. Sem esta presença e proximidade de Deus, cada um de nós não passaria de um «pobre verrnesinho».
O encontro com Deus, meu redentor, meu go 'et, só é possível com a minha colaboração livre. Implica a minha opção de fé, a decisão de me abrir à compreensão profunda das Escrituras que me põem em contacto com a radical novidade do plano de Deus manifestado na vinda de Jesus. Só assim o meu coração se renova.

A figura do Baptista é uma severa provocação a reconhecer a enorme oportunidade que me é oferecida para entrar no Reino e acolher o dom imenso da dignidade de filho de Deus, que ultrapassa toda e qualquer outra dignidade.
O texto termina com um forte convite a não demorar, a não me deixar paralisar pelo medo, mas a ir lesto ao encontro d ' Aquele que vem ao meu encontro e do Reino que gratuitamente me oferece.

A presença de Deus, a presença do Filho de Deus, no meio de nós, como libertador e salvador, realiza-se actualmente, de modo muito especial, na Eucaristia. Ela é a nossa Tenda do encontro, o nosso Templo de Jerusalém.

Sob os véus eucarísticos, Jesus vive no meio de nós o amor nas suas exigências fundamentais de totalidade e eternidade: tudo e sempre. Também para nós realiza, para além de toda a expectativa, a Sua promessa de não nos deixar órfãos (cf. Jo 14, 18), por meio de tantas presenças, mas nenhuma delas é mais completa e pessoal do que a presença eucarística. Daí a importância da Eucaristia na vida da Igreja, na vida das nossas comunidades, na vida de cada um de nós: «Toda a nossa vida cristã e religiosa encontra a sua fonte e o seu ponto culminante na Eucaristia (cf. LG 11). A celebração do Memorial da morte e ressurreição do Senhor constitui para nós o momento privilegiado da nossa fé e da nossa vocação de Sacerdotes do Coração de Jesus» (Cst 80).


Oratio

Senhor Jesus, eu Te agradeço por teres vindo ao meu encontro, não de modo triunfal, mas de modo humilde e pobre. Eu Te agradeço por teres querido meter-te em todas as nossas situações humanas, particularmente nas difíceis. A certeza de que estás comigo, especialmente nas horas mais difíceis, quando a minha vida é mais semelhante à tua cruz, dá-me força e confiança extraordinárias e enche-me de alegria em situações onde seria mais natural a desolação.

Eu Te agradeço por estares comigo. Que saiba também estar contigo. Como diria Inácio de Loiola, meteste-te connosco e pedes-nos para estarmos contigo na pobreza e na obediência à vontade de Deus. Amen.


Contemplatio

(João Baptista) é um homem grave, sério e firme, que compreendeu, quis, e que permanece imutavelmente agarrado à sua convicção e à sua resolução.
«Não é um homem mo/emente vesttdo-, um homem sensual, amigo dos salões e dos lugares de prazeres; é o maior dos filhos nascidos da mulher. - Desde os dias de João Baptista, o Reino dos céus é tomado de assalto; os bravos arrebatam-no» (Mt 11).

Jesus faz-se o panegirista da força de alma de João Baptista. Que lição de energia nos dão os dois! As grandes obras, os grandes empreendimentos e o reino dos céus não são para as canas, mas para os cedros. A energia e o carácter temperam-se na vida austera, no hábito de se vencer a si mesmo, no desapego do mundo, das suas vaidades e das suas molezas. O Coração de Jesus e o de João Baptista foram mais fortes do que a morte.

É este o caminho que segui até aqui? Que é que tenho de fazer para superar a corrente de uma vida mole e tíbia? Não é preciso bruscamente romper com um hábito ou uma relação?

E pelas almas para as quais tenho uma missão de educação, que fiz até ao presente? Formei-as para a obediência, para a austeridade, para o sacrifício? Tomarei conta das suas vidas como da minha.(Leão Dehon, OSP 3, p. 208)


Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Não tenhas medo, Eu mesmo te ajudareil» (Is 41, 13)


http://www.dehonianos.org/

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Advento - Segunda Semana - Quarta-feira - 09.12.2015


Tempo do Advento Segunda Semana - Quarta-feira


Lectio

Primeira leitura: Isaías 40,25-31

25«A quem, pois, me comparareis, que seja igual a mim?» -pergunta o Deus Santo. 26Levantai os olhos ao céu e olhai! Quem criou todos estes astros? Aquele que os conta e os faz marchar como um exército. A todos Ele chama pelos seus nomes. É tão grande o seu poder e tão robusta a sua força, que nem um só falta à chamada.27*Porque andas falando, Jacob, e murmurando, Israel: «O Senhor não compreende o meu destino, o meu Deus ignora a minha causa!» 28Porventura não sabes? Será que não ouviste? O Senhor é um Deus eterno, que criou os confins da terra. Não se cansa nem perde as forças. É insondável a sua sabedoria. 29E1e dá forças ao cansado e enche de vigor o fraco. 30Até os adolescentes se cansam e se fatigam e os jovens tropeçam e vacilam. 31Mas aqueles que confiam no Senhor renovam as suas forças. Têm asas como a águia, correm sem se cansar, marcham sem desfalecer.


A meditação da história da salvação, e da experiência de fé de Israel, leva o Deutero-Isaías à primeira afirmação de um monoteísmo prático e teórico. Essa afirmação é feita por meio de perguntas retóricas que sublinham a incontestável unicidade do poder salvador do Senhor e a sua criatividade para encontrar caminhos não andados para socorrer o seu povo (cf. v. 25). O Deutero-Isaías quer convencer os seus ouvintes de que Deus pode e quer salvá-los, quer consolá-los, mostrando que cuida eficazmente dos seus fiéis.


Se esse é o Deus de Israel, não há razão para que o povo se sinta abandonado pelo Senhor, apesar da situação difícil em que se encontra, o cativeiro de Babilónia. O importante é que verifique a incapacidade de se salvar por si próprio, simbolizada no cansaço dos adolescentes e dos jovens que «tropeçam e veaten» (v. 30), e reconheça a sua fragilidade diante de Deus. Então poderá experimentar a força que vem de Deus (v. 31) e reviver a experiência do êxodo.


Evangelho: Mateus 11,28-30

Naquele tempo Jesus exclamou: 28«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que eu hei-de aliviar-vos. 29*Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

O conhecimento de Deus é possível porque Jesus introduz os seus discípulos nesse conhecimento (cf. Mt 11, 25-27). Mas, para acolherem a paternidade divina e a amizade do Filho, os discípulos hão-de fazer-se "pequenos".

o evangelho de hoje diz-nos que é "pequeno" quem acreditar que o estilo de Jesus «manso e humilde de coreção. (v. 29) é o caminho para chegar aos segredos de Deus, e se dispuser a aproximar-se d ' Ele e a tornar-se discípulo: «Vinde a mim» (v. 28). Jesus, tal como a Sabedoria do Antigo Testamento (cf. Sir 51, 26-27; 6, 24ss.), convida para a sua escola e promete «descsnso-, isto é, o saciar dos mais profundos anseios do coração humano.

É, pois, preciso tornar-se discípulos, aproximar-se de Jesus que fala do Pai aos seus amigos, e descobrir que a familiaridade com Jesus é uma escola exigente, mas capaz de oferecer repouso e paz. Jesus não dispensa os seus discípulos do cumprimento da lei de Deus, como sugerem os termos «juço. e «tordo», Mas será um peso adequado às forças de quem o deve carregar.


Meditatio
«O Senhor... não se cansa nem perde as forças; Ele dá forças ao cansado e enche de vigor o trea», afirma Isaías. «O Senhor é misericordioso e compassivo, é paciente e cheio de emot», afirma o Salmo 102.
Deus revelou-se a Moisés como um Deus rico de misericórdia e de fidelidade.

Ao longo da história, sempre usou de misericórdia para com o seu povo. Puniu-o, mas puniu-o com piedade, para o renovar e conduzir a maior intimidade com Ele.

Mas a misericórdia de Deus revelada no Antigo Testamento é bem pouca coisa, em comparação com a que se revela em Jesus. O Advento é tempo para tomarmos consciência da piedade de Deus, do seu amor misericordioso, manifestado em Jesus. Trata-se de um prodígio tal que jamais o poderíamos esperar ou sequer pensar. O Antigo Testamento fala de uma misericórdia exercida com poder e força. O Novo Testamento fala-nos de uma misericórdia manifestada na mansidão e na humildade de um Deus que se torna semelhante a nós. É a máxima expressão da misericórdia de Deus, que desce até nós para nos elevar à sua intimidade.

Ao ouvirmos o convite de Jesus para irmos a Ele, sentimo-nos exortados a regressar ao grande amor com que Deus nos amou, tornando-nos seus amigos e filhos. Só aproximando-nos do Coração de Jesus podemos compreender a grandeza desse amor, e a graça da filiação divina que o Pai nos concedeu.

Contemplando e escutando Jesus, «manso e humilde de coreção-, somos libertados de uma religião feita só de méritos, de obras, de deveres, porque em Jesus se revela o rosto amável de Deus, capaz de saciar os nossos mais profundos anseios. A fé torna-se então experiência de sermos revestidos com a força do alto, de caminharmos sem descanso, porque apoiados sobre asas de águia, rumo a um amor que é anterior a nós, que nos precede, e nos ensina a desejar a sua promessa.

A nossa resposta a esse amor misericordioso de Deus concretiza-se na oblação do nosso humilde dia a dia, aceitando com serenidade as cruzes e canseiras; irradiando com espontaneidade simples os frutos do Espírito. E assim realizamos concretamente o convite de Jesus: Quem quiser ser Meu discípulo" tome a sua cruz, dia a dia, e siga-Me' (Lc 9, 23). Assim O seguimos na mansidão e na humildade do coração: "Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coraçãd' (Mt 11, 29). Encontraremos a força e a coragem para irradiar alegria, paz, bondade, para alívio, não só nosso, mas também dos nossos irmãos. Assim, podemos viver hoje no nosso Instituto, ou na forma de vida cristã que corresponde à nossa vocação, a herança espiritual recebida do Padre Dehon.


Oratio

Senhor Jesus, obrigado pelo teu convite: «Vinde a rrumt». Quero corresponder-lhe. Quero ir ao teu encontro para estar contigo, fruir da tua presença e da tua amizade, aprender de Ti. Ensina-me a conhecer o Pai, a tomar consciência da minha condição de filho, a reconhecer os outros como irmãos. Ensina-me a ser manso e humilde de coração, a fazer da cordialidade a minha atitude permanente na relação com todos aqueles com quem vivo, na relação com aqueles a quem sou enviado, com aqueles que me procuram ou procuram os meus serviços.
Ensina-me a ir ao teu encontro, a abrir-te o meu coração e a narrar-te as minhas preocupações e culpas. Que, em Ti, possa encontrar repouso e paz. Que, em Ti, encontre coragem e força para levar, dia após dia, o teu jugo suave e a tua carga leve. Amen.


Contemplatio

o Mestre é bom, é doce e fácil. «Vinde a mim, diz, vós todos que sofreis sob o jugo do demónio e da natureza, o meu jugo é leve e o meu serviço é fácil. E para este serviço, doce em si mesmo, e que poria as vossas almas na paz, prometo recompensas infinitas ... » (Mt 11).
Mas, ó bom Mestre, até ao presente, não passei de um servo infiel. Preferi o jugo odioso das criaturas e das paixões à vossa mestria tão doce e amável. Disse o Non serviam que reprováveis a Israel. Tínheis-me tirado do Egipto pelo baptismo, pela conversão, pela vocação. Deixei-vos e servi Baal. Podeis chamar como testemunhas contra mim o céu e a terra. Acusar-rne-ão e clamarão por vingança. Abandonei as fontes da vida e procurei cisternas vazias ou águas turvas. Já não ouso regressar para vós (Jeremias, 2).

E no entanto, procurais-me e chamais-me. Vindes para me ganhardes pelo vosso amor e me reconduzirdes ao vosso serviço que é mais doce que as realezas da terra. Vindes com os laços de Adão, os laços humanos que são os laços do coração: in funiculis Adam traham eos. Dais-me o vosso Coração: Conversum est in me Cor meum. Esqueceis a vossa severidade. Tendes um Coração divino, e o Coração de Deus não é como o dos homens: Quoniam Deus ego et non homo (Oseias, 11).

Ó! Sim, bom Mestre, na Eucaristia encontro o Coração de um Deus e dirijo-me com confiança à sua infinita bondade. (Leão Dehon, OSP 3, p. 655s.).


Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coreção. (Mt 11, 29)


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