sábado, 20 de setembro de 2014

XXV Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares - 24.09.2014


Tempo Comum - Anos Pares
XXV Semana - Quarta-feira

Lectio

Primeira leitura Provérbios 30, 5-9

5Toda a palavra de Deus é provada ao fogo, é um escudo para aqueles que confiam ele. 6Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso. 7Peço-te duas coisas, não mas negues antes da minha morte: 8Afasta de mim a falsidade e a mentira, não me dês pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário, 9para que, saciado, não te renegue, e não diga: «Quem é o Senhor?» Ou, empobrecido, não roube e não profane o nome do meu Deus.

A nossa leitura começa com uma reflexão sobre a palavra de Deus. Depois, vem uma prece sapiencial que tem por tema a pobreza e a riqueza. O Livro dos Provérbios reflecte atentamente sobre a pobreza e sobre a riqueza. O ideal da sabedoria não é a pobreza, mas o bem-estar, que é uma bênção de Deus. Procurá-lo é um dever. O Livro dos Provérbios condena duramente a preguiça e a falta de empenho. Mas, se o bem-estar é uma bênção, não quer dizer que o pobre seja um maldito ou castigado. São muitas, no Livro dos Provérbios as recomendações em favor dos pobres. Ajudá-los é um dever. É preciso também lembrar que a felicidade não se encontra só na riqueza, mas na riqueza acompanhada pelo temor de Deus, pela justiça e pela concórdia: «Na casa do justo há riqueza abundante; mas o rendimento dos maus é fonte de perturbação» (15, 6). Finalmente, o Livro dos Provérbios admite que a excessiva riqueza pode trazer grandes perigos morais, tais como a auto-suficiência, que julga não precisar de Deus nem dos outros. A riqueza material facilmente se torna riqueza de espírito. Por isso, o sábio pede a Deus que, nem lhe dê a miséria que leva à rebelião nem lhe dê excessiva riqueza que leva a esquecê-l´O.


Evangelho: Lucas 9, 1-6

Naquele tempo, Jesus, 1tendo convocado os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curarem doenças. 2Depois, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os doentes, 3e disse-lhes: «Nada leveis para o caminho: nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas. 4Em qualquer casa em que entrardes, ficai lá até ao vosso regresso. 5Quanto aos que vos não receberem, saí dessa cidade e sacudi o pó dos vossos pés, para servir de testemunho contra eles.» 6Eles puseram-se a caminho e foram de aldeia em aldeia, anunciando a Boa-Nova e realizando curas por toda a parte.

Jesus pregou a conversão, expulsou demónios e curou os doentes. Essa é também a tarefa do discípulo missionário (v. 1s.).
Antes de mais nada, Jesus ordena ao missionário que leve consigo apenas o estritamente necessário, e nada mais (v. 3). É um convite à pobreza entendida como liberdade (deixar para seguir) e fé (o próprio Senhor tomará conta dos seus discípulos). Depois, vem uma norma de bom senso: o discípulo itinerante não ande de casa em casa, mas escolha uma casa digna e hospitaleira, ficando nela o tempo necessário (v. 4). Finalmente, uma sugestão sobre o comportamento em caso de recusa. A recusa está, de facto, prevista: é confiado ao discípulo uma missão; mas não lhe é garantido o sucesso. Diante da recusa, deve comportar-se como Jesus: quando é recusado num lugar, vai para outro (v. 5). «Sacudir o pó» é um gesto de juízo, não de maldição: serve para sublinhar a gravidade da recusa, da ocasião perdida.


Meditatio

O Livro dos Provérbios ensina-nos, hoje, a pedir a Deus o dom da verdade, da sinceridade: «afasta de mim a falsidade e a mentira» (v. 8). Ensina-nos também a pedir o dom da moderação, que não exige privilégios espectaculares, nem presume dispensar os dons de Deus: «não me dês pobreza nem riqueza» (v. 8). O sábio está consciente da sua fragilidade e dos perigos da riqueza, mas também dos perigos da pobreza. Por isso, pede o pão da cada dia, para que não chegue a renegar a Deus nem se torne ladrão. Uma bela oração, cheia de equilíbrio, de bom senso. Tudo o que pedirmos a Deus há-de ter por objectivo aumentar a nossa união com Ele!
Felizes os Doze que tinham «poder e autori¬dade sobre todos os demónios e para cura¬rem doenças». E nós, por que razão temos tão pouco poder e autoridade? Talvez porque levamos connosco demasiadas coisas? Não estará o poder do Senhor amarrado por tantas coisas de que nos rodeamos e nas quais confiamos mais do que n´Ele? Ate onde deve ir a nossa confiança em Deus? Onde começa o nosso empenho pessoal? São questões que nos deixam pensativos e que parecem sem resposta, a não ser que surja uma lufada do Espírito Santo. Uma coisa é certa: fazer apostolado não é fácil, uma vez que estamos expostos a tantos ventos e marés, a tantas modas e tentações. Se nos sentimos fracos, somos tentados a lançar mão de apoios humanos ou a refugiar-nos em falsas seguranças. Se a acção apostólica é “poderosa”, facilmente caímos na auto-complacência, como se tudo fosse mérito nosso. É fácil deprimir-se nos fracassos e exaltar-se nos sucessos. A nossa fraqueza está, talvez, no individualismo: só o que eu faço é bem feito, só o que eu penso está certo. Uma comunidade, com que nos confrontemos, pode ajudar-nos a crescer e a avaliar a qualidade evangélica das nossas acções, não de modo abstracto, mas na realidade do dia a dia.
Jesus realiza a missão na pobreza. Aliás, a sua pobreza é em vista da missão. Ele vive em efectivo despojamento voluntário: «que não tem onde reclinar a cabeça» (Lc 9, 58) e é no absoluto despojamento da cruz que é professado como Filho de Deus (cf. Mc 15, 39).
Longe de depender do ter, o poder do homem, é, antes mais, dom do Pai a quem é suficientemente pobre para o receber: «Eu Te bendigo, ó Pai, porque revelaste estas coisas aos pobres...» (Mt 11, 25ss).
Quanto à importância da comunidade, na missão, as nossas Constituições lembram-nos que, na escolha dos compromissos apostólicos concretos, devem ser salvaguardadas duas exigências: a comunhão com a própria comunidade: «cada um, na sua função, tenha consciência de ser o enviado da sua comunidade e que todos se considerem interessados e comprometidos na actividade e na missão de cada um, sobretudo quando uma comunidade deve assumir diversos serviços» (n. 62); a comunhão com os responsáveis da Igreja local: realizamos assim «o nosso serviço do Evangelho na Igreja universal, em comunhão com os responsáveis das Igrejas locais» (n. 34).
São princípios muito genéricos, mas que é importante ter presentes para nos inserirmos com o «nosso carisma profético» na «missão salvífica do Povo de Deus no mundo de hoje» (Cst. 27), para a realização da «nossa oblação reparadora» (Cst. 6). É também assim que acolhemos o Espírito (cf. Cst. 23), que é uno e é princípio de unidade, para a «edificação do Corpo de Cristo», «para Glória e Alegria de Deus» (Cst. 25).


Oratio

Senhor, olha como nós, teus discípulos nos sentimos desarmados diante do mundo. Sentimo-nos desorientados, não sabemos por onde começar, nem sempre somos tomados a sério, especialmente quando dizemos as tuas palavras. Os nossos grupos de catequese, os nossos grupos de jovens são muito reduzidos. A maior parte dos adolescentes e jovens preferem outras ocupações à catequese, preferem outros conhecimentos ao conhecimento de Ti. Os que vêm, muitas vezes não se apresentam com verdadeiro interesse. Vêm porque são mandados, porque querem receber um sacramento, que dá direito a uma festa de família. Não nos deixes cair na tentação do desânimo. Dá-nos o dom do discernimento, para que saibamos descobrir a tua vontade nas próprias dificuldades que se nos apresentam, e encontrar os meios para tornar cativante a apresentação da tua Palavra. Mais do que de meios técnicos, precisamos de Ti, do teu Espírito. Que a nossa voz, ao anunciarmos a tua ressurreição, tenha o timbre da do Anjo do sepulcro vazio. 
Livra-nos da tentação do sucesso humano. Ilumina-nos! Salva-nos! Faz-nos instrumentos eficazes da tua salvação. Amen.


Contemplatio

«Ide, diz aos seus discípulos, anunciai o reino de Deus. Não leveis nem ouro nem dinheiro. Confiai-vos à Providência. Se não vos receberem, sacudi o pó das vossas sandálias, e passai adiante... Abençoarei aqueles que vos receberem em meu nome, nem que vos dessem apenas um copo de água... Tende confiança, Deus cuida dos pardais, terá cuidado de vós» (Mt 10).
E ainda: «Não podeis procurar ao mesmo tempo Deus e o dinheiro. Não estejais inquietos com o que haveis de comer, nem com o vestuário que levareis. Deus alimenta os pássaros e dá às flores o seu vestido. Deixai os pagãos viver para o dinheiro. O vosso Pai celeste sabe o que vos faz falta. Procurai antes de mais o reino de Deus e a sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo» (Mt 6, 24 ss).Jesus põe em prática o que aconselha. Vai pelas cidades e pelas aldeias a pregar o reino de Deus. Os seus doze apóstolos estão com Ele. Levam pouca coisa consigo: algumas provisões para comerem nos lugares desertos, e uma pequena bolsa mais para fazer esmola do que para comprar víveres. Pessoas generosas oferecem-lhes o necessário. Há também algumas benfeitoras.
Algumas mulheres que tinha curado, diz S. Marcos, Maria Madalena, Joana, mulher de Cusa procurador de Herodes, Susana e várias outras seguiam o Mestre e os seus apóstolos para os escutarem, e ajudavam-nos com os seus bens (cf. Mc 8). (Leão Dehon, OSP 2, pp. 573s.).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Nada leveis nada para o caminho» (Lc 8, 21).


Fonte | Fernando Fonseca, scj |

XXV Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares - 23.09.2014


Tempo Comum - Anos Pares
XXV Semana - Terça-feira

Lectio

Primeira leitura Provérbios 21, 1-6.10-13

1O coração do rei é como água corrente nas mãos do Senhor,Ele o dirigirá para onde quiser. 2Os caminhos do homem parecem-lhe sempre rectos, mas é o Senhor quem pesa os corações. 3A prática da justiça e da equidade é mais agradável ao Senhor que os sacrifícios. 4Olhares altivos, coração soberbo: a lâmpada dos ímpios é o pecado. 5Os projectos do homem diligente têm êxito, mas quem se precipita cai certamente na ruína. 6Os tesouros adquiridos pela mentira são vaidade passageira e laço de morte. 10A alma do ímpio deseja o mal; não terá compaixão do seu próximo. 11Com o castigo do insolente, o ingénuo ficará mais sábio; quando se adverte o sábio, ele adquire mais saber. 12O justo está atento à família do ímpio, e precipita os maus na desventura. 13Aquele que se faz surdo ao clamor do pobre, também um dia clamará e não será ouvido.

O Livro dos Provérbios é uma ampla recolha de máximas e de sentenças, independentes entre si, sem qualquer espécie de fio condutor ideológico, onde está depositada a sabedoria das várias gerações de Israel. O seu objectivo é fazer de todo o israelita um verdadeiro homem: forte, senhor de si mesmo, interiormente livre, trabalhador, hábil, leal. Não é ainda o retrato do homem evangélico. Mas é a base para o ser. Não nos tornamos discípulos sem ser homens. Está aqui o valor deste livro. É bom fazer esta verificação porque, à primeira vista, muitos provérbios poderiam deixar-nos desiludidos. Que valer têm hoje? Há muitos, que espelham o simples bom-senso e que continuam actuais. Mas é importante, sobretudo, o seu valor global. Sugerem comportamentos próprios da fase anterior à Aliança e à sua moral. Mas estamos perante um são humanismo que tem por objectivo criar um homem apto para as opções morais e para os compromissos da Aliança.
As virtudes sugeridas no texto de hoje são as habituais: não presumir de si mesmo, nem da própria rectidão; praticar a justiça, a humildade e a diligência; não ser mentiroso nem violento nos negócios, não fechar os ouvidos ao grito dos pobres. Na Bíblia, o grito do pobre é sempre dirigido ao Senhor. Escutá-lo é, pois, responder em nome do Senhor.


Evangelho: Lucas 8, 19-21

Naquele tempo, 19sua mãe e seus irmãos vieram ter com Ele, mas não podiam aproximar-se por causa da multidão. 20Anunciaram-lhe: «Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te.» 21Mas Ele respondeu-lhes: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.»

Lucas apresenta-nos um quadro de rara finura e profundidade. Não denota polémica em relação à família de Jesus, como acontece nos textos paralelos de Mateus e de Marcos. A atenção de Lucas vai para aquilo que, de facto, interessa: a escuta e a prática da Palavra, que criam e definem o verdadeiro sentido de família de Jesus.
Um dia, «Sua mãe e seus irmãos vieram ter com Ele» (v. 19). Lucas usa um verbo que exprime o desejo de ver Jesus. A forma singular realça a figura da Mãe, que é o sujeito. Para o evangelista, a vinda dos familiares é uma ocasião que permite a Jesus pronunciar a sentença sobre os seus verdadeiros parentes: a escuta e a prática da Palavra cria laços mais fortes do que os do sangue. Esta possibilidade, todavia, não exclui os parentes que vieram visitá-l´O. Lucas exalta a família gerada pela Palavra. Mas não menospreza os laços com a família de sangue.


Meditatio

As palavras de Jesus dirigidas àqueles que Lhe anunciam a chegada da sua mãe e dos seus familiares, parecem duras. Mas explicam-se com a sua missão de semeador da Palavra de Deus. Naquele momento, mais do que atender àqueles que Lhe são familiares pelos laços do sangue, o Mestre queria sublinhar os laços que realizam a sua nova «família»: a escuta da Palavra, e o pô-la em prática. São essas atitudes que produz o milagre de nos tornar mãe, irmãos e irmãs de Jesus. Tal como Maria escutou a Palavra e, depois, de tornou Mãe, o mesmo pode acontecer comigo hoje, se acolher a Palavra que me é dirigida. Jesus quer crescer no mundo e o caminho privilegiado sou eu, porque quer crescer em mim, quer que a minha existência seja cada vez mais cristiforme, quer que eu O represente cada vez melhor. Se acolho a sua Palavra, se a contemplo, se a conservo, se lhe deixo espaço, se procuro não esquece-la durante o dia, se faço dela a luz dos meus caminhos, Jesus cresce em mim, à minha volta, no mundo. E posso adquirir a dignidade de Maria, porque O gerarei novamente para o nosso tempo. Quero, pois, ser devoto da Virgem, para que me ensine a receber a Palavra, a dar-lhe carne, a dar-lhe vida, a transformar toda a minha acção em nova geração, em novo crescimento de Jesus em mim e à minha volta.
Maria é o modelo de como se escuta e acolhe na vida a Palavra e: «Feliz d´Aquela que acreditou no cumprimento das palavras do Senhor…» (Lc 1, 45). É a primeira bem-aventurança que ecoa no Evangelho e desce sobre Maria, por meio da palavra de Isabel, cheia de Espírito Santo; é a bem-aventurança da fé, que acolhe a Palavra de Deus e adere a ela com toda a vida. É a bem-aventurança que Jesus, um dia, proclamará: «Felizes... aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põe em prática!» (Lc 11, 28); é a «melhor parte» que Maria de Betânia escolheu, sentada aos pés do Senhor, na escuta da sua palavra, e que não lhe será tirada (cf. Lc 10, 38-42).
Não é suficiente escutar a Palavra, é preciso guardá-la e pô-la em prática, como fez a Virgem Maria: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua palavra» (Lc 1, 38). «Sede daqueles que põem em prática a palavra - exorta S. Tiago - e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos» (1, 22). É inútil ver-se ao espelho, ver o próprio rosto e depois esquecer-se dele (cf. Tg 1, 23-24).
“Escutar”, em sentido bíblico, é “compreender”, “acolher” na vida, “ir a Jesus”; é “acreditar”, “guardar no coração”; é “obedecer” e “fazer”. A verdadeira “escuta da Palavra” realiza-se quando se ama, não por palavras, mas “com obras e em verdade” (1 Jo 3, 18).


Oratio

Quero, suplicar-Te, hoje, ó Virgem Santa Maria, que me ajudes a receber a Palavra para lhe dar carne, para lhe dar vida. Sabes como estou longe deste ideal de ver a minha vida como geração de Jesus no mundo. Eu, pobre pecador, mergulhado em tantas coisas, posso aproximar-me de Ti, Mãe do meu Salvador, e tornar-me também “mãe” d´Aquele que me salva! Parece-me um ideal demasiado elevado, inatingível!
Conduz-me docemente por esse mistério, abre os meus olhos para que vejam as maravilhas que a Palavra pode realizar em mim; dá-me um coração capaz de compreender este mundo novo em que são introduzidos os ouvintes da Palavra. Fica junto a mim, ó Mãe, para que possa continuar, sem medo nem tremor, mas com espanto e gratidão, a tua obra, no começo do novo milénio. Amen.


Contemplatio

O abandono a Deus e à vontade divina é a regra de vida de Maria e nós vemo-la na perturbação e na dúvida fixar-se nesta disposição: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra». Estas palavras exprimem o abandono, a docilidade à graça, a conformidade à vontade divina, o sacrifício e a imolação. Com esta resposta, com o seu consentimento, Maria aceitava a dignidade e a honra da maternidade divina, mas ao mesmo tempo também os sofrimentos, os sacrifícios que lhe estavam ligados. Declarava-se pronta a cumprir a vontade de Deus em tudo como sua serva. Era como um voto de vítima e de abandono. Esta disposição é a mais perfeita, é a fonte dos maiores méritos e das melhores graças. Maria proclamou-o mesmo no seu Magnificat: A minha alma louva o Senhor, porque olhou com favor a humildade da sua serva. Deus encontrou muita alegria nesta disposição de Maria. Ela acrescentava: Todas as gerações me hão-de proclamar bem-aventurada.
Durante a sua vida mortal, poucas pessoas a proclamaram bem-aventurada, excepto Isabel e aquela mulher que ergueu a voz no meio do povo, e à qual Jesus respondeu: Bem-aventurados são aqueles que escutam a minha palavra e que a praticam.
A felicidade de Maria durante a sua vida mortal era o sacrifício com Jesus, por Jesus e pelas almas. Ela não era, como o seu Filho, senão um objecto de desprezo, de humilhação e de ignomínia da parte dos inimigos de Deus. Para aqueles que estavam bem dispostos, era um objecto de compaixão e de piedade. O ecce Ancilla era a disposição do seu coração em todos os sacrifícios que teve de fazer: quando da Apresentação no Templo, quando ofereceu o seu Filho em sacrifício e escutou a profecia do velho Simeão; na fuga para o Egipto e assim por diante, em todas as ocasiões, até debaixo da cruz do seu Filho moribundo. Do mesmo modo para o resto da sua vida, consentiu em ser a mãe da Igreja nova fundada no sangue do seu Filho.
A sua graça e os seus méritos aumentavam sempre pela sua fiel cooperação, pela sua pureza, pelo santo e perfeito amor com o qual cumpria a missão que se tornara a sua. (Leão Dehon, OSP 3, p. 328 s.).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8, 21).


Fonte | Fernando Fonseca, scj |

XXV Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares - 22.09.2014


Tempo Comum - Anos Pares
XXV Semana - Segunda-feira

Lectio

Primeira leitura: Provérbios 3, 27-35

Meu filho: 27Não negues um benefício a quem dele precisa, se estiver nas tuas mãos oder concedê-lo. 28Não digas ao teu próximo: «Vai, e volta depois, amanhã te darei», quando o puderes logo atender. 29Não maquines o mal contra teu próximo, quando ele deposita confiança em ti. 30Não litigues contra ninguém, sem motivo, quando não te fez mal algum. 31Não invejes o homem violento, nem adoptes o seu procedimento, 32porque o Senhor abomina o homem perverso, mas reserva para os rectos a sua intimidade. 33A maldição do Senhor cai sobre a casa do ímpio, mas Ele abençoa a morada dos justos. 34Ele escarnece dos escarnecedores, mas concede a sua graça aos humildes. 35A glória será a herança dos sábios, mas os insensatos suportarão a ignomínia.

O Livro dos Provérbios, cobre vários séculos de história, durante os quais os sábios se dedicaram à reflexão sapiencial. Por isso, se nota um certo progresso doutrinal. Aparentemente trata-se de um livro humilde. Perpassa nele a convicção de que a sabedoria presente no mundo, nas coisas e nos homens, é um traço da sabedoria de Deus. As próprias formas da sabedoria humilde e quotidiana – as do bom senso, da razão, da experiência – vêm de Deus. Segui-las é obedecer a Deus; ignorá-las é atraiçoar o projecto de Deus. A esta, luz profundamente religiosa, é que devemos compreender as máximas do Livro dos Provérbios, reconhecendo o valor de imperativo moral, não só às palavras dos profetas, mas também ao significado das coisas e à força da experiência.
O texto de hoje insiste nas relações com o próximo: não negar um benefício, não dizer «amanhã to darei» (v. 28), não adiar, não litigar, não invejar, não seguir o perverso (vv. 29-32). No meio destes imperativos, aparece, repentinamente, uma afirmação muito bonita: «Deus reserva para os rectos a sua intimidade» (v. 32b). Fica assim traçado o esboço do sábio nas suas coordenadas fundamentais: a correcção e a benevolência nas relações com o próximo, a convicção de que a amizade de Deus vale mais do que tudo.


Evangelho: Lucas 8, 16-18

Naquele tempo, Jesus disse à multidão: 16«Ninguém acende uma candeia para a cobrir com um vaso ou para a esconder debaixo da cama; mas coloca-a no candelabro, para que vejam a luz aqueles que entram. 17Porque não há coisa oculta que não venha a manifestar-se, nem escondida que não se saiba e venha à luz. 18Vede, pois, como ouvis, porque àquele que tiver, ser-lhe-á dado; mas àquele que não tiver, ser-lhe-á tirado mesmo o que julga possuir.»

A perícopa que escutamos inclui três pequenas unidades, recolhidas por Lucas, e incluídas numa sessão (8, 4-21) que tem por tema a Palavra de Deus. É nesta perspectiva que as lemos.
A primeira unidade (v. 16) parece temer o risco do anonimato: não se põe a luz debaixo da cama. É uma advertência aos cristãos que – por medo ou porque julgam inútil fazê-lo – não se expõe publicamente. A Palavra é pública e visível: escondê-la é fazê-la morrer. A segunda unidade (v. 17) parece temer o risco do segredo. É uma advertência aos grupos de cristãos que se fecham em si mesmos, anunciando a Palavra em segredo, apenas aos iniciados. Mas a Palavra é para todos, pela sua natureza missionária. A terceira unidade (v. 18) é mais difícil. É certo que chama a atenção para a importância da escuta, ou para o modo como se escuta: «Vede, pois, como ouvis». Há quem não escuta, mas também há quem escuta mal. Que significa a expressão: «porque àquele que tiver, ser-lhe-á dado; mas àquele que não tiver, ser lhe á tirado mesmo o que julga possuir»? E que significa o “porque”? (v. 18) que condiciona o crescimento ou a perda da palavra? Significa talvez que é preciso escutar bem, porque é a escuta que enriquece. Quem não escuta ou escuta mal, empobrece. Não só não cresce, mas também perde o que julga possuir. A escuta da Palavra é, pois, o caminho necessário para crescer na fé. Se falta a escuta, a fé definha e morre.


Meditatio

Com a primeira leitura de hoje, iniciamos o Livro dos Provérbios. Jesus também usa provérbios susceptíveis de várias aplicações. «Não há coisa oculta que não venha a manifestar-se, nem escondida que não se saiba e venha à luz», lemos no evangelho de hoje. É necessário iluminar. Mas, antes, é preciso acender o candeeiro. O discípulo deve iluminar o mundo. Mas só o pode fazer com a luz que vem de Cristo Senhor, pois não tem luz própria. Se assim não for, corre-se o risco de confundir as ideias próprias, os gostos próprios, as opções próprias com as de Cristo e de propor coisas e realidades que nada têm a ver com o Senhor. É preciso acender, cada dia, a própria lâmpada, na lâmpada de Cristo. É o lumen Christi (luz de Cristo) que ilumina o mundo, não a minha luz. A minha luz só ilumina se for reflexo da de Cristo.
Notemos também que a luz de que fala Cristo não é só doutrina, mas também testemunho, isto é, doutrina que se torna vida, que transforma a vida: que toca o meu modo de ser, de julgar as coisas. Eu sou luz quando difundo a luz de Cristo, com os critérios de Cristo, isto é, com humildade e pobreza. Quando, por exemplo, não falo de humildade a partir de uma posição de poder, quando não anuncio a pobreza com meios que revelam abundância de bens… Sou luz sobre o candelabro quando represento, o mais aproximadamente possível, o modo de ser, de agir, de pensar, de falar de Jesus. É bom pensarmos nisto, porque podemos cair em grandes ilusões. Pensar que iluminamos só porque repetimos palavras de Jesus, sem deixar iluminar a nossa vida pela de Jesus, é como cobrir a lâmpada com um alqueire. É doutrinar, não evangelizar.
Os Santos são aqueles que melhor reflectem a luz de Cristo. As nossas Constituições recordam-nos a vocação à santidade. Recordam-na numa perspectiva ampla e eclesial: «Com todos os nossos irmãos cristãos...» (Cst 13). A vocação à santidade é universal (Cf. 1 Tes 4, 7; 1 Pe 2, 21; LG 40). Mas nós, religiosos, devemos ser as testemunhas, os “especialistas” da santidade junto dos nossos irmãos cristãos. Mergulhados nas preocupações da vida de cada dia, do trabalho, das necessidades diárias, facilmente esquecem a sua vocação à santidade. Por “vocação”, por “um dom particular” (n. 13), nós religiosos devemos brilhar diante deles com a santidade da nossa vida: «Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus» (Mt 5, 16), para que se lembrem da sua meta suprema: a transformação em Cristo da sua vida.


Oratio

Senhor, olha como estou mais preocupado em transmitir doutrina, do que em testemunhá-la com a minha vida. Olha como esqueço o teu modo de ser, que tanto impacto deu às tuas palavras, pensando que evangelizar, que guiar os meus irmãos e irmãs, é questão de conhecimentos e de transmissão de ideias.
Mas és tu que deves viver em mim, para que eu possa dizer as tuas palavras e guiar os outros. Se Tu, meu amigo e Senhor, não viveres em mim, as tuas palavras sairão sem efeito dos meus “lábios impuros”, porque o meu coração não será semelhante ao teu, e os meus critérios, não serão os teus. Que eu Te encontre, antes de procurar as tuas palavras; que eu me torne semelhante a Ti, antes de Te usar para dizer aquilo que devo dizer.
É por isso que preciso de Te sentir junto a mim, mais íntimo, mais amigo, mais familiar, mais presente na minha vida. Não me abandones, não me deixes nas minhas ilusões, não me deixes perder nos atalhos, na tentação de Te reduzir a uma ideia ou a simples mensagem. Amen.


Contemplatio

Instruir e exortar não era suficiente; era preciso ainda ganhar os corações e prender os homens a Deus por um laço de amor. Aqui estava a obra própria do Coração sacerdotal de Jesus. É verdade que Jesus tinha a seu favor o encanto da sua pessoa e da sua beleza divina. Ele semeava os milagres e distribuía os benefícios. Mas também expunha muitas vezes toda a bondade de Deus no mistério da redenção e é isto que nós podemos imitar. Todo o ensinamento de Jesus se resume na palavra Evangelho que significa «a boa nova»; prega o evangelho do reino, isto é, a feliz notícia da salvação pela redenção, de todos os benefícios da misericórdia divina. S. João reteve melhor que os outros estes apelos do Coração sacerdotal de Jesus. Repete-os várias vezes. «Deus amou de tal modo o mundo, que enviou o seu Filho único para o salvar» (Jo 3, 16). «Como o meu Pai me amou, eu vos amo; permanecei no nosso amor» (Jo 15, 9). Como Nosso Senhor mesmo o disse, era o seu Coração que falava pela sua boca: Ex abundantia cordis os loquitur (Mt 12, 34); e o seu Coração ganhava todos os corações. Cabe a nós mostrar também como a bondade divina resplandece nos mistérios da Incarnação e da Redenção. É isto pregar o Sagrado Coração. Esta era a força de S. Paulo. Quantas vezes repete: «Cristo amou-me até ao ponto de se entregar por mim!» Preguemos o Sagrado Coração e ganharemos as almas para Jesus Cristo. (Leão Dehon, OSP 2, p. 554).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Vede como ouvis» (Lc 8, 18).


Fonte | Fernando Fonseca, scj |

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

25º Domingo do Tempo Comum - Ano A - 21.09.2014


ANO A
25º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 25º Domingo do Tempo Comum

A liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir um Deus cujos caminhos e cujos pensamentos estão acima dos caminhos e dos pensamentos dos homens, quanto o céu está acima da terra. Sugere-nos, em consequência, a renúncia aos esquemas do mundo e a conversão aos esquemas de Deus.
A primeira leitura pede aos crentes que voltem para Deus. “Voltar para Deus” é um movimento que exige uma transformação radical do homem, de forma a que os seus pensamentos e acções reflictam a lógica, as perspectivas e os valores de Deus.
O Evangelho diz-nos que Deus chama à salvação todos os homens, sem considerar a antiguidade na fé, os créditos, as qualidades ou os comportamentos anteriormente assumidos. A Deus interessa apenas a forma como se acolhe o seu convite. Pede-nos uma transformação da nossa mentalidade, de forma a que a nossa relação com Deus não seja marcada pelo interesse, mas pelo amor e pela gratuidade.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de um cristão (Paulo) que abraçou, de forma exemplar, a lógica de Deus. Renunciou aos interesses pessoais e aos esquemas de egoísmo e de comodismo, e colocou no centro da sua existência Cristo, os seus valores, o seu projecto.


LEITURA I – Is 55,6-9

Leitura do Livro de Isaías

Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar,
invocai-O, enquanto está perto.
Deixe o ímpio o seu caminho
e o homem perverso os seus pensamentos.
Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele,
ao nosso Deus, que é generoso em perdoar.
Porque os meus pensamentos não são os vossos,
nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –.
Tanto quanto o céu está acima da terra,
assim os meus caminhos estão acima dos vossos
e acima dos vossos estão os meus pensamentos.

AMBIENTE

O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética entre os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e decepcionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, “Livro da Consolação”.
Estes quatro versículos que a primeira leitura de hoje nos propõe aparecem no final do “Livro da Consolação”. Aproxima-se a libertação e, para muitos exilados, está perto o momento do regresso à Terra Prometida. Depois de exortar os exilados a cumprir um novo êxodo e de lhes garantir que, em Judá, vão sentar-se à mesa do banquete que Jahwéh quer oferecer ao seu Povo (cf. Is 55,1-3), o profeta lança-lhes agora um outro repto…
O tempo do Exílio foi um tempo de angústia e de sofrimento, mas também um tempo de amadurecimento e de graça. Aí, Israel tomou consciência das suas falhas e infidelidades, e descobriu que o viver longe de Deus não conduz à vida e à felicidade; por outro lado, o tempo de Exílio ajudou Israel a purificar a sua noção de Deus, da Aliança, do culto e até do significado de ser Povo de Deus.
O Deutero-Isaías – neste momento em que se abrem novos horizontes – convida os seus concidadãos a percorrerem esse caminho de conversão e de redescoberta de Deus que a experiência do Exílio lhes revelou. O Povo está prestes a pôr-se a caminho em direcção à Terra Prometida; esse “caminho” não é uma simples deslocação geográfica mas é, sobretudo, um “caminho” espiritual de reencontro com o Senhor. Deixar a terra da escravidão e voltar à terra da liberdade deve significar, para Israel, uma redescoberta dos esquemas de Deus e um esforço sério para viver na fidelidade dinâmica aos mandamentos de Jahwéh.

MENSAGEM

O apelo do profeta é, portanto, a um recomeço. Nesses novos caminhos que as vicissitudes da história vão abrir aos exilados, é preciso que este Israel renovado pela experiência do Exílio continue a procurar o Senhor, a invocá-l’O, a cultivar laços de comunhão e de proximidade com Ele.
Fundamentalmente, Israel é convidado a converter-se ou, literalmente, a “voltar (em hebraico: 'shûb') para Deus”. Essa “conversão” exige uma transformação radical do homem, quer em termos de mentalidade, quer em termos de comportamento (“deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos” – vers. 7).
A mentalidade, os valores, as atitudes dos “ímpio” e do “homem perverso”, estão muito longe da mentalidade, dos valores e dos esquemas de Deus. A vida do “ímpio” e do “homem perverso” funciona numa lógica de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de violência, de exploração; os esquemas do “ímpio” geram sofrimento, infelicidade, morte… Deus funciona numa lógica de amor, de serviço, de partilha, de doação; os esquemas de Deus geram alegria, paz verdadeira, vida definitiva.
Ao Povo de Deus, pede-se que prescinda da lógica do “ímpio” e do “homem perverso”, para abraçar a lógica de Deus; pede-se-lhe que não viva de olhos postos no chão, mas que olhe para o céu e contemple os horizontes de Deus; pede-se-lhe que seja capaz de confiar em Deus e de compreender o acerto dos seus caminhos. Só dessa forma o Povo poderá ser feliz nessa Terra a que vai regressar; só dessa forma Israel poderá continuar a ser fiel à sua missão de testemunhar Jahwéh no meio dos outros povos.
A conversão implica também (este aspecto está mais sugerido do que afirmado) uma mudança na forma de ver Deus. O homem tem sempre tendência a construir um deus à sua imagem, um deus previsível e domesticado que funcione de acordo com a lógica e a mentalidade do homem. No entanto, Deus não pode ser reduzido aos nossos esquemas humanos: os seus pensamentos não são os pensamentos do homem, as suas reacções não são as reacções do homem, os seus caminhos não são os caminhos do homem. “Converter-se” é, a este nível, aprender que Deus não é redutível às nossas lógicas e esquemas humanos; e é aprender que Deus tem os seus próprios caminhos, diferentes dos nossos… “Converter-se” é, a este nível, prescindir das nossas certezas, preconceitos e auto-suficiências, confiar em Deus e na bondade dos caminhos através dos quais ele conduz a história da salvação.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar as seguintes questões:

• Antes de mais, o nosso texto apela à conversão. O “voltar para Deus” (como diz o Deutero-Isaías) significa, neste contexto, re-equacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem. É inflectir o sentido da existência, de forma a que Deus (e não o dinheiro, o poder, o sucesso, os amigos, a família) ocupe sempre, na vida do homem, o primeiro lugar. A cultura pós-moderna prescindiu de Deus… Considerou que o homem é o único senhor do seu destino e que cada pessoa tem o direito de construir a sua felicidade à margem de Deus e dos seus valores; considerou que os valores de Deus não permitem ao homem potencializar as suas capacidades e ser verdadeiramente livre e feliz… Na verdade, o que é que nos faz passar da terra da escravidão para a terra da liberdade: o amor, a partilha, o serviço, o dom da vida, ou o egoísmo, o orgulho, a arrogância, a auto-suficiência?

• No entanto, o homem só poderá converter-se a Deus e abraçar os seus esquemas e valores, se se mantiver em comunhão com Ele. É na escuta e na reflexão da Palavra de Deus, na oração frequente, na atitude de disponibilidade para acolher a vida de Deus, na entrega confiada nas mãos de Deus, que o crente descobrirá os valores de Deus e os assumirá. Aos poucos, a acção de Deus irá transformando a mentalidade desse crente, de forma a que ele viva e testemunhe Deus e as suas propostas para os homens.

• A conversão é um processo nunca acabado. Todos os dias o crente terá de optar entre os valores de Deus e os valores do mundo, entre conduzir a sua vida de acordo com a lógica de Deus ou de acordo com a lógica dos homens. Por isso, o verdadeiro crente nunca cruza os braços, instalado em certezas definitivas ou em conquistas absolutas, mas esforça-se por viver cada instante em fidelidade dinâmica a Deus e às suas propostas.

• Finalmente, o nosso texto sugere uma reflexão sobre a imagem que temos de Deus. Não podemos construir e testemunhar diante dos outros homens um Deus à nossa imagem, que funcione de acordo com os nossos esquemas mentais e que assuma comportamentos parecidos com os nossos. Temos de descobrir, no diálogo pessoal com Ele, esse Deus que nos transcende infinitamente. Sem preconceitos, sem certezas absolutas, temos de mergulhar no infinito de Deus, e deixarmo-nos surpreender pela sua lógica, pela sua bondade, pelo seu amor.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)

Refrão: O Senhor está perto de quantos O invocam.

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

O Senhor e justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.


LEITURA II – Filip 1,20c-24.27a

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Irmãos:
Cristo será glorificado no meu corpo,
quer eu viva quer eu morra.
Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro.
Mas, se viver neste corpo mortal é útil para o meu trabalho,
não sei o que escolher.
Sinto-me constrangido por este dilema:
desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor;
mas é mais necessário para vós
que eu permaneça neste corpo mortal.
Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.

AMBIENTE

Filipos, cidade situada ao norte da Grécia, foi a primeira cidade europeia evangelizada por Paulo. Era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia directamente do imperador. Gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália.
A comunidade cristã, fundada por Paulo, Silas e Timóteo no Verão do ano 49, era uma comunidade entusiasta, generosa e comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da colecta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5). Paulo nutria pelos “filhos” de Filipos um afecto especial.
No momento em que escreve aos Filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?). Dos Filipenses recebeu dinheiro e o envio de Epafrodito (um membro da comunidade), encarregado de ajudar Paulo em tudo o que fosse necessário. Enviando Epafrodito de volta a Filipos, Paulo confia-lhe uma carta para a comunidade. É uma carta afectuosa, onde Paulo agradece aos Filipenses a sua preocupação, a sua solicitude e o seu amor. Nela, Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os Filipenses à fidelidade ao Evangelho.
O texto que nos é hoje proposto faz parte de uma perícopa (cf. Flp 1,12-26), na qual Paulo fala aos Filipenses de si próprio, da sua situação, das suas preocupações e esperanças. Paulo está consciente de que corre riscos de vida; mas está sereno, alegre e confiante porque a única coisa que lhe interessa é Cristo e o seu Evangelho.

MENSAGEM

Quando escreve a carta aos Filipenses, Paulo continua preso. Não sabe se sairá da prisão vivo ou morto mas, para ele, isso não é importante; o que é importante é que Cristo seja engrandecido – seja através da vida, seja através da morte do apóstolo.
Para Paulo, Cristo é que é a autêntica vida. Ele é a razão de ser e de viver do apóstolo. Na perspectiva de Paulo, a morte seria bem vinda, não como libertação das dificuldades e das dores que se experimentam na vida terrena, mas como caminho directo para o encontro definitivo, imediato, sem intermediários, com Cristo. Paulo não se importaria nada de morrer a curto prazo, porque isso significaria a comunhão total com Cristo. Especialmente significativa, a este propósito, é a conhecida frase (que, aliás, está escrita no seu túmulo, em Roma): “para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”.
No entanto, Paulo está consciente de que Deus pode ter outros planos e querer que ele continue – para benefício das comunidades cristãs – algum tempo mais na terra, a dar testemunho do Evangelho de Cristo. Paulo aceita isso: por Cristo, está disposto a tudo. Na verdade, não são os interesses de Paulo que contam, mas os interesses de Cristo.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode ter em conta as seguintes questões:

• Um dos elementos que mais impressionam e questionam neste testemunho é a centralidade de Cristo na vida de Paulo. Diante de Cristo, todos os interesses pessoais e materiais do apóstolo passam a um plano absolutamente secundário. O apóstolo vive de Cristo e para Cristo; nada mais lhe interessa. Paulo aparece, neste aspecto, como o perfeito modelo do cristão: para os baptizados, Cristo deveria ser o centro de todas as referências e interesses, a “pedra angular” à volta da qual se constrói a existência cristã. Que significa Cristo para mim? Ele é a referência fundamental à volta da qual tudo se articula, ou é apenas mais um entre muitos interesses a partir dos quais eu vou construindo a minha vida? Quando tenho de optar, para que lado cai a minha escolha: para o lado de Cristo, ou para o lado dos meus interesses pessoais?

• A mesma questão – a questão da centralidade de Cristo – pode colocar-se a propósito do testemunho que a Igreja oferece aos homens e ao mundo… É mais importante falar de Cristo e do seu Evangelho do que dos artigos do Código de Direito Canónico; é mais importante testemunhar Cristo e os seus valores do que discutir a estrutura hierárquica da Igreja; é mais importante anunciar Cristo e a sua proposta de Reino do que debater questões de organização e de disciplina… Cristo está, verdadeiramente, no centro desse anúncio que somos convidados a fazer aos homens do nosso tempo?

• Neste texto, impressiona também a liberdade total de Paulo face à morte. Essa liberdade resulta do facto de a fé que anima o apóstolo lhe permitir encarar a morte, não como o mais terrível e assustador de todos os males, mas como a possibilidade do encontro definitivo e pleno com Cristo. Dessa forma, Paulo pode entregar-se tranquilamente ao exercício do seu ministério, sem deixar que o medo trave o seu empenho e o seu testemunho. Também aqui a atitude de Paulo interpela e questiona os crentes… Para um cristão, a morte é o momento da realização plena, do encontro com a vida definitiva. Não é um drama sem sentido, sem remédio e sem esperança. Para um cristão, não faz sentido que o medo da perseguição ou da morte impeça o compromisso com os valores de Deus e com o compromisso profético diante do mundo.


ALELUIA – cf. Actos 16,14b

Aleluia. Aleluia.

Abri, Senhor, os nossos corações,
para aceitarmos a palavra do vosso Filho.


EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».

AMBIENTE

No texto que nos é proposto, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que eles compreendam a realidade do Reino e, após a partida de Jesus, a testemunhem. Trata-se de mais uma “parábola do Reino”.
O quadro que a parábola nos apresenta reflecte bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada “patrão” tinha os seus “clientes” – isto é, homens em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, esses trabalhadores “de confiança” recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, nomeadamente, que esses “clientes” fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar uma “jorna” completa (um “denário”, que era o pagamento diário habitual de um trabalhador não especializado).

MENSAGEM

A parábola refere-se, portanto, a um dono de uma vinha que, ao romper da manhã, se dirigiu à praça e chamou os seus “clientes” para trabalhar na sua vinha, ajustando com eles o preço habitual: um denário. O volume de tarefas a realizar na vinha fez com que este patrão voltasse a sair a meio da manhã, ao meio-dia, às três da tarde e ao cair da tarde e que trouxesse, de cada vez, novas levas de trabalhadores. O trabalho decorreu sem incidentes, até ao final do dia.
Ao anoitecer, os trabalhadores foram chamados diante do senhor, a fim de receberem a paga do trabalho. Todos – quer os que só tinham trabalhado uma hora, quer os que tinham trabalhado todo o dia – receberam a mesma paga: um denário. Contudo, os trabalhadores da primeira hora (os “clientes” habituais do dono da vinha) manifestaram a sua surpresa e o seu desconcerto por, desta vez, não terem recebido um tratamento “de favor”.
A resposta final do dono da vinha afirma que ninguém tem nada a reclamar se ele decide derramar a sua justiça e a sua misericórdia sobre todos, sem excepção. Ele cumpre as suas obrigações para com aqueles que trabalham com ele desde o início; não poderá ser bondoso e misericordioso para com aqueles que só chegam no fim? Isso em nada deveria afectar os outros…
Muito provavelmente, a parábola serviu primariamente a Jesus para responder às críticas dos adversários, que O acusavam de estar demasiado próximo dos pecadores (os trabalhadores da última hora). Através dela, Jesus mostra que o amor do Pai se derrama sobre todos os seus filhos, sem excepção e por igual. Para Deus, não é decisiva a hora a que se respondeu ao seu apelo; o que é decisivo é que se tenha respondido ao seu convite para trabalhar na vinha do Reino. Para Deus, não há tratamento “especial” por antiguidade; para Deus, todos os seus filhos são iguais e merecem o seu amor.
A parábola serviu a Jesus, também, para denunciar a concepção que os teólogos de Israel tinham de Deus e da salvação. Para os fariseus, sobretudo, Deus era um “patrão” que pagava conforme as acções do homem. Se o homem cumprisse escrupulosamente a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus pagar-lhe-ia convenientemente. Segundo esta perspectiva, Deus não dá nada; é o homem que conquista tudo. O “deus” dos fariseus é uma espécie de comerciante, que todos os dias aponta no seu livro de registos as dívidas e os créditos do homem, que um dia faz as contas finais, vê o saldo e dá a recompensa ou aplica o castigo.
Para Jesus, no entanto, Deus não é um contabilista, sempre de lápis na mão a fazer as contas dos homens para lhes pagar conforme os seus merecimentos; mas é um pai, cheio de bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem excepção, o seu amor.
A parábola foi, depois, proposta por Mateus à sua comunidade (provavelmente a comunidade cristã de Antioquia da Síria) para iluminar a situação concreta que a comunidade estava a viver com a entrada maciça de pagãos na Igreja. Alguns cristãos de origem judaica não conseguiam entender que os pagãos, vindos mais tarde, estivessem em pé de igualdade com aqueles que tinham acolhido a proposta do Reino desde a primeira hora. Mateus deixa, no entanto, claro que o Reino é um dom oferecido por Deus a todos os seus filhos, sem qualquer excepção. Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da primeira hora ou da última hora, todos são filhos amados do mesmo Pai. Na comunidade de Jesus não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento… O dom de Deus destina-se a todos, por igual.
Conclusão: A parábola convida-nos a perceber que o nosso Deus é o Deus que oferece gratuitamente a salvação a todos os seus filhos, independentemente da sua antiguidade, créditos, qualidades, ou comportamentos. Os membros da comunidade do Reino não devem, por isso, fazer o bem em vista de uma determinada recompensa, mas para encontrarem a felicidade, a vida verdadeira e eterna.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar as seguintes linhas:

• Antes de mais, o nosso texto deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem excepção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.

• Todos têm lugar na Igreja de Jesus… Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque “estou aqui há mais tempo do que os outros”, ou porque “tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros”? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

• O nosso texto denuncia ainda essa concepção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido fazem certas expressões da vivência religiosa que são autênticas negociatas com Deus (“se tu me fizeres isto, prometo-te aquilo”; “se tu me deres isto, pago-te com aquilo”)?

• Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.

• Com alguma frequência encontramos cristãos que não entendem porque é que Deus ama e aceita na sua família, em pé de igualdade com os filhos da primeira hora, esses que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e condenam, mais ou menos veladamente, essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspectiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a antiguidade e a qualidade dos “serviços” prestados a Deus. Que sentido faz esta lógica à luz dos ensinamentos de Jesus?


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 24º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. A VINHA.
Neste domingo (e nos dois próximos) temos a imagem da vinha. Embora a comparação só apareça plenamente no 27º domingo (em que a vinha significa o povo de Israel), pode ser interessante, a partir deste domingo: pôr em evidência uma cepa, quer na entrada da igreja, quer dentro da igreja (é o mês da vindima em muitas regiões); solenizar a procissão das oferendas pedindo a um jovem para levar ao altar um belo cacho de uvas…

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Nós Te louvamos, Deus nosso Pai, porque Te deixas encontrar por aqueles que Te procuram e tens piedade daqueles que vêm até Ti. Tu estás próximo de nós, és rico em perdão e misericórdia e os teus pensamentos são tão elevados acima dos nossos.
Nós Te pedimos: que o teu Espírito nos guie, que Ele nos livre dos caminhos do mal, que Ele eleve e inspire os nossos pensamentos.

No final da segunda leitura:
Senhor Jesus Cristo, nós Te bendizemos e com o apóstolo Paulo confessamos: a nossa vida, a nossa alegria e a nossa felicidade, és Tu.
Nós Te pedimos por nós mesmos e por todas as nossas comunidades cristãs: penetra-nos com o teu Espírito, para que levemos uma vida digna do teu Evangelho e que a tua grandeza seja manifestada nas nossas vidas.

No final do Evangelho:
Deus da Aliança antiga e nova, não cessas de chamar os homens a mudar de mentalidade. Hoje, Jesus recorda-nos isso uma vez mais na parábola da última hora.
Abre os nossos olhos, as nossas mãos e os nossos corações, Senhor de infinita ternura. No respeito leal pela justiça dos homens, ensina-nos, pelo teu Espírito, a dar provas de generosidade.

4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II, que nos recorda que fomos “escolhidos para servir” (2ª leitura).

5. PALAVRA PARA O CAMINHO.
“Ide também vós para a minha Vinha!” Pobreza na nossa Igreja. Falta de vocações… Assembleias dominicais “raquíticas”… Cada vez menos crianças na catequese… Críticas… Lamentações… Decepções… “Ide também vós para a minha Vinha!” Compreendemos bem que Jesus não faz selecção e que Se dirige a todos sem excepção. Cabe-nos a nós aceitar ser “contratados”. Há trabalho para todos? Vamos para a sua Vinha?


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)

XXIV Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares - 20.09.2014


Tempo Comum - Anos Pares
XXIV Semana - Sábado

Lectio

Primeira leitura: 1 Coríntios 15, 35-37.42-49

Irmãos: 35Mas dir-se-á: Como ressuscitam os mortos? Com que corpo regressam? 36Insensato! O que semeias não volta à vida, se primeiro não morrer. 37E o que semeias não é o corpo que há-de vir, mas um simples grão, por exemplo, de trigo ou de qualquer outra espécie. 42Assim também acontece com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível, o corpo é ressuscitado incorruptível; 43semeado na desonra, é ressuscitado na glória; semeado na fraqueza, é ressuscitado cheio de força; 44semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno, também há um corpo espiritual. 45Assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente e o último Adão, um espírito que vivifica. 46Mas o primeiro não foi o espiritual, mas o terreno; o espiritual vem depois. 47O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo vem do céu. 48Tal como era o terrestre, assim são também os terrestres; tal como era o celeste, assim são também os celestes. 49E assim como trouxemos a imagem do homem da terra, assim levaremos também a imagem do homem celeste.

Ao concluir o ensinamento sobre a ressurreição de Jesus e sobre a nossa ressurreição, Paulo faz uma pergunta: «como ressuscitam os mortos? Com que corpo regressam?» (v.35). Nota-se a tristeza do Apóstolo, motivada pela mentalidade materialista em que se tinham deixado envolver alguns cristãos de Corinto, e que os levava a dissociar o corpo do espírito. Não tinham em conta a ressurreição de Cristo, nem dela tiravam as devidas consequências. Isto era insuportável para Paulo, para quem o mistério pascal era uma verdade irrenunciável
A ressurreição inaugura uma novidade absoluta na vida de Cristo e dos cristãos: a passagem de um corpo animal a um corpo espiritual estava prevista no desígnio salvífico de Deus. Não podemos, pois, reflectir sobre o corpo espiritual à maneira como, a partir das nossas experiências, pensamos o nosso corpo animal. A relação entre o primeiro homem, Adão e Cristo, último Adão, ilumina-nos: a novidade de Cristo não consiste em ter a vida, mas em dar a vida nova a todos. Será um dom integral, que envolverá todo o homem – corpo, alma e espírito – numa experiência d vida nova e eterna. Depois de termos sido irmãos do primeiro homem, Adão, tendo levado connosco a imagem do homem terreno, também seremos irmãos do último Adão, Cristo, levando connosco a imagem do homem celeste.


Evangelho: Lucas 8, 4-15

Naquele tempo, 4Como estivesse reunida uma grande multidão, e de todas as cidades viessem ter com Ele, disse esta parábola: 5«Saiu o semeador para semear a sua semente. Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, foi pisada e as aves do céu comeram-na. 6Outra caiu sobre a rocha e, depois de ter germinado, secou por falta de humidade. 7Outra caiu no meio de espinhos, e os espinhos, crescendo com ela, sufocaram-na. 8Uma outra caiu em boa terra e, uma vez nascida, deu fruto centuplicado.»Dizendo isto, clamava: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça!» 9Os discípulos perguntaram-lhe o significado desta parábola. 10Disse-lhes: «A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino de Deus; mas aos outros fala-se-lhes em parábolas, a fim de que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.» 11«O significado da parábola é este: a semente é a Palavra de Deus. 12Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem, mas em seguida vem o diabo e tira-lhes a palavra do coração, para não se salvarem, acreditando. 13Os que estão sobre a rocha são os que, ao ouvirem, recebem a palavra com alegria; mas, como não têm raiz, acreditam por algum tempo e afastam-se na hora da provação. 14A que caiu entre espinhos são aqueles que ouviram, mas, indo pelo seu caminho, são sufocados pelos cuidados, pela riqueza, pelos prazeres da vida e não chegam a dar fruto. 15E a que caiu em terra boa são aqueles que, tendo ouvido a palavra, com um coração bom e virtuoso, conservam-na e dão fruto com a sua perseverança.»

Lucas transmite-nos abundantes ensinamentos de Jesus em parábolas. Aqui, apresenta-nos a primeira e, para ele, a mais importante: a parábola do bom semeador. Com maior rigor, diríamos: a “parábola da semente”. De facto, a atenção do narrador parece concentrar-se, não tanto nos gestos do semeador, mas no destino das sementes lançadas. O começo da parábola leva-nos também nessa linha: «A semente é a palavra de Deus» (v. 11).
Porque terá Jesus querido marcar o começo do seu ministério público com esta parábola? Já se teria dado conta da dificuldade dos seus contemporâneos em escutar a sua pregação? Parece que sim… Mas a parábola talvez tenha um alcance mais vasto: nos diferentes destinos da semente lançada, podemos entrever, não só os diferentes modos de reacção dos seus ouvintes à sua Palavra, mas também as diferentes atitudes com que, ao longo da história da salvação, a humanidade reagiu e reage à presença das testemunhas de Deus e à sua pregação. Lida assim, a parábola da semente prolonga a sua mensagem ao longo de todos os séculos, antes e depois de Cristo, e chega até nós.


Meditatio

Neste dia de sábado, para renovarmos o nosso interesse por esta parábola, podemos invocar Maria. Ela foi «terra boa», em que a semente da Palavra produziu precioso fruto. Maria é, na verdade, modelo «daqueles que, tendo escutado a Palavra com um coração bom e perfeito, produzem fruto na perseverança» Um fruto que se multiplica, porque Maria é mãe de todos os discípulos de Cristo, e forma em cada um de nós atitudes de vida cristã, levando-nos a produzir fruto na adesão à vontade de Deus.
Depois de uma referência, sempre útil a Maria, voltamo-nos para a mensagem de Paulo sobre a ressurreição de Cristo. A ressurreição do Senhor envolve todo o homem e o homem todo. Por isso, pode levar-nos a meditar sobre o valor do corpo na vida cristã e na história da salvação. É uma meditação oportuna, pois vivemos numa sociedade que, se, por um lado, exalta o corpo humano até idolatrá-lo, por outro, o instrumentaliza e explora até destruí-lo. Por isso, é bom e oportuno recordar a mensagem bíblica sobre o corpo humano.
O corpo é, em primeiro lugar, um bem da criação: Deus deu-o a nós como sinal da sua bondade paterna, capaz de falar d´Ele, além de ser capaz de falar de nós. Segundo a mente do Criador, nós somos o nosso corpo: somos um corpo animado, ou também um espírito encarnado. Já sob este ponto de vista o corpo humano é um bem precioso e digno do máximo respeito. O corpo humano também está no centro da nossa fé, desde que Deus, para remir a humanidade, quis encarnar, isto é, assumir, de uma mulher (cf. Gal 4, 4), um corpo em tudo semelhante ao nosso. A encarnação de Deus é a mais clara prova de que, também depois do pecado original, e depois de todos os pecados da humanidade, o corpo humano constitui para Ele um instrumento sempre válido para alcançar os mais elevados objectivos da sua providência.
O corpo humano, em força da ressurreição de Cristo, também está no vértice da nossa fé. Enquanto corpo ressuscitado, o corpo de Cristo é primícias de todos os nossos corpos destinados à novidade de vida pela ressurreição final. O corpo humano leva em si os germes da esperança de vida sem fim. É uma realidade sacrossanta por causa das bênçãos recebidas, e por causa do destino que o espera.
Para nós religiosos, o nosso corpo consagrado, dado completamente a Cristo, torna-se o "lugar" de uma sua especial presença. Paulo diz que «a virgem se preocupa com as coisas do Senhor para ser santa (isto é, consagrada, reservada para Cristo) no corpo e no espírito» (1Cor 7, 34). Assim, «o corpo é para o Senhor e o Senhor é para o corpo» (1 Cor 6, 13), isto é, na castidade consagrada, o corpo é sinal e efeito do amor por Cristo e do amor de Cristo.
No corpo do consagrado renova-se, de algum modo, o mistério da Encarnação. O corpo de Cristo era o lugar e a manifestação da Sua divindade. Além disso, Jesus ofereceu o Seu corpo como oblação santa ao Pai: «Não quiseste sacrifícios nem holocaustos, mas deste-Me um corpo... Então Eu disso: Eis-Me aqui, ó Deus... para fazer a Tua vontade» (Hbr 10, 5.7). Em Cristo, o consagrado é, com o seu corpo, uma oblação santa ao Pai; pode realizar permanentemente a exortação de Paulo «a oferecer os vossos corpos, como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o vosso culto espiritual» (Rom 12, 1). Dizem as nossas Constituições «queremos unir-nos a Cristo presente na vida do mundo e, em solidariedade com Ele... oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável (cf. Rom 12,1)... como oferenda e sacrifício de agradável odor» (Ef 5,2).


Oratio

Senhor, a tua palavra cai no meu caminho para me mostrar o rumo a dar à minha vida. Mas os meus pontos de vista não me permitem escutá-la e acolhê-la no íntimo do coração, no centro da minha existência. A tua palavra quer germinar na minha vida, mas os meus medos, muitas vezes, sufocam-na e matam-na. A tua palavra bate à porta do meu coração, mas uma densa rede de negatividade não a deixa respirar.
Senhor, torna fértil este meu terreno, para que a tua palavra possa viver em mim e, por meio de mim, nos outros, no ambiente em que vivo e procuro servir a causa do Reino. Alimenta esta minha existência, para que a tua palavra cresça em mim e à minha volta, para bem do meu próximo e para glória do teu nome. Reforça a minha vontade e a minha perseverança, para que a tua palavra produza frutos abundantes e duradouros neste segmento da minha existência e no horizonte amplo da história presente e futura, tal como os produziu na vida de tantos santos e santas, na vida de Leão Dehon.
Senhor, a tua palavra é luz dos meus passos e fogo que inflama; é água que refresca e sacia, é espada afiada e penetrante, é viático para o meu caminho: obrigado, Senhor!


Contemplatio

O reino dos céus é semelhante a um campo onde o mestre lança uma semente fecunda. Toda a vida terrestre de Jesus foi um tempo de sementeira, como Ele mesmo nos disse na sua parábola. Ele semeava os seus méritos, semeava as suas orações, os seus labores, as suas lágrimas, os seus suores e o seu sangue, semeava todas as graças; e o campo da Igreja tem diante dele todos os séculos da cristandade, até ao fim dos tempos, para ver desabrochar e crescer as searas.
Jesus semeava a graça do martírio todos os dias da sua vida, em todos os seus labores e em todas as suas provações, mas Ele quis colher logo um ramo de flores destes mártires, e este ramo, é o grupo destas crianças que são a alegria do Cordeiro divino no céu atirando-se aos pés do seu altar glorioso. A liturgia, inspirando-se no Apocalipse e no profeta Jeremias, colocou a bela festa dos santos Inocentes logo muito próxima da do Natal.
Estes pequenos mártires são também as primícias das vítimas do Sagrado Coração. Foram vítimas inocentes. O espírito de vítima de Jesus transbordava sobre as suas jovens almas e revestia-as com a graça do martírio. Jesus há-de ajudar-nos também, mas Ele pede a nossa cooperação. Correspondamos à graça de vítimas do Sagrado Coração que Ele nos quer dar.
O celeste semeador, ao colher este ramo de rosas purpúreas, entrevia a santidade nas crianças em todos os séculos da Igreja. Ele preparava as graças dos santos crianças. Ele preparava para si um cortejo celeste no qual haviam de brilhar S. Ciro de Tarso, o intrépido menino de três anos, S. Tarcísio e S. Pancrácio de Roma, Sto. Agapito de Palestrina, S. Sinfório de Autun, os santos Donaciano e Rogaciano de Nantes; Inês, a jovem virgem de Roma; Filomeno, o taumaturgo do séc. XIX, e tantos outros mártires; pois todas estas crianças santas que conservaram na adolescência a inocência das crianças, S. Estasnislau, S. Luís de Gonzaga, S. Berchmans, S. Carlos Espínola de Génova, S. Casimiro da Polónia, Santa Hermenegilda de Espanha, S. Pedro de Luxemburgo, e, nos nossos dias, os veneráveis Gabriel das Dores, Núncio Sulpício, etc..
(Leão Dehon, OSP 2, p. 223-224).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Como trouxemos a imagem do homem da terra, assim levaremos também a imagem do homem celeste» (1 Cor 15, 20).


Fonte | Fernando Fonseca, scj |

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

XXIV Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares - 19.09.2014


Tempo Comum - Anos Pares
XXIV Semana - Sexta-feira

Lectio

Primeira leitura: 1 Coríntios 15, 12-20

Irmãos: 12Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos? 13Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. 14Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé. 15E resulta até que acabamos por ser falsas testemunhas de Deus, porque daríamos testemunho contra Deus, afirmando que Ele ressuscitou a Cristo, quando não o teria ressuscitado, se é que, na verdade, os mortos não ressuscitam. 16Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. 17E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé e permaneceis ainda nos vossos pecados. 18Por conseguinte, aqueles que morreram em Cristo, perderam-se. 19E se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.

Paulo afirma com total convicção que a ressurreição de Cristo é fundamento da nossa fé e da nossa esperança. Foi isso que ele intuiu no caminho de Damasco. Foi essa a certeza que o amparou na dura vida apostólica. O Apóstolo encontrou-se verdadeiramente com Cristo vivo, com Cristo vencedor da morte. Dessa vitória, brota para todo o crente o dom de esperar, para além de toda as possibilidades humanas. De facto, Cristo ressuscitado é «primícias dos que morreram», é «o primogénito de muitos irmãos» (Rm 8, 29). Todos quantos acolherem, pela fé, a Cristo como Salvador, farão a experiência da ressurreição.
A esperança cristã baseia-se na certeza de que a morte foi vencida, de que a vida nova em Cristo foi inaugurada, de que, em Cristo, viveremos sempre a plenitude da vida, na totalidade do nosso ser humano: corpo, alma, espírito. A esperança cristã é uma esperança-dom, penhor de um bem futuro, que ultrapassará todas as previsões.


Evangelho: Lucas 8, 1-3

Naquele tempo, 1Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze 2e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; 3Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens.

Ao terminar esta secção do seu evangelho (6, 20-8,3), Lucas dá-nos algumas informações sobre quem acompanhava Jesus no seu ministério público. Acompanhavam-no os Doze, como bem sabemos. Mas, segundo uma informação exclusiva de Lucas, acompanhava-no também «algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades» (v. 2). Lucas indica os nomes delas.
Estas notícias não devem espantar-nos. Lucas, como sabemos, devido à sua formação e à sua sensibilidade, dava grande atenção à presença das mulheres na vida de Jesus. Aqui, elas não são apenas ouvintes da sua Palavra ou destinatárias dos seus milagres: colaboram com Ele, apoiando o seu ministério. Isto tem grande interesse: Jesus sabia redimir e libertar algumas mulheres da sua situação espiritual negativa, atraindo-as para junto de si e confiando-lhes tarefas de assistência em relação a Ele e aos apóstolos.
Jesus soube, pois, valorizar a presença e o serviço de algumas mulheres durante a sua vida pública, o que provavelmente desencadeou a crítica e a malevolência de alguns seus contemporâneos, apenas habituados a instrumentalizar e a explorar as mulheres. Também sobre este aspecto, tão actual, Jesus é apresentado por Lucas como o libertador de que a humanidade precisava.


Meditatio

Paulo evidencia, na primeira leitura, a solidariedade entre Cristo e nós, e entre nós e Cristo: «Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou» (v. 13). A ressurreição de Cristo não existe sem a nossa ressurreição: «Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou» (v. 16). Ele ressuscitou por nós, tal como incarnou por nós. «Por nós». Pensemos frequentemente nesta solidariedade, que nos faz sepultados com Ele, ressuscitados com Ele, amados, com Ele, pelo Pai, e nos dá a força e a alegria para dizermos: «Por ti, Senhor!». Por ti, este trabalho, este sofrimento, esta alegria, este repouso.
A certeza da ressurreição de Cristo é garantia da nossa esperança. A esperança é, pois, em primeiro lugar um dom, um dom do alto, um dom gratuito, imerecido, um dom que revela o coração do doador: Deus, de facto, em Jesus Cristo ressuscitado dos mortos, quer dar, dia a dia, a todos e a cada um motivos sempre novos para esperar na sua divina e omnipotente misericórdia. Acreditar na ressurreição significa refundar a nossa esperança em Deus. A esperança cristã é profundamente cristológica: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!», exclama, segundo a liturgia, Maria Madalena, ao dirigir-se aos apóstolos. Neste seu grito, podemos reconhecer o nosso, que sai do nosso coração todas as vezes que o pecado tenta fechá-lo na tristeza.
A esperança cristã é também uma virtude, uma atitude a assumir diante de Deus em sinal de reconhecimento e de acção de graças. Neste sentido, esperar, para nõs, significa viver em plenitude a nossa fé, mantendo-a aberta não só ao passado da ressurreição de Cristo, mas também ao futuro da nossa própria ressurreição. A esperança – foi dito – é a mais pequena, mas também a mais preciosa das virtudes: feliz apresentação de um dom excepcional de deus às suas criaturas, pelo qual podemos manter aberto o nosso coração às surpresas de Deus.
Lemos nas nossas Constituições: «Na Igreja, fomos iniciados na Boa Nova de Jesus Cristo: «Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem» (1 Jo 4,16). Recebemos o dom da fé que dá fundamento à nossa esperança; uma fé que orienta a nossa vida e nos inspira a deixar tudo para seguir a Cristo; no meio dos desafios do mundo, devemos consolidá-la, vivendo-a na caridade…» (n. 9). Note-se a interdependência das três virtudes teologais: «o dom da fé que dá fundamento à nossa esperança», a consolidar «vivendo-a na caridade».
A nossa esperança é marcadamente cristológica: «O Pai enviou-nos o seu Filho... Pela ressurreição, constituiu-O Senhor, Coração da humanidade e do mundo, esperança de salvação para quantos ouvem a sua voz» (Cst. 19).


Oratio

Obrigado, Senhor, porque, desafiando a mentalidade do teu tempo, arrancaste a mulher do túmulo da desumanização, restabelecendo o seu valor de pessoa humana. Obrigado, Senhor, porque, ultrapassando os preconceitos e os abusos da cultura em que vivias, libertaste a mulher do túmulo da subordinação, valorizando a sua presença e o seu serviço. Obrigado, Senhor, porque, envolvendo a mulher no teu ministério público, a ergueste do túmulo da descriminação, prevendo o seu actual papel profético no campo social, Professional, político, eclesial. Obrigado, Senhor, por todas aquelas mulheres que, seguindo o teu exemplo, colaboraram na obra de redenção, restituindo à mulher o lugar que lhe fora dado por Deus. Que eu saiba olhar a mulher com olhos semelhantes aos teus. Amen.


Contemplatio

O terceiro fruto da devoção às cinco chagas é a esperança. Jesus Cristo está preso à cruz para nos esperar, as suas mãos querem-nos abraçar, o seu lado aberto deixa escaparem-se correntes de sangue de graça. Devemos portanto alegrar-nos, porque destas chagas santas saem a salvação, a vida e a ressurreição. S. Tomé, ao meter os dedos nestas chagas santas, delas retirou a fé e graças abundantes. Nós também, delas retiraremos todos os socorros de que temos necessidade.
Ao adorarmos, ao contemplarmos as chagas do Salvador, mesmo a do lado, não entramos ainda necessariamente na via do amor, se não subirmos até ao Coração de Jesus, fonte de todos os seus sacrifícios. É lá que devemos entrar, se quisermos imolar uma hóstia plena e inteiramente agradável a Deus.
Para nós, o amor tudo abarca, domina e contém todas as outras devoções. Não as exclui, mas transforma-as todas em devoção de amor.
Nosso Senhor mesmo dizia à Bem-Aventurada Margarida Maria: «Não penses nem te apliques senão a amar perfeitamente, a agradar-me em tudo e em todas as ocasiões. Que o meu amor seja o objecto de todas as tuas acções, de todos os teus pensamentos e de todos os teus desejos. Não estejas aplicada a amar-me senão para te tornares digna de me amar todos os dias cada vez mais. Asseguro-te que, sem te inquietares com outra coisa, far-me-ás ainda mais pelo exercício do santo amor do que pelo que me prometeste pelos teus votos. A unidade do meu puro amor te proporcionará lugar de atenção na multiplicidade de todas estas coisas». (Leão Dehon, OSP 2, p. 353-355).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram» (1 Cor 15, 20).


Fonte | Fernando Fonseca, scj |

terça-feira, 16 de setembro de 2014

XXIV Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares - 18.09.2014


Tempo Comum - Anos Pares
XXIV Semana - Quinta-feira

Lectio

Primeira leitura: 1 Coríntios 15, 1-11

Irmãos: 1Lembro-vos, irmãos, o evangelho que vos anunciei, que vós recebestes, no qual permaneceis firmes 2e pelo qual sereis salvos, se o guardardes tal como eu vo-lo anunciei; de outro modo, teríeis acreditado em vão. 3Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; 4foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; 5apareceu a Cefas e depois aos Doze. 6Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. 7Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. 8Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto. 9É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. 10Mas, pela graça de Deus, sou o que sou e a graça que me foi concedida, não foi estéril. Pelo contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles: não eu, mas a graça de Deus que está comigo. 11Portanto, tanto eu como eles, assim é que pregamos e assim também acreditastes.

Parece que circulavam, entre os cristãos de Corinto, dúvidas acerca da verdade da ressurreição de Cristo, o que punha em causa a integridade da fé e a unidade da Igreja. Paulo intervém decididamente O evento da ressurreição é objecto do testemunho apostólico: são muitos, e dignos de fé, aqueles que viram o sepulcro vazio e o Senhor Ressuscitado. O próprio Paulo fez experiência do Ressuscitado e, por isso afirma: «pela graça de Deus sou o que sou» (v. 10). O evento da ressurreição de Jesus entrou na pregação apostólica. A partir dele os Apóstolos, não só aderiram à novidade de Cristo com todas as forças, mas fizeram dele sua tarefa missionária. Se Cristo não tivesse ressuscitado, seria vã a sua pregação e o seu trabalho, como afirma o Apóstolo. O mesmo evento da ressurreição de Cristo é objecto directo e imediato da fé dos primeiros cristãos: se Cristo não tivesse ressuscitado, seria vã a nossa fé – afirma Paulo – e nós seríamos os mais infelizes do mundo: infelizes porque enganados e iludidos. É, pois, claro que, ao serviço desta verdade fundante do cristianismo, não está só a tradição apostólica, mas também o testemunho da comunidade crente e de todo o verdadeiro discípulo de Jesus.


Evangelho: Lucas 7, 36-50

Naquele tempo, 36Um fariseu convidou Jesus para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa. 37Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. 38Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. 39Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora!» 40Então, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» «Fala, Mestre» - respondeu ele. 41«Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. 42Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» 43Simão respondeu: «Aquele a quem perdoou mais, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» 44E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. 45Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. 46Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. 47Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.» 48Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.» 49Começaram, então, os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» 50E Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz.»

No evangelho de hoje, cruzam-se dois temas de fundo: em tom polémico, a oposição de Jesus a um fariseu; em tom de proposta, a relação entre Jesus e a pecadora. Mas, observando melhor, vemos que os dois temas se cruzam e se iluminam mutuamente. Ao fariseu, Jesus quer ensinar que uma pessoa não se considera só a partir do exterior, ou das suas experiências passadas. Uma mulher, notoriamente pecadora, é sempre capaz de tomar um novo rumo. Precisa apenas de encontrar irmãos, não hipercríticos e invejosos, mas alguém que a compreenda e redima. Jesus veio para isso! À mulher, Jesus quer ajudar a compreender que a vida vale, não pela soma das experiências passadas, ainda por cima negativas e deletérias, mas pelo encontro central e decisivo com a Sua pessoa, que não é só capaz de compreender e de perdoar, mas também de resgatar e de renovar. Foi para isso que Ele veio!
A nós, destinatários do Evangelho, Jesus quer fazer-nos compreender que é a fé que nos salva: a fé n´Ele, verdadeiro homem, amigos dos homens, sobretudo dos pecadores, e verdadeiro Deus, feito homem, feito amigo dos publicanos, dos pecadores e das meretrizes, Deus capaz de remeter todos os nossos pecados, um Deus com uma palavra consoladora e eficaz para cada um de nós: «A tua fé salvou te. Vai em paz.» (v. 50).


Meditatio

Vamos hoje dar particular atenção à primeira leitura. Mas não podemos deixar de sublinhar a fé da mulher de que nos fala o evangelho. É uma fé viva na misericórdia de Deus. O próprio Jesus a sublinha: «A tua fé te salvou. Vai em paz» (v. 50). São muitos os obstáculos entre esta pobre mulher e Deus. Mas, graças à sua fé, Jesus pode destruí-los e devolver-lhe a paz!
Paulo recorda o núcleo central da fé da Igreja, a Ressurreição de Jesus, que alguns pareciam estar a pôr em causa, em Corinto. Se a Eucaristia é o centro da fé cristã, a Ressurreição de Jesus é o culminar da vida de Jesus e de toda a história da salvação e, portanto, também do nosso caminho de fé. Na verdade, para usar as palavras do próprio Apóstolo, se tal evento fosse irreal, cairiam por terra o testemunho apostólico e a nossa fé. Para aprofundar esta verdade, podemos realçar algumas expressões da página paulina. 
A ressurreição é, antes de mais, um evangelho, uma alegre notícia, porque nela se manifesta, de modo estrondoso, o poder de Deus para salvação da humanidade. Esta boa notícia destina-se a tornar bela a nossa história pessoal e comunitária, e a difundir beleza e harmonia no próprio universo. A ressurreição é o ponto de chegada da vida de Jesus, e o ponto de partida da história da Igreja: é cume e fonte! Nela se enxerta a história de Cristo e a história da Igreja, criando entre elas uma unidade indissolúvel. Não acreditamos, pois, numa verdade abstracta, mas num evento histórico que nos envolve pessoalmente, comunitariamente. O evento da ressurreição de Jesus é também uma promessa, porque abre permanentemente, para todo o homem e para toda a mulher de boa vontade, uma perspectiva de novidade de vida e de renovação da história. Sob este aspecto, a ressurreição de Jesus pode ser considerada também como um evento incompleto enquanto nós próprios não ressuscitarmos.
De acordo com as nossas Constituições, é na Eucaristia que nós, dehonianos, haurimos a inspiração e a força para anunciar a Boa Nova da Ressurreição de Cristo, para sermos testemunho de esperança entre os homens (cf. Cst. 81). É a Eucaristia, celebrada e adorada, que nos impele a lançar-nos «incessantemente, pelos caminhos do mundo ao serviço do Evangelho» (Cst. 82), para sermos testemunhas e arautos da misericórdia e do amor de Deus, «para a reconciliação dos homens com Deus» (Cst. 83) e «para promover a unidade dos cristãos e de todos os homens» (Cst. 84).


Oratio

Senhor, a pecadora alerta-nos, de forma forte e discreta, para um amor incondicional. Perdoaste-lhe os pecados gratuitamente, ensinando-nos a lógica do dom, sem razões nem interesses. É bonito dar, mas, sobretudo, dar-se! Senhor, é eterna a tua misericórdia!
Perdoaste muito à pecadora apenas porque ela confiou no teu amor, e ignoraste a lógica do perdão, que avalia cada um pelo dom que é. É bonito doar, mas é bonito, sobretudo, perdoar. Senhor, é eterna a tua misericórdia!
Ofereceste à pecadora a tua paz, porque, com fé, acreditou em Ti, ensinando-nos a lógica do abandono, que oferece compaixão a quem confia. É bonito abandonar o supérfluo, mas é bonito, sobretudo, abandonar-se a Ti! Senhor, é eterna a tua misericórdia! Amen.


Contemplatio

Que misericórdia o Coração sacerdotal de Jesus mostrou também pela mulher adúltera! Ela é acusada, conforme a lei. Jesus afasta habilmente os seus acusadores, depois diz-lhe: «Não há mais ninguém para te condenar, Eu também não te condenarei. Vai, mas renuncia ao pecado».
Em todas estas circunstâncias, Jesus antecipava-nos no confessionário.
E Madalena? Era uma grande pecadora, conhecida em toda a região pelas suas desordens e pelos seus escândalos. Foi ganha pela bondade de Jesus. Foi liberta de sete demónios. Vai sem respeito humano fazer um acto público de humildade em casa de Simão, o fariseu.
Abraça os pés de Jesus. O celeste médico lança um olhar de compaixão nesta alma doente. Perdoa a esta penitente, que se tornará o modelo ideal do arrependimento e da gratidão.
Ó Padres, como o nosso ministério junto dos pecadores é delicado! Como é preciso ser bom, zeloso e dedicado para os reconduzir a Jesus Cristo! (Leão Dehon, OSP 2, p. 563).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
«Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras» (1 Cor 15, 3ss.).


Fonte | Fernando Fonseca, scj |