segunda-feira, 22 de junho de 2015

Solenidade de S. João Batista - Ano B - 24.06.2015


SOLENIDADE DE S. JOÃO BATISTA

 
Tema da Solenidade de S. João Batista

Nesta solenidade, a Palavra de Deus apresenta-nos a figura profética de João Baptista. Escolhido por Deus para ser profeta, ainda antes de nascer, ele é um “dom de Deus” ao seu Povo. Sublinhando a importância de João na história da salvação, a liturgia não deixa, contudo, de mostrar que João não é “a salvação”; ele veio, apenas, dirigir o olhar dos homens para Cristo e preparar o coração dos homens para acolher “a salvação” que estava para chegar.
A primeira leitura apresenta-nos uma misteriosa figura profética, eleita por Deus desde o seio materno, a fim de ser a “luz das nações” e levar a Palavra ao coração e à vida de todos os homens. Impressiona especialmente a centralidade que Deus assume na vida do profeta: toda a missão profética brota de Deus e sustenta-se de Deus.
Na segunda leitura, Paulo fala aos judeus de Antioquia do profeta João. Na perspectiva de Paulo, a missão de João consistiu em convidar os homens a uma mudança de vida e de mentalidade, numa espécie de primeiro passo para acolher o “Reino” que Jesus veio, depois, propor. Paulo deixa claro que João não é o Messias libertador, mas sim aquele que vem preparar o coração dos homens para acolher o Messias.
O Evangelho relata o nascimento de João. Na perspectiva de Lucas, os acontecimentos ligados ao seu nascimento mostram como o profeta João é um “dom de Deus”. Começa, nessa altura, a tornar-se claro para todos que Deus está por detrás da existência de João, e que a sua missão é ser um sinal de Deus no meio dos homens.


LEITURA I – Is 49,1-6

Leitura do Livro de Isaías

Terras de Além-Mar, escutai-me;
povos de longe, prestai atenção.
O Senhor chamou-me desde o ventre materno,
disse o meu nome desde o seio de minha mãe.
Fez da minha boca uma espada afiada,
abrigou-me à sombra da sua mão.
Tornou-me semelhante a uma seta aguçada,
guardou-me na sua aljava.
E disse-me:
«Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória».
E eu dizia:
«Cansei-me inutilmente, em vão
e por nada gastei as minhas forças».
Mas o meu direito está no Senhor
e a minha recompensa está no meu Deus.
E agora o Senhor falou-me,
Ele que me formou desde o seio materno,
para fazer de mim o seu servo,
a fim de Lhe restaurar as tribos de Jacob
e reconduzir os sobreviventes de Israel.
Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força.
Ele disse-me então:
«Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob
e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Farei de ti a luz das nações,
para que a minha salvação
chegue até aos confins da terra».

AMBIENTE

No livro do Deutero-Isaías (um profeta que exerce o seu ministério na fase final do exílio, em meados do séc. VI a.C.), encontramos quatro poemas de autor desconhecido, que nos apresentam uma misteriosa figura de um “servo” de Jahwéh. Trata-se de uma figura não identificada, que pode ser uma figura individual (como Jeremias, ou o próprio Deutero-Isaías) ou uma figura colectiva (representando, por exemplo, todos os profetas enviados por Deus ao seu Povo, ou o próprio Povo de Deus). De qualquer forma, os textos apresentam esta misteriosa figura profética como alguém a quem Deus chamou a testemunhar a Palavra. A missão desse “servo” tem carácter universal e realiza-se no sofrimento e no abandono à Palavra e aos projectos de Deus; mas o sofrimento desse “servo” não é em vão, e tem um significado expiatório e redentor. Do sofrimento que acompanha a missão do “servo”, resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício do “servo”, recompensá-lo-á pela doação da vida, elevá-lo-á à vista de todos e fá-lo-á triunfar diante dos seus detractores e adversários. Embora se discuta a delimitação exacta dos quatro cânticos do “servo de Jahwéh”, podemos aceitar que os textos em questão são Is 42,1-9, 49,1-13, 50,4-11 e 52,13-53,12.
O texto que hoje nos é proposto é parte do segundo cântico do “servo de Jahwéh”. É, portanto, essa figura misteriosa de “servo” de Deus, chamado à missão profética que aqui nos é apresentada.

MENSAGEM

O nosso texto apresenta-nos o relato da vocação do “servo de Jahwéh”. Como acontece noutros relatos de vocação, o “servo” manifesta a convicção de que foi chamado por Deus desde “o seio materno” (vers. 1). Dessa forma, sugere-se que a vocação profética só pode ser entendida à luz da iniciativa divina que, desde o início da existência, “agarra” o homem e o destina para uma missão no mundo. A missão profética não é, portanto, uma iniciativa do homem ou o resultado dos méritos do homem, mas é algo que tem origem em Deus e que só se entende e faz sentido à luz de Deus. Esta certeza é o ponto de partida de toda a acção profética.
A missão a que o profeta é chamado por Deus tem a ver com a Palavra (vers. 2). O profeta é o homem a quem Deus elegeu, a fim de que a sua Palavra chegue aos outros homens; através dele, Deus dirige-nos as suas propostas e propõe aos homens um caminho que os leva a viver em relação com Deus. Essa Palavra de Deus que sai da boca do profeta não é palavra humana, mas Palavra de Deus; é por isso que o profeta diz que Deus tornou a sua boca como “uma espada afiada”, ou uma “uma seta penetrante”. É possível que as imagens utilizadas aludam à força da Palavra de Deus, que penetra nos corações e que não pode ser detida.
Na concretização da missão, o profeta experimentou a perseguição, a incompreensão, o fracasso (“foi em vão que me fatiguei, inutilmente gastei as minhas forças” – vers. 4ab). Significa isso que o profeta “andou a perder tempo” e que lamenta o seu empenhamento? Não; ele está consciente de que não perdeu nada, porque Deus não deixou de o proteger e de lhe dar a paga merecida (“o meu direito está nas mãos do Senhor, a minha recompensa está depositada no meu Deus” – vers. 4cd). Repare-se como o que é decisivo para o profeta é o ter cumprido, com fidelidade, a missão que Deus lhe confiou e a consciência de que Deus não o abandonou: se o profeta age em nome de Deus e tem o apoio de Deus, tudo o resto é secundário.
Qual foi a missão que foi confiada ao profeta? Fundamentalmente, reconduzir Jacob a Jahwéh, reunir Israel a Deus (vers. 5). Provavelmente, faz-se aqui alusão à missão confiada aos vários profetas que Deus enviou ao seu Povo, que procuraram – às vezes inutilmente – reconduzir o Povo de Deus à órbita da aliança.
No entanto, a missão alarga-se e universaliza-se (vers. 6), agora que Israel se movimenta num cenário internacional (nesta fase, o Povo de Deus está exilado numa terra estrangeira). O que Deus vai realizar em favor de Israel será um acontecimento universal, visível para todas as nações. Da acção salvadora de Deus, brotará uma luz que iluminará todos os povos, que os fará descobrir Deus e aderir a Jahwéh.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

¨       A ideia fundamental que brota deste texto é a certeza de que é Deus quem está por detrás de toda a experiência profética… É Deus quem elege o profeta e quem lhe destina uma missão, desde o seio materno; é Deus quem coloca a sua Palavra na boca do profeta; é Deus quem protege o profeta e quem o recompensa… Seria impensável falarmos em profecia, sem falarmos de Deus. Tenho consciência desta centralidade de Deus na minha vida?

¨       A profecia não é uma realidade reservada a pessoas especiais, mas é uma missão que brota do meu compromisso baptismal. Tenho consciência de que sou chamado a ser profeta – isto é, de que sou chamado a ser Palavra viva de Deus?

¨       Apesar do sofrimento, das perseguições, dos fracassos, a missão do profeta é ser “luz das nações”, para que a salvação de Deus “chegue aos confins da terra”. O meu programa de vida é, verdadeiramente, ser uma luz que ilumina o mundo e que dá esperança aos homens? Os pobres, os marginalizados, os excluídos, os humildes, os explorados, os injustiçados encontram em mim o testemunho da salvação de Deus que os liberta e que os salva?

¨       Para que a Palavra proclamada seja Palavra de Deus, é necessário que eu viva uma relação de comunhão e de intimidade com Deus: só nesse diálogo serei impregnado da vida de Deus, me aperceberei dos projectos de Deus e poderei anunciá-los aos homens. Vivo nesta relação próxima, dialogante, com Deus? Aquilo que transmito e proclamo são Palavras de Deus, ou são as minhas palavras, os meus esquemas, os meus interesses pessoais?


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 138

Refrão:    Eu Vos dou graças, Senhor,
              porque maravilhosamente me criastes.

Senhor, Vós conheceis o íntimo do meu ser:
sabeis quando me sento e quando me levanto.
De longe penetrais o meu pensamento:
Vós me vedes quando caminho e quando descanso,
Vós observais todos os meus passos.

Vós formastes as entranhas do meu corpo
e me criastes no seio de minha mãe.
Eu Vos dou graças
por me terdes feito tão maravilhosamente:
admiráveis são as vossas obras.

Vós conhecíeis já a minha alma
e nada do meu ser Vos era oculto,
quando secretamente era formado,
modelado nas profundidades da terra.


LEITURA II – Actos 13,22-26

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias,
Paulo falou deste modo:
«Deus concedeu aos filhos de Israel David como rei,
de quem deu este testemunho:
‘Encontrei David, filho de Jessé,
homem segundo o meu coração,
que fará sempre a minha vontade’.
Da sua descendência, como prometera,
Deus fez nascer Jesus, o Salvador de Israel.
João tinha proclamado, antes da sua vinda,
um baptismo de penitência a todo o povo de Israel.
Prestes a terminar a sua carreira, João dizia:
‘Eu não sou quem julgais;
mas depois de mim, vai chegar Alguém,
a quem eu não sou digno
de desatar as sandálias dos seus pés’.
Irmãos, descendentes de Abraão
e todos vós que temeis a Deus:
a nós é que foi dirigida esta palavra de salvação».

AMBIENTE

No ano 46, Paulo e Barnabé deixaram a comunidade cristã de Antioquia da Síria e partiram por mar para anunciar Jesus no mundo helénico. Depois de terem passado em Chipre, desembarcaram em Perge, na costa meridional da Ásia Menor. Depois, dirigiram-se por terra para as cidades do interior e chegaram a Antioquia da Pisídia. Num sábado, “entraram na sinagoga da cidade” (Act 13,14), a fim de participar na liturgia sinagogal. Convidado a falar, pelos chefes da sinagoga, Paulo aproveitou para anunciar Jesus à comunidade judaica aí reunida (cf. Act 13,16-41). O texto que nos é proposto como segunda leitura é um pequeno excerto do discurso que, nesse contexto, Paulo pronunciou.
Trata-se do primeiro discurso posto por Lucas na boca de Paulo; contém alguns dos temas que estarão presentes de agora em diante, na sua pregação aos pagãos.

MENSAGEM

O discurso posto por Lucas na boca de Paulo consta, sobretudo, de reflexões sobre o Antigo Testamento. Faz uma rápida síntese da “história da salvação”, indicando alguns dos seus fios condutores, para mostrar que tudo converge para Jesus e que tudo culmina em Jesus.
É neste contexto que nos aparece a referência a João Baptista. Ele é apresentado como aquele que veio preparar a vinda de Jesus, propondo um baptismo de conversão (a expressão grega “baptisma metanoías” faz alusão a uma transformação radical das mentalidades, a fim de que a proposta do “Reino” trazida por Jesus possa encontrar acolhimento no coração e na vida de todos os homens) a todo o povo de Israel (vers. 24). João Baptista não é o Messias esperado, mas o profeta que anuncia aquele que virá a seguir e ao qual o próprio João não se sente sequer digno de “desatar as sandálias” (vers. 25). A expressão denuncia essa consciência que o profeta tem de ser apenas um simples e frágil instrumento de Deus.
Repare-se, ainda, como João se esforça por não apontar para si mesmo, mas para Cristo. A missão do profeta não é dirigir o olhar do mundo na sua própria direcção, mas sim o orientar o coração dos homens para o essencial, para Deus.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão do texto pode fazer-se a partir das seguintes indicações:

¨       O profeta é alguém chamado a testemunhar Deus no meio dos homens, mesmo quando os homens preferem ignorar Deus e edificar a sua vida à margem de Deus. João Baptista, o profeta, assumiu plenamente a missão de testemunhar Deus: convocou os homens para o encontro com o Deus incarnado, convidou os homens a despirem o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, a violência, a ganância, e a preparar o coração para acolher a proposta de salvação que Deus veio fazer, em Jesus. Este programa não perdeu actualidade: o apelo à conversão, à revolução das mentalidades e das atitudes e o convite a acolher a libertação que Deus nos oferece continuam a fazer sentido e a ser o núcleo essencial do anúncio profético. É este o meu programa?

¨       O profeta é um instrumento simples, limitado e frágil, através de quem Deus age no mundo. Isto revela, por um lado, que Deus se manifesta na simplicidade e na fraqueza e que é aí que devemos procurá-l’O (Ele nunca está no poder, na riqueza, na força, na prepotência, na imposição); isto revela, por outro lado, que o profeta não tem de que se orgulhar ou envaidecer: não são as suas qualidades que são determinantes, mas sim a acção de Deus.

¨       O “caminho profético” não passa por concentrar em si próprio a atenção das multidões, exibir-se e receber a adoração das pessoas, ser admirado e aclamado, conseguir sucesso e aparecer nas revistas sociais, promover a imagem e tratar por tu os que mandam no mundo, exibir brilhantes qualidades e criar clubes de fãs. O profeta é o “servo” de Deus, que se esconde atrás do cenário enquanto aponta os focos para Deus e cuja função é fazer incidir em Deus os olhos dos homens… Não é o profeta que deve aparecer; mas, nele, é Deus que os homens devem encontrar.


ALELUIA – cf Lc 1,76

Aleluia. Aleluia.

Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo,
irás à frente do Senhor a preparar os seus caminhos.


EVANGELHO – Lc 1,57-66.80

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho.
Os seus vizinhos e parentes souberam
que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício
e congratularam-se com ela.
Oito dias depois,
vieram circuncidar o menino
e deram-lhe o nome do pai, Zacarias.
Mas a mãe interveio e disse:
«Não, Ele vai chamar-se João».
Disseram-lhe:
«Não há ninguém da tua família que tenha esse nome».
Perguntaram então ao pai, por meio de sinais,
como queria que o menino se chamasse.
O pai pediu uma tábua e escreveu:
«O seu nome é João».
Todos ficaram admirados.
Imediatamente se lhe abriu a boca
e se lhe soltou a língua e começou a falar,
bendizendo a Deus.
Todos os vizinhos se encheram de temor
e por toda a região montanhosa da Judeia
se divulgaram estes factos.
Quantos os ouviam contar
guardavam-nos em seu coração e diziam:
«Quem virá a ser este menino?»
Na verdade, a mão do Senhor estava com ele.
O menino ia crescendo
e o seu espírito fortalecia-se.
E foi habitar no deserto
até ao dia em que se manifestou a Israel.

AMBIENTE

O “Evangelho da Infância”, na versão de Lucas, põe em paralelo as figuras de João e de Jesus (ao anúncio do nascimento de João – cf. Lc 1,5-25 – corresponde o anúncio do nascimento de Jesus – cf. Lc 1,26-38; à história do nascimento de João – cf. Lc 1,57-80 – corresponde a história do nascimento de Jesus – cf. Lc 2,1-21). Este paralelismo serve para iluminar a relação existente entre os dois – uma relação que a reflexão eclesial foi aprofundando e ampliando desde as tradições mais antigas.
Na época em que Lucas escreve, as comunidades cristãs conhecem os discípulos de João, cuja actividade proselitista chegou à Ásia Menor (cf. Act 18,24-19,7). Provavelmente, havia quem confundia João com o Messias… Neste contexto, a comunidade lucana quis deixar claro o papel relevante de João na economia da salvação mas, ao mesmo tempo, afirmar a subordinação de João a Jesus… A superioridade de Jesus em relação a João está, aliás, bem patente na diferença entre o relato do anúncio do nascimento de João e o relato do anúncio do nascimento de Jesus; está também patente no encontro de Maria com Isabel, em que a própria mãe de João proclama Maria como a mãe do seu Senhor, reconhecendo a inferioridade do seu filho em relação a Jesus (cf. Lc 1,39-45); está, ainda, patente no relevo dado pelo evangelista ao relato do nascimento de Jesus (que é longo, rico de pormenores e está carregado de teologia) em detrimento do relato do nascimento de João (que é contado em poucas linhas, sem grande riqueza de detalhes).

MENSAGEM

O relato começa com a descrição do quadro de alegria que acolheu o nascimento do filho de Zacarias e de Isabel (vers. 57-58). A alegria – um dos elementos característicos da teologia de Lucas – significa que chegaram os tempos novos, os tempos do cumprimento das promessas de Deus, o tempo da misericórdia de Deus.
Por alturas da circuncisão (no oitavo dia depois do nascimento, data legal da circuncisão, segundo Gn 17,12 e Lv 12,3), põe-se a questão do nome que irá ser dado ao menino (no Antigo Testamento, o nome é dado à nascença – cf. Gn 4,1; 21,3; 25,25-26; mas aqui aparece o costume helenista, assumido pelo judaísmo mais recente). Os vizinhos e parentes dão como adquirido que o menino se chamará como o pai. No entanto, Isabel e Zacarias escolhem um outro nome: João (sugerido pelo anjo, aquando do anúncio do nascimento do menino – cf. Lc 1,13). O nome significa literalmente “o Senhor concede graça”: o menino é um “dom de Deus” e o primeiro sinal da graça que Deus vai derramar sobre os homens, através do Messias que está para chegar. Por outro lado, o acordo da mãe e do pai sobre um nome que não era familiar aparece como divinamente inspirado.
Diante do nascimento de João, Lucas nota o espanto e o temor de todos os presentes. O espanto (vers. 63) é a reacção habitual das multidões diante dos milagres (cf. Lc 8,25.56; 9,43; 11,14; Act 3,10) e de outras manifestações divinas (cf. Lc 24,12.41; Act 2,7); o “temor” (vers. 65) define a atitude normal do homem diante do mistério, do transcendente, do divino (Lucas fará referência ao “temor” diante das revelações – cf. Lc 2,9; 9,34 – dos milagres – cf. Lc 5,26; 7,16; 8,25.37; 24,5.37 – e de outras intervenções divinas – cf. Act 5,5.11; 19,17).
O quadro completa-se com a indicação de que, “de facto, a mão do Senhor estava com ele” (vers. 66). A expressão inspira-se no Antigo Testamento, onde serve para exprimir a protecção de Deus sobre os seus fiéis (cf. Sal 80,18; 139,5) e a sua acção sobre os profetas (cf. 1 Re 18,46; 2 Re 3,15; Ez 1,3; 3,14.22; 8,1). Aqui, significa que João tem a protecção de Deus e que Deus age nele. Tudo isto define um quadro de intervenção e de presença de Deus, mostrando que toda a existência de João se compreende à luz da iniciativa divina.
No final da leitura (vers. 80a), apresenta-se uma fórmula usada para resumir a infância de certas figuras que desempenharam papéis de referência na história do Povo de Deus (Sansão – cf. Jz 13,24-25; Samuel – cf. 1 Sm 2,26). Há também uma referência à ida de João para o deserto (vers. 80b); deserto é o lugar onde Israel fez a sua experiência de encontro com o Deus libertador, onde sentiu de forma especial o amor de Deus e onde o Povo assumiu o compromisso da aliança: é essa experiência que João vai fazer, para depois a apresentar ao seu Povo. Além disso, a referência ao deserto prepara a próxima aparição de João no Evangelho, cerca de trinta anos depois (cf. Lc 3,1-3).
No relato transparece, de forma especial, a centralidade de Deus em todo o processo. João é um “dom de Deus”, vem com uma missão de Deus e é um sinal da presença de Deus no meio do seu Povo.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes linhas:

¨       A história de João fala-nos, em primeiro lugar, de um Deus que ama os homens e que tem para lhes oferecer um projecto de salvação e de vida plena; é por isso que Ele inventa formas humanas de vir ao encontro dos homens, de lhes fazer chegar a sua Palavra e as suas propostas, de os questionar e interpelar com a Palavra profética… Ao celebrar esta solenidade, estamos a celebrar o Deus/amor, que se revela na figura do profeta João. Eu tenho sido sempre, para os meus irmãos, um “dom de Deus”, um sinal vivo e profético do Deus que os ama e que lhes oferece a salvação? Os “vizinhos e parentes” encontram em mim a manifestação de Deus?

¨       No relato do nascimento de João, transparece a centralidade de Deus na vida do profeta, desde o seio materno. O profeta é um homem de Deus, cuja vida tem origem em Deus, cuja vocação só faz sentido à luz de Deus, cujo alimento é o próprio Deus, cujas palavras são palavras de Deus. Tenho consciência de que Deus tem de estar no centro da minha vida e que a minha vocação profética só faz sentido se eu aceitar viver numa ligação “umbilical” com Deus?

¨       Embora os textos de hoje não refiram essa dimensão, convém, nesta solenidade, reflectir acerca da forma como João Baptista viveu a sua missão profética. São particularmente questionantes o seu despojamento, a sua radicalidade, a sua entrega total à missão, a coragem com que ele enfrentou os poderosos, a sua capacidade de dar a vida para defender a verdade. Estas características fazem parte do “caminho profético”.

¨       No relato de Lucas, fica bem expressa a diferença entre João e Jesus… João não é a salvação; ele veio, apenas, dar testemunho da chegada iminente da salvação. O profeta precisa de ter consciência do seu papel e do seu lugar: ele não é “a luz”; a sua missão não é levar os homens a aderir à sua pessoa, mas à pessoa de Jesus. O profeta deve ter cuidado para não usurpar, nunca, o lugar de Deus.


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA A SOLENIDADE DE S. JOÃO BAPTISTA
(em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior à Solenidade de S. João Baptista, procurar meditar a Palavra de Deus desta Solenidade. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. ABERTURA DA CELEBRAÇÃO.
Para participar na Eucaristia e dizer “presente” à convocação do Senhor, pode-se, no início da celebração convidar os membros da assembleia a saudar quem está ao lado, dizendo o próprio nome. Além disso, o Evangelho proporciona-se a que seja dialogado…

3. BILHETE DE EVANGELHO.
Zacarias tinha posto em dúvida a palavra do mensageiro de Deus; esta dúvida tornou-o mudo. Porque não acolheu a mensagem de Deus, não podia anunciar qualquer mensagem. Ora, eis que Isabel, sua esposa, dá ao mundo um filho a quem dá o nome de João, mas cabe ao pai dar um nome ao seu filho. Zacarias, animado pelo Espírito de Deus, não opôs qualquer resistência, escreve o nome de João. Então, porque fez a vontade de Deus, torna-se um homem livre, livre de falar, livre de bendizer a Deus. Seríamos tentados a dizer: desde os seus oito dias, pela sua presença, aquele que será o último profeta da Antiga Aliança e o primeiro a mostrar o Messias, oferece a Deus a ocasião de manifestar a sua obra criadora e libertadora. A mão do Senhor estava com ele. Então, compreende-se a interrogação da multidão: «Quem virá a ser este menino?» A resposta será dada trinta anos mais tarde: ele será o percursor, aquele que precede o Messias que deve vir.

4. À ESCUTA DA PALAVRA.
«Quem virá a ser este menino?» João Baptista será o único ser humano, com a Virgem Maria e Jesus, naturalmente, de quem a Igreja celebra o nascimento terrestre. Para todos os outros santos, ela faz memória do seu “nascimento para o céu”, isto é, da sua morte. Porquê um tal privilégio para o Baptista? Porque recebeu o Espírito Santo desde o seu nascimento, quando Maria, a “cheia de graça”, veio visitar a sua prima Isabel. Ele é o maior dos profetas de Israel, porque reconheceu e designou o Messias. Isso aconteceu em toda a sua vida. Até ao fim, permanecerá fiel à sua missão de porta-voz de Deus e a sua morte será miserável. Poderia ser tentado a tomar-se por Messias. Aceitando a sua missão, João Baptista nada reivindicou para si. Viveu numa total humildade, sabendo fazer a verdade sobre si mesmo. Pôde, então, viver no amor que tem a sua fonte em Deus. Amigo do esposo, de Jesus, reconheceu que Jesus era maior do que ele. Tornou-se, assim, para nós, um exemplo na nossa caminhada de seguimento de Jesus, para que deixemos, nós também, Jesus crescer em nós. Que isso seja também a nossa alegria.

5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se rezar a Oração Eucarística II para as Assembleias com Crianças, que permite recordar todo o amor do Pai e responder-lhe.

6. PALAVRA PARA O CAMINHO…
“Quem será esta criança?” Cada um é único… Cada recém-nascido é uma nova criatura de Deus… Cada um recebe de Deus uma missão… Pensámos nisso no momento de um nascimento? A liturgia deste dia recorda-nos que cada um é escolhido por Deus para a missão que lhe é confiada. Digamos-lhe qual é a nossa e procuremos fazer o ponto da situação, no plano espiritual, para um recomeçar de novo…


UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
Proposta para
Escutar, Partilhar, Viver e Anunciar a Palavra nas Comunidades Dehonianas
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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domingo, 21 de junho de 2015

Tempo Comum - Anos Ímpares - XII Semana - Terça-feira - 23.06.2015


Lectio

Primeira leitura: Génesis 13, 2.5-18

Abrão era muito rico em rebanhos, prata e ouro. 5Lot, que acompanhava Abrão, possuía, igualmente, ovelhas, bois e tendas; 6a terra não era bastante grande para nela se estabelecerem os dois, porque os bens de ambos eram avultados. 7Houve questões entre os pastores dos rebanhos de Abrão e os pastores dos rebanhos de Lot. Os cananeus e os perizeus habitavam, então, aquela terra. 8Abrão disse a Lot: «Peço-te que entre nós e entre os nossos pastores não haja conflitos, pois somos irmãos. 9Aí tens essa região toda diante de ti. Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda.» 10Lot ergueu os olhos e viu todo o vale do Jordão, que era inteiramente regado. Antes de o Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra, estendendo-se até Soar, o vale era um maravilhoso jardim, como a terra do Egipto. 11Lot escolheu para si todo o vale do Jordão e dirigiu-se para o oriente, separando-se um do outro. 12Abrão fixou-se na terra de Canaã, e Lot nas cidades do vale, no qual ergueu as suas tendas até Sodoma. 13Ora, os habitantes de Sodoma eram perversos, e grandes pecadores diante do Senhor. 14Depois de Lot o ter deixado, Deus disse a Abrão: «Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o norte, o sul, o oriente e o ocidente. 15Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre. 16Farei que a tua descendência seja numerosa como o pó da terra, de modo que só se alguém puder contar o pó da terra é que a tua posteridade poderá ser contada. 17Levanta-te, percorre esta terra em todas as direcções, porque Eu ta darei.» 18Abrão desmontou as suas tendas e foi residir junto aos carvalhos de Mambré, próximo de Hebron; e ali construiu um altar ao Senhor.

Abraão e o seu sobrinho Lot viram crescer a sua riqueza em rebanhos. Surgiram, então, problemas de espaço, de abastecimento de água e de pastagens, e foi preciso separar-se. Esta narrativa explica as relações entre os Israelitas e os Amonitas/Edomitas, na época da sedentarização. A memória do litígio entre os dois clãs é apresentada com uma nova profundidade teológica, cuja mensagem continua actual. A riqueza de Abraão e de Lot mostra os efeitos da bênção divina derramada sobre eles. Como chefe de clã, Abraão está preocupado que haja pastos abundantes e poços de água para todos. Quando escasseiam, oferece ao sobrinho a possibilidade de escolher. Assim revela um coração livre e desapegado das riquezas. Lot escolhe a melhor parte, que todavia se irá revelar sem futuro. A beleza do vale do Jordão antes da destruição de Gomorra, enfatizada na descrição, esconde o caruncho da corrupção dos seus habitantes. Abraão, sem descendentes, aceita a terra mais pobre, continuando a manifestar total confiança naquele Deus que o chamou e o mandou partir, mostrando-se capaz de ver para além do momento presente. Aceita Deus e a sua promessa. Então, o Senhor convida Abraão a erguer os olhos e a observar o país – todo o país – que será seu, e assegura-lhe uma descendência numerosa «como o pó da terra» (v. 16). Lot recebeu tudo imediatamente. Mas o presente revelou-se inconsistente para ele. Abraão, pelo contrário, acreditou no futuro de Deus e a sua esperança não foi desiludida.


Evangelho: Mateus 7, 6.12-14

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 6«Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés e, acometendo-vos, vos despedacem.» 12«Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas.» 13«Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. 14Como é estreita a porta e quão apertado é o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram!».»

Mateus apresenta-nos dois provérbios de difícil compreensão, por várias razões: vêm logo depois de Jesus nos ter proibido julgar os outros e nos ter mandado aplicar a medida com moderação, compreensão e perdão; não encontramos provérbios paralelos na literatura judaica que nos ajudem a compreender estes; apenas lemos no Talmud: «não entregueis a um pagão as palavras da Lei» e «não coloqueis coisas santas em lugares impuros», mas não ajudam muito no nosso caso. Os sacrifícios oferecidos no templo eram chamados «santos»; as pérolas, sob o ponto de vista comercial, eram preciosas. As palavras «santo» e «pérolas» provavelmente indicavam o Evangelho, a Boa Nova. Os «cães» e os «porcos», por sua vez, não eram os pagãos, como alguns dizem, mas todas aqueles que, pagãos ou não, desprezavam a Boa Nova, tal como os porcos desprezam as pérolas.
O evangelista aponta, depois, a regra de ouro: «o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles» (v.12). Este princípio encontra-se noutras religiões, nomeadamente no judaísmo. Mas com uma diferença: no judaísmo é formulado negativamente: «Não faças aos outros o que não queres que te façam a Ti» É uma diferença importante, porque, «não fazer» é sempre algo negativo. Mas a maior diferença é que Jesus eleva essa regra a princípio universal.
Depois, Jesus cita os provérbios das duas portas e dos dois caminhos, usados entre os moralistas da época para indicar o caminho da virtude, estreito e difícil, e o do vício, espaçoso e fácil. Mas Jesus introduz uma mudança: a porta e o caminho estreitos, da renúncia, do seguimento, da cruz, levam à vida; a porta e o caminho espaçosos, da satisfação dos apetites desordenados, levam à perdição. Há que escolher.


Meditatio

O desapego, a que a fé leva o crente, dá-lhe uma grande liberdade de espírito. Os ricos, muitas vezes, andam preocupados em conservar e aumentar as suas riquezas. Abraão, pelo contrário, está mais preocupado em ter boas relações com os seus vizinhos, do que em ter abundância de pastos, de água e de rebanhos. Quer evitar conflitos com o seu sobrinho Lot e, com grande liberdade de espírito, antecipa a regra de ouro proclamada por Jesus: «o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles» (v. 12). Abraão diz ao sobrinho: «Peço-te que entre nós e entre os nossos pastores não haja conflitos, pois somos irmãos. Aí tens essa região toda diante de ti. Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda» (vv. 8-9). Deixar ao outro escolher é o melhor modo de evitar conflitos. Mas não é uma decisão fácil, porque vemos melhor os nossos direitos, e os deveres dos outros, do que os seus interesses. Lot escolhe o fértil vale do Jordão, enquanto Abraão se contenta com a parte montanhosa e árida de Canaã. Podemos ver neste episódio uma aplicação ante litteram do ensinamento de Jesus: «Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Como é estreita a porta e quão apertado é o caminho que conduz à vida» (vv. 13-14). Jesus é, como sabemos, o caminho, o caminho estreito, que passa pela Cruz, mas que chega à Vida, à vida divina que é Ele mesmo. Jesus é também a porta estreita do desapego, do abandono, da abnegação, que nos dá acesso à Felicidade, à Bem-aventurança, que, ao fim e ao cabo, é Ele mesmo, com o Pai e o Espírito Santo.
Lot escolheu o «caminho espaçoso», o caminho fácil, que, no seu termo, conduzia a Sodoma e a Gomorra, símbolos da corrupção e da perdição. Abraão optou pelo «caminho estreito», que levava a Canaã, a Terra Prometida: «Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o norte, o sul, o oriente e o ocidente. Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre» (vv. 14-15).
Esta página leva-nos, mais uma vez, a meditar sobre a nossa situação neste mundo. Há sempre dois caminhos diante de nós: o que leva à vida e o que leva à morte. Há que optar por um deles. Em termos actuais, diríamos que temos de escolher entre o que nos agrada, o que nos satisfaz imediatamente, sem nos interessarmos pelos outros, e o que é justo e recto, o que é conforme à vontade de Deus e ao bem dos irmãos. Esta segunda opção pode parecer-nos dura e exigente no começo. Mas alarga-nos o coração e os horizontes. Leva à felicidade. Assim, vemos antecipadamente realizadas em Abraão as palavras de Jesus: «A felicidade está mais em dar do que em receber» (Act 20, 35).
A nossa vida de oblação exige a opção pelo caminho apertado e pela porta estreita, em união com Cristo, vivendo a oblação de Cristo. Mas, essa opção, antes de ser fruto do nosso esforço, da nossa generosidade e boa vontade, é fruto do amor de Deus, da graça, da oração: é dom do Coração de Cristo, é sustentada pela Espírito.


Oratio

Dai-nos, Senhor, o vosso Espírito de Amor, para sermos com Cristo e em Cristo profetas do Amor e servidores da reconciliação na Igreja e no mundo.
Dai-nos, Senhor, o vosso Espírito de Amor, para continuarmos no mundo a presença libertadora de Cristo, pondo toda a nossa vida ao serviço dos vossos desígnios de salvação.
Dai-nos, Senhor, o vosso Espírito de Amor, para darmos, hoje e sempre, um testemunho vivo de oblação e de serviço na caridade para com todos quantos nos procuram.
Dai-nos, Senhor, o vosso Espírito de Amor, para vivermos este dia num alegre esforço de fraternidade com todos aqueles com quem estamos comunitariamente unidos na oração, na vida e no trabalho.
Dai-nos, Senhor, o vosso Espírito de Amor, para que, através de toda a nossa vida, das nossas orações, trabalhos e sofrimentos, prestemos um culto de amor e reparação ao Coração do vosso Filho.


Contemplatio


O melhor meio de adquirir uma força superior à das tentações é unir-se e abandonar-se inteiramente a Nosso Senhor e ao seu divino Coração. – Os motivos sobrenaturais são as únicas armas nas quais uma alma cuidadosa dos seus interesses eternos possa colocar a sua confiança. E entre estes motivos, os mais poderosos são aqueles que mais levam Nosso Senhor a participar no combate e que nos trazem assim o socorro de uma graça mais abundante. Nosso Senhor oferece a sua graça a todos, mas embora a sua graça seja gratuita, ordinariamente não a distribui senão em proporção das garantias que recebe. É preciso, portanto, julgar os sentimentos que Ele experimenta para com as almas nesta distribuição das graças segundo os de um bom pai de família para com as pessoas da sua casa. Um bom pai de família ajuda e defende sempre todos os seus bens; mas nos perigos instantes, presta um socorro mais pronto e mais poderoso à sua esposa, aos seus filhos, do que aos seus servos. Entre estes, protege com mais diligência e mais eficácia os que se tornaram mais caros ao seu coração pela sua afectuosa dedicação e pelos seus cuidados. Em último lugar, virão os escravos, que não se mostram fiéis e exactos senão por medo do castigo. Em que categoria nos havemos de colocar? Não depende de ninguém tornar-se esposa, esta escolha é reservada ao Senhor. Mas depende de nós tornarmo-nos seus filhos afectuosos. A única condição a preencher, é a de nos abandonarmos totalmente a Nosso Senhor e nos confiarmos ao seu divino Coração, como uma criança se abandona à sua mãe, darmo-nos generosamente a Ele, com amor, com o único objectivo de lhe agradarmos, e de lhe provarmos o nosso amor como for do seu agrado pedi-lo. Quando a generosidade não vai até ao abandono, quando a preocupação pelos direitos que pretenda ter-se sobre o próprio senhor, faz que deixemos dominar em nós, apesar de uma real afeição, a preocupação pela recompensa ligada aos nossos serviços, colocamo-nos entre os servos. E se o interesse domina a afeição, descemos ao nível do mercenário e do escravo. (Leão Dehon, OSP3, p. 278).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Mostra-me, Senhor, os teus caminhos
e ensina-me as tuas veredas.» (Sl 25, 4).


Fonte http://www.dehonianos.org/

sábado, 20 de junho de 2015

Tempo Comum - Anos Ímpares - XII Semana - Segunda-feira - 22.06.2015


 Lectio

Primeira leitura: Génesis 12, 1-9

Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. 2Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. 3Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas.» 4Abrão partiu, como o Senhor lhe dissera, levando consigo Lot. Quando saiu de Haran, Abrão tinha setenta e cinco anos. 5Tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho do seu irmão, assim como todos os bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Haran, e partiram todos para a terra de Canaã, e chegaram à terra de Canaã. 6Abrão percorreu-a até ao lugar de Siquém, até aos carvalhos de Moré. Os cananeus viviam, então, naquela terra. 7O Senhor apareceu a Abrão e disse-lhe: «Darei esta terra à tua descendência.» E Abrão construiu ali um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido. 8Deixando esta região, prosseguiu até ao monte situado ao oriente de Betel, e montou ali as suas tendas, ficando Betel ao ocidente e Ai ao oriente. Construiu também um altar ao Senhor e invocou o seu nome. 9Abrão continuou a sua viagem, acampando aqui e ali, em direcção ao Négueb.


A figura de Abraão estabelece a ligação entre as origens da humanidade e as origens do povo bíblico. Abraão é uma chave na teologia da história: por um lado, encarna a promessa de bênção que desde o princípio se insinua no seio da humanidade pecadora; por outro lado, dá sentido e alcance universal à eleição particular do povo bíblico, que de outro modo seria sectário e não teria legitimação numa teologia monoteísta. Abraão é a chave onde a humanidade tem futuro e a eleição de Israel a sua etiologia.
O imperativo divino suscita da parte de Abraão uma resposta livre. A Bíblia não diz a razão da sua eleição: ela é insondável tal como o desígnio de Deus. Israel reflectirá longamente sobre o mistério deste chamamento, que insere Abraão na linha dos grandes mediadores e profetas ou, mais ainda, o faz protótipo de todos os crentes, mas não encontra outra resposta senão a da sua própria eleição: «O Senhor ligou-se a vós e escolheu-vos… porque o Senhor vos ama» (cf. Dt 7, 7s.). Não se deve perguntar a razão desta eleição fundada no amor, mas responder com amor. É a perspectiva do autor sagrado que, apesar da “normalidade”, para um povo nómada, da migração de Abraão, a vê com uma enorme carga simbólica, que faz do seu “êxodo” a chave de leitura de toda a experiência humana, no encontro com o Deus vivo que pede o abandono de toda a segurança humana. Abraão, confiante na palavra do Senhor, parte para uma terra ocupada por gente rica e poderosa, percorre-a de alto a baixo, acabando por se fixar no Négueb, zona árida e sem vida. A sua esperança está apenas no Senhor.


Evangelho: Mateus 7, 1-5

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1«Não julgueis, para não serdes julgados; 2pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. 3Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? 4Como ousas dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o argueiro da tua vista’, tendo tu uma trave na tua? 5Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão.»»


Na base dos provérbios que o evangelho hoje nos apresente, e noutros semelhantes, está o princípio da retribuição, que se apoia numa norma de paridade: o mesmo que fizeres aos outros, te farão a ti. Desperta-nos a atenção o passivo dos verbos: «sereis julgados», «sereis medidos». Estamos perante o chamado passivo divino. O sujeito destes verbos é Deus. Na forma activa, diríamos: Deus vos julgará, vos medirá. Sendo assim, trata-se de uma verdadeira ameaça. Quem pode resistir ao julgamento ou à medida de Deus?
Se virmos bem, Jesus não nos proíbe julgar e medir os outros, mas ensina-nos como fazê-lo. A medida do juízo divino será igual à que usarmos nos nossos julgamentos humanos. Na antiguidade, a medida com que se media a cessação de um bem, era a mesma que assegurava a sua restituição. Os rabinos, por sua vez, ensinavam que Deus Se servia de um duplo critério de juízo: a justiça e a bondade.
O convite a não julgar forma como que uma espécie de refrão no Novo Testamento. O próprio Cristo Se apresenta como aquele que não vem julgar, mas salvar (Jo 3, 7; cf. Jo 8, 11; Lc 23, 34). Paulo também nos previne contra o risco de fazermos julgamentos: «ao julgares o outro, a ti próprio te condenas» (Rm 2, 1).


Meditatio

Começamos, hoje, a ouvir a história de Abraão, modelo da caminhada de fé dos crentes. O amor de Deus por este homem revela-se, no mínimo, desconcertante: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai» (v. 1). Para onde? «Para a terra que Eu te indicar» (v. 1). Tudo é obscuro para o Patriarca. Apenas brilha a luz de uma promessa de Deus: «Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos» (v. 2). Confiado na palavra do Senhor, Abraão partiu. Obedeceu na fé: «Abrão partiu, como o Senhor lhe dissera» (v. 4).
Abraão chega com a família à terra de Canaã. Percorre-a, e conhece os seus habitantes. Talvez não lhe parecesse fácil tomar posse daquela terra. Mas Deus volta a falar-lhe: «Darei esta terra à tua descendência» (v. 7). O Patriarca vê delinear-se o projecto de Deus. É preciso que ele morra, para que as gerações futuras tenham vida. Então, «construiu ali um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido» (v. 7). E continuou a sua peregrinação: «Deixando esta região, prosseguiu até ao monte situado ao oriente de Betel, e montou ali as suas tendas… Construiu também um altar ao Senhor e invocou o seu nome… Continuou a sua viagem, acampando aqui e ali, em direcção ao Négueb». Basta-lhe estar em relação com Deus e cumprir a sua vontade.
É assim que Deus educa Abraão, e cada um dos crentes, a sucessivos desapegos, que podem parecer exagerados, mas que conduzem à liberdade. Não há volta a dar: ou aceitamos o projecto de Deus que nos quer tornar dom para a sua glória e para o bem dos outros, ou nos fechamos no nosso egoísmo mesquinho que nos faz prisioneiros de nós mesmos. Abraão aceitou tornar-se dom incondicional, sem nada saber o que estava para acontecer. A fé é isto: é estar abertos, disponíveis, aceitar caminhar nas trevas ao encontro de Alguém em quem confiamos, felizes por Lhe podermos dar o que nos pede, por O amarmos por Si mesmo, por pormos n´Ele a nossa alegria e o nosso amor, numa relação pessoal que Deus quer tornar cada vez melhor e mais bela. Tudo o resto é secundário. Deus repete-nos a sua palavra muitas vezes na vida, porque a nossa liberdade precisa de ser muitas vezes libertada.
No evangelho, Jesus recomenda que não julguemos os outros. Ele também não julgou, mas entregou-Se para a todos salvar e justificar. Deu a vida para que todos tenhamos a vida. O seu juízo sobre o mundo é a cruz, um amor sem limites e misericordioso para com todos, sem qualquer excepção. Cada homem tem, para Jesus, o valor do amor que o Pai tem por Ele, seu Filho. Mas Deus amou tanto o mundo que entregou esse Filho para o salvar. Cada vez que não julgamos os outros, damos um grande passo rumo àquela terra prometida para onde nos levam as mais humildes manifestações de delicadeza, de amor e de respeito para com os irmãos. Não julgar, amar os irmãos, é partir de nós mesmos ao encontro do Senhor que, durante a peregrinação terrena apenas podemos ver nos ícones que são os nossos irmãos, particularmente o mais fracos e carenciados.
A vida comunitária exige que cada um acolha os outros como realmente são, com a sua personalidade e funções, com as suas iniciativas e limitações... (Cst 66). Há que não julgar ninguém. Julgar é presumir que se conhecem as intenções profundas do coração. Mas só Deus as conhece. Ainda que não aprovemos, respeitamos a liberdade pessoal de cada um, as suas opiniões e convicções diferentes. «A vida comunitária exige que cada um acolha os outros como realmente são». É um acto de amor, que desejamos também para nós, tendo presente o ensinamento do Concílio Vaticano II: «Seja reconhecida aos fiéis, tanto eclesiásticos como leigos, a liberdade de investigar, de pensar, de manifestar com humildade e com coragem a sua opinião no campo em que são competentes» (GS 62).


Oratio

Senhor, Deus de Abraão, Tu também nos chamas pelo nome e mandas partir por caminhos desconhecidos, muitas vezes misteriosos e imprevisíveis. Faz-nos dóceis e obedientes, para que nos deixemos conduzir pela tua voz, e confiemos unicamente em Ti, que és Pai. Ensina-nos a amar todos quantos encontramos ao longo do caminho, porque também são teus filhos e nossos irmãos. Juntos chegaremos à terra prometida, que és Tu, com o Filho e o Espírito Santo. Amen.


Contemplatio


O nome de Jesus é mais glorioso que o de Adão. Adão foi o pai temporal de toda a raça humana. Devemos-lhe a vida, mas também as fraquezas que derivam do seu pecado. Jesus é o nosso Pai espiritual, a ele devemos-lhe a salvação. O nome de Jesus é mais glorioso que o de Abraão. Abraão foi o pai do povo hebreu, que foi o povo de Deus pelas promessas, pelas figuras, pela preparação do Messias. Jesus é o Pai do verdadeiro povo de Deus, de todas as almas unidas a Deus pela graça e pela glória. O nome de Jesus é maior que o de Moisés. Moisés tirou o seu povo da escravidão, do Egipto, e transmitiu-lhe a lei de Deus, conduziu-o até à entrada da Terra prometida. Jesus tirou-nos da escravidão do pecado, deu-nos a lei Evangélica, mais perfeita que a de Moisés; fez-nos entrar na Terra prometida da Igreja e da graça, aguardando a do céu. O nome de Jesus é maior que o de Josué, aquele que conduziu os Israelitas à Terra prometida, mas mais não era que a figura da Igreja e do céu. Um dia em que eram recitadas na epístola estas palavras: Deus deu-lhe um nome que está acima de todos os nomes, Santa Matilde conjurou Nosso Senhor a dar-lhe a conhecer este nome glorioso, que o seu Pai lhe deu; respondeu: «É o nome de Jesus ou de Salvador, porque eu sou o Salvador e o Redentor de todos os que existem, que existem e que devem existir na sucessão dos tempos... Sou o Salvador de todos os que obedeceram aos meus mandamentos ou que devem segui-los no futuro. Tal é o nome supremo e superior a todos os outros, que o meu Pai me reservou desde a origem» (Revelações, 16). Ó Jesus, adoro este nome que merece que em sua honra todo o joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos. (Leão Dehon, OSP3, p. 23).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra
«Deixa a tua terra e vai para a terra que Eu te indicar» (Gn 12, 1).


Fonte http://www.dehonianos.org/

12º Domingo do Tempo Comum - Ano B - 21.06.2015


ANO B
12º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 12º Domingo do Tempo Comum

Deus preocupa-se com os dramas dos homens? Onde está Ele nos momentos de sofrimento e de dificuldade que enfrentamos ao longo da nossa vida? A liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum diz-nos que, ao longo da sua caminhada pela terra, o homem não está perdido, sozinho, abandonado à sua sorte; mas Deus caminha ao seu lado, cuidando dele com amor de pai e oferecendo-lhe a cada passo a vida e a salvação.
A primeira leitura fala-nos de um Deus majestoso e omnipotente, que domina a natureza e que tem um plano perfeito e estável para o mundo. O homem, na sua pequenez e finitude, nem sempre consegue entender a lógica dos planos de Deus; resta-lhe, no entanto, entregar-se nas mãos de Deus com humildade e com total confiança.
No Evangelho, Marcos propõe-nos uma catequese sobre a caminhada dos discípulos em missão no mundo… Marcos garante-nos que os discípulos nunca estão sozinhos a enfrentar as tempestades que todos os dias se levantam no mar da vida… Os discípulos nada têm a temer, porque Cristo vai com eles, ajudando-os a vencer a oposição das forças que se opõe à vida e à salvação dos homens.
A segunda leitura garante-nos que o nosso Deus não é um Deus indiferente, que deixa os homens abandonados à sua sorte. A vinda de Jesus ao mundo para nos libertar do egoísmo que escraviza e para nos propor a liberdade do amor mostra que o nosso Deus é um Deus interveniente, que nos ama e que quer ensinar-nos o caminho da vida.


LEITURA I – Job 38,1.8-11

Leitura do Livro de Job

O Senhor respondeu a Job do meio da tempestade, dizendo:
«Quem encerrou o mar entre dois batentes,
quando ele irrompeu do seio do abismo,
quando Eu o revesti de neblina
e o envolvi com uma nuvem sombria,
quando lhe fixei limites e lhe tranquei portas e ferrolhos?
E disse-lhe:
‘Chegarás até aqui e não irás mais além,
aqui se quebrará a altivez das tuas vagas’».

AMBIENTE

O Livro de Job é um clássico da literatura universal, não só pela sua extraordinária beleza literária, mas também pelas questões que aborda e que tocam o âmago da existência humana. A história serve de pretexto para reflectir sobre certos temas fundamentais sobre as quais o homem sempre se interroga, como são a questão do sofrimento do justo inocente, a situação do homem diante de Deus e a atitude de Deus face ao homem.
Apresenta-nos a história de um homem bom e justo (Job), repentinamente atingido por um vendaval de desgraças que lhe rouba a riqueza, a família e a própria saúde. No corpo central do livro (cf. Job 3,1-37,24), Job interroga-se acerca da origem do sofrimento que o atingiu e do papel de Deus no seu drama pessoal. Alguns dos amigos de Job procuram responder às suas questões, apresentando as explicações dadas pela teologia oficial: o sofrimento é sempre o resultado do pecado do homem; assim, se Job está a sofrer, é porque pecou… Com a veemência que vem de uma consciência em paz, Job recusa conclusões tão simplistas e demonstra a falência da doutrina oficial para explicar o seu drama pessoal. Com um apurado sentido crítico, Job vai desmontando os dogmas fundamentais da fé de Israel e recusando esse Deus “contabilista” que Se limita a registar as acções boas e más do homem para lhe pagar em conformidade. Deus não pode ser isso; e o caso concreto de Job prova-o.
Rejeitada a explicação tradicional para o drama do sofrimento, Job dirige-se directamente àquele que lhe pode fornecer as respostas: o próprio Deus. No seu discurso, muito crítico, cruzam-se a animosidade, a violência, as queixas, o inconformismo, a dúvida, a revolta, com a esperança, a fé e a confiança em Deus. Quando, finalmente, Deus enfrenta Job, recorda-lhe o seu lugar de criatura, limitada e finita; mostra-lhe como só Ele conhece as leis que regem o universo e a vida, mostra-lhe a sua preocupação e o seu amor com cada ser criado; convida-o a não se pôr em bicos de pés, a ocupar o seu lugar de criatura e a não pôr em causa os desígnios de Deus para o mundo, já que esses desígnios ultrapassam infinitamente a capacidade de compreensão e de entendimento de qualquer criatura. Deus tem uma lógica, um plano, um projecto que ultrapassa infinitamente aquilo que cada homem (também Job) poderá entender.
A história termina com Job a perceber o seu lugar, a reconhecer a transcendência de Deus e a incompreensibilidade dos seus projectos, a entregar-se nas mãos de Deus com humildade e confiança.
O texto que nos é proposto faz parte do discurso com que Deus responde a Job (cf. Job 38,1-40,2). Nesse discurso, Deus coloca a Job uma série de questões sobre a terra, o mar, os grandes mistérios da natureza e da vida; a finalidade não é obter respostas de Job, mas levá-lo a perceber os seus limites, a sua ignorância, a sua incapacidade para entender o mistério insondável de Deus e os projectos que Deus tem para o mundo e para os homens.

MENSAGEM

O nosso texto começa por apresentar Jahwéh a responder a Job “do meio da tempestade” (vers. 1). É o quadro habitual das teofanias (cf. Ex 19,16); serve para emoldurar a manifestação aos homens do Deus todo-poderoso, o soberano de toda a terra.
Portanto, Jahwéh manifesta-se a Job; o objectivo dessa manifestação é responder às questões de Job e fazer Job perceber a insensatez das suas críticas. Depois de se apresentar como o grande arquitecto que construiu a terra (cf. Job 38,4-7), Jahwéh refere-se ao seu papel no sentido de controlar o mar. Foi Ele quem “encerrou o mar entre dois batentes” (vers. 8) e que lhe “fixou os limites” (vers. 10).
As antigas lendas mesopotâmicas sobre a criação apresentavam as “águas salgadas” (representadas pela deusa Tiamat) como um monstro criador do caos e da desordem; na sua luta para organizar o cosmos, Marduk, o deus mesopotâmico da ordem lutou contra o mar, venceu-o e pôs-lhe limites.
O Povo bíblico foi, naturalmente, influenciado pelos mitos de criação mesopotâmicos; por isso, viu no mar uma realidade assustadora, indomável, orgulhosa, desordenada, onde residiam os poderes caóticos que o homem não conseguia controlar… No entanto, os catequistas de Israel sempre asseguraram que a Palavra criadora de Jahwéh impôs às águas tumultuosas do mar, de uma vez para sempre, os seus limites (“Deus disse: ‘reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus num único lugar, a fim de aparecer a terra seca’. E assim aconteceu” – Gn 1,9). Jahwéh não precisou de lutar furiosamente contra o mar, como Marduk, o deus dos mitos mesopotâmicos; mas limitou-Se a organizar o mundo impondo às águas, com o seu poder, um limite que elas não poderão nunca atravessar sem ordem divina. O mar, controlado e encerrado dentro dos seus limites naturais, é um testemunho do poder supremo de Deus; mostra o domínio perfeito de Deus sobre toda a criação.
Ao recordar a Job a sua acção criadora sobre o mar, Jahwéh apresenta-Se, antes de mais, intocável na sua transcendência e majestade; e mostra, depois, que tem para a criação um plano estável, amadurecido, consolidado, irrevogável… Quem é Job para pôr em causa os desígnios desse Deus criador que, com a sua Palavra, controlou o mar? Job é convidado a aceitar que um Deus de quem depende toda a criação, que até submete o mar, que cuida da criação com cuidados de pai, sabe o que está a fazer e tem uma solução para os problemas e dramas do homem… O homem, na sua situação de criatura finita e limitada, é que nem sempre consegue ver e perceber o alcance e o sentido último dos projectos de Deus.
Em conclusão: só Deus tem todas as respostas; ao homem resta reconhecer os seus limites de criatura e entregar-se nas mãos desse Deus omnipotente e majestoso, que tem um projecto para o mundo. Ao homem finito e limitado resta confiar em Deus e ver n’Ele a sua esperança e a sua salvação.

ACTUALIZAÇÃO

¨ Convivemos diariamente com realidades positivas e negativas, com “luzes” e “sombras”. Normalmente, as “sombras” marcam-nos muito e constituem uma fonte de preocupação e de inquietação… O terrorismo e a violência trazem-nos sofrimento e insegurança; as novas doenças geram medo e inquietação; as catástrofes naturais fazem-nos sentir impotentes e indefesos; as injustiças e arbitrariedades provocam revolta e descontentamento; o desmoronamento de velhas estruturas políticas e sociais provocam anarquia e caos; o fabrico e o comércio de armas de destruição em massa trazem-nos ansiosos e preocupados… Confusos e desorientados, viramo-nos para Deus… Por vezes, criticamos a sua indiferença face aos dramas do mundo; outras vezes, sentimos a tentação de Lhe mostrar, de forma clara e lógica, como é que Ele devia actuar para que o mundo fosse melhor… A leitura do Livro de Job que hoje nos é proposta convida-nos, antes de mais, a não nos pormos em bicos de pés e a não exigirmos a Deus que actue segundo as nossas lógicas humanas.

¨ Na verdade, o Deus que criou tudo o que existe, que estabeleceu as leis cósmicas, que conhece os segredos de cada uma das suas criaturas, que cuida de cada ser com cuidados de pai, que mil vezes manifestou na história o seu amor e a sua bondade, não pode ignorar os problemas do homem, ou deixar que a humanidade chegue a um beco sem saída. O nosso Deus está presente na história humana e sabe para onde caminhamos. Ele tem um projecto coerente, maduro, estável, irrevogável para o mundo e para os homens… Por vezes, o sentido desse projecto pode escapar-nos; mas Deus sabe para onde caminhamos e conduz-nos, através das armadilhas da história, ao encontro da realização plena, da vida definitiva.

¨ Mergulhados no mistério insondável desse Deus omnipotente, por vezes desconcertante e incompreensível, resta ao crente entregar-se nas suas mãos com humildade e confiar n’Ele. O verdadeiro crente é aquele que reconhece a pequenez e finitude que são as marcas da humanidade, que reconhece que os projectos de Deus não podem entender-se à luz da nossa pobre lógica humana e que se atira, confiante, para os braços de Deus; o verdadeiro crente é aquele que, mesmo sem entender totalmente os projectos de Deus, aprende a entregar-se a Ele, a obedecer-Lhe incondicionalmente, a vê-l’O como a razão última da sua vida e da sua esperança.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 106 (107)

Refrão 1: Dai graças ao Senhor,
 porque é eterna a sua misericórdia.

Refrão 2: Cantai ao Senhor, porque é eterno o seu amor.

Os que se fizeram ao mar em seus navios,
a fim de labutar na imensidão das águas,
esses viram os prodígios do Senhor
e as suas maravilhas no alto mar.

À sua palavra, soprou um vento de tempestade,
que fez encapelar as ondas:
subiam até aos céus, desciam até ao abismo,
lutavam entre a vida e a morte.

Na sua angústia invocaram o Senhor
e Ele salvou-os da aflição.
Transformou o temporal em brisa suave
e as ondas do mar amainaram.

Alegraram-se ao vê-las acalmadas,
e Ele conduziu-os ao porto desejado.
Graças ao Senhor pela sua misericórdia,
pelos seus prodígios em favor dos homens.


LEITURA II – 2 Cor 5,14-17

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
O amor de Cristo nos impele,
ao pensarmos que um só morreu por todos
e que todos, portanto, morreram.
Cristo morreu por todos,
para que os vivos deixem de viver para si próprios,
mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles.
Assim, daqui em diante,
já não conhecemos ninguém segundo a carne.
Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne,
agora já não O conhecemos assim.
Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura.
As coisas antigas passaram: tudo foi renovado.

AMBIENTE

A Primeira Carta aos Coríntios (que criticava alguns membros da comunidade por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos) provocou uma reacção extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar Paulo. Essa campanha parece ter sido instigada por missionários itinerantes procedentes das comunidades cristãs da Palestina, que se consideravam representantes dos Doze e que minimizavam o trabalho apostólico de Paulo (afirmavam, inclusive, que Paulo era inferior aos outros apóstolos, por não ter convivido com Jesus enquanto Ele andou pela Palestina com os seus discípulos). Paulo, informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detractores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação.
Paulo, entretanto, partiu para Tróade. Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo.
Reconfortado, Paulo escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma colecta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Esse texto é a nossa Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Estamos nos anos 56/57.
O texto que nos é proposto integra a primeira parte da Carta, onde Paulo analisa as suas relações com a comunidade de Corinto e explica os princípios que sempre nortearam a sua acção pastoral (cf. 2 Cor 1,3-7,16).

MENSAGEM

O que é que realmente “move” Paulo? Qual a razão do seu ministério? Porque é que Paulo – que até nem conheceu o Jesus histórico, como os Doze – insiste em anunciá-lo? Paulo não estará a extravasar as suas funções?
Paulo fez a experiência do amor de Cristo e deixou-se absorver por esse amor. A sua acção apostólica tem apenas como objectivo levar o amor de Cristo ao conhecimento de todos os homens. Cristo morreu por todos, a fim de que os homens, aprendendo a lição do amor que se dá até às últimas consequências, deixassem a vida velha, marcada por esquemas de egoísmo e de pecado. Contemplando o Cristo que oferece a sua vida ao Pai e aos irmãos, os homens não viverão, nunca mais, fechados em si mesmos; mas viverão, como Cristo, com o coração aberto a Deus e aos outros homens (vers. 14-15). É esta “boa nova” que absorve Paulo completamente e que ele quer passar a todos os seus irmãos.
Com franqueza, Paulo admite que, no passado, entendeu Cristo “à maneira humana” e não percebeu que a sua doação até à morte era expressão de um amor ilimitado; mas, depois de se ter encontrado com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, Paulo passou a ver as coisas de forma diferente (vers. 16).
Paulo quer anunciar – por mandato de Cristo – que a adesão a Cristo faz desaparecer o homem velho do egoísmo e do pecado e faz surgir uma nova criatura (vers. 17). A palavra grega aqui utilizada por Paulo (“ktisis”) pode significar “criação”, “criatura” ou “humanidade”… O cristão, que aderiu a Cristo, é uma nova criatura, o membro de uma nova humanidade. Identificado com Cristo, ele corre ao encontro do Homem Novo, da vida plena e verdadeira, da salvação definitiva.
É isto que “faz correr” Paulo… Ele experimentou o amor de Cristo e tornou-se uma nova criatura. Agora, ele sente que Deus o manda testemunhar essa experiência diante de todos os homens.

ACTUALIZAÇÃO

¨ Antes de mais, o texto dá conta da preocupação de Deus com a vida e a felicidade dos homens. A vinda de Jesus ao mundo, a sua luta contra o egoísmo e o pecado, o seu amor incondicional, a sua morte na cruz, pretendeu libertar os homens dos velhos esquemas de escravidão e de fechamento que impediam os homens de ter acesso à vida plena e verdadeira. Contemplar o amor de Deus, tornado presença efectiva na vida dos homens em Jesus, assegura-nos que Deus Se preocupa connosco e que está sempre atento à nossa realização e à nossa felicidade. O nosso Deus não é um Deus indiferente, que deixa os homens abandonados à sua sorte; mas é um Deus interveniente, que nos ama e que, a cada instante, está presente ao nosso lado, a indicar-nos os caminhos da vida.

¨ O objectivo de Deus é fazer aparecer o Homem Novo e a Nova Humanidade. Aos homens, é pedido que aceitem a proposta de Deus, que aceitem renunciar à vida velha do egoísmo e da escravidão e que aceitem nascer, livres e transformados, para o amor que nos torna livres. Como é que acolhemos esta proposta de Deus? Ela conta alguma coisa para nós?

¨ Paulo, depois de ter encontrado Jesus, de ter aderido à sua proposta e de ter feito a experiência da liberdade e da vida nova, tornou-se testemunha, diante dos homens, do projecto salvador e libertador de Deus para os homens. Cada homem e cada mulher que se encontra com Jesus e que faz a mesma experiência de Paulo, tem de tornar-se arauto das propostas de Deus e de anunciar aos seus irmãos, com gestos concretos, essa oferta de vida nova e verdadeira que Deus nos faz.


ALELUIA – Lc 7,16

Aleluia. Aleluia.

Apareceu entre nós um grande profeta:
Deus visitou o seu povo.


EVANGELHO – Mc 4,35-41

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele dia, ao cair da tarde,
Jesus disse aos seus discípulos:
«Passemos à outra margem do lago».
Eles deixaram a multidão
e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado.
Iam com Ele outras embarcações.
Levantou-se então uma grande tormenta
e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água.
Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada.
Eles acordaram-n’O e disseram:
«Mestre, não Te importas que pereçamos?»
Jesus levantou-Se,
falou ao vento imperiosamente e disse ao mar:
«Cala-te e está quieto».
O vento cessou e fez-se grande bonança.
Depois disse aos discípulos:
«Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?»
Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros:
«Quem é este homem,
que até o vento e o mar Lhe obedecem?»

AMBIENTE

Na primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30), Jesus é apresentado como o Messias que proclama o Reino de Deus. Marcos procura aí demonstrar como Jesus, com palavras e com gestos, anuncia um mundo novo (o “reino de Deus”), livre do egoísmo, da opressão, da injustiça e de tudo o que escraviza os homens e os impede de ter acesso à vida verdadeira. O texto que hoje nos é proposto deve ser visto neste ambiente.
O nosso texto começa com a indicação de que Jesus decidiu passar “à outra margem”. A “outra margem” (do lago de Tiberíades, evidentemente) é o território pagão da Decápole. A Decápole (“dez cidades”) era o nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco, ao norte, até Filadélfia, ao sul. O nome servia para designar uma liga de dez cidades, que se formou depois da conquista da Palestina pelos romanos, no ano 63 a.C.. As “dez cidades” que formavam esta liga eram helenísticas e não estavam sujeitas às leis judaicas. As cidades que integravam a Decápole (bem como os territórios circundantes a cada uma dessas cidades) estavam sob a administração do legado romano da Síria. Eram território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação.
O episódio que Marcos nos narra, neste domingo, passa-se durante a travessia do Lago de Tiberíades. O Lago de Tiberíades, designado frequentemente por “Mar da Galileia”, é um lago de água doce, alimentado sobretudo pelas águas do rio Jordão, com 12 quilómetros de largura e 21 quilómetros de comprimento. As tempestades que se levantavam neste “mar” podiam aparecer subitamente e ser especialmente violentas.
Para entendermos melhor o que está em causa no episódio que hoje Marcos nos propõe, convém ter presente o que dissemos na primeira leitura a propósito do que o “mar” significava para a mentalidade judaica: era uma realidade assustadora, indomável, orgulhosa, desordenada, onde residiam os poderes caóticos que o homem não conseguia controlar e onde estavam os poderes maléficos que queriam destruir os homens… Só Deus, com o seu poder e majestade, podia pôr limites ao mar, dar-lhe ordens e libertar os homens dessas forças descontroladas do caos que o mar encerrava.
Mais do que uma crónica fiel de uma viagem de Jesus com os discípulos através do Lago de Tiberíades, a narração que Marcos nos apresenta deve ser vista como uma página de catequese. Usando elementos com uma forte carga simbólica (o mar, o barco, a tempestade, a noite, o sono de Jesus), Marcos apresenta-nos uma reflexão sobre a comunidade dos discípulos em marcha pela história. Marcos escreve numa época em que a Igreja de Jesus enfrenta sérias “tempestades” (perseguição de Nero, problemas internos causados pela diferença de perspectivas entre judeo-cristãos e pagano-cristãos, dificuldades sentidas pelas comunidades em encontrar o caminho para o futuro…); e pretende dar sugestões aos crentes acerca do caminho a percorrer.

MENSAGEM

Reparemos, em primeiro lugar, no “ambiente” em que Marcos nos situa: no mar, ao anoitecer (vers. 35). Situar o barco com Jesus e os discípulos “no mar”, é colocá-los num ambiente hostil, adverso, perigoso, caótico, rodeados pelas forças que lutam contra Deus e contra a felicidade do homem. Por outro lado, a “noite” é o tempo das trevas, da falta de luz; aparece como elemento ligado com o medo, com o desânimo, com a falta de perspectivas. O “mar” e a “noite” definem uma realidade de dificuldade, de hostilidade, de incompreensão.
No “barco” vão Jesus e os discípulos (vers. 36). O “barco” é, na catequese cristã, o símbolo da comunidade de Jesus que navega pela história. Jesus está no “barco”, mas são os discípulos que se encarregam da navegação, pois é a eles que é confiada a tarefa de conduzir a comunidade pelo mar da vida.
O “barco” dirige-se “para a outra margem” (vers. 35b), ao encontro das terras dos pagãos. Com este dado Marcos alude, muito provavelmente, à missão da comunidade cristã, convidada por Jesus a ir ao encontro de todos os homens para lhes levar Jesus e a sua proposta libertadora.
Durante a travessia, Jesus “dorme” (vers. 38). O “sono” de Jesus durante a viagem refere-se, possivelmente, à sua aparente ausência ao longo da “viagem” que a comunidade cristã faz pela história. Com frequência os discípulos, ocupados em dirigir o “barco”, têm a sensação de que estão sós, abandonados à sua sorte e que Jesus não está com eles a enfrentar as vicissitudes da viagem. Na verdade, Jesus está com eles no “barco”; Ele prometeu ficar com eles “até ao fim do mundo”.
A “tempestade” (vers. 37) significa as dificuldades que o mundo opõe à missão dos discípulos. É provável que Marcos estivesse a pensar numa “tempestade” concreta, talvez a perseguição de Nero aos cristãos de Roma, durante a qual foram mortos Pedro e Paulo, bem como muitos outros cristãos (anos 64-68. O Evangelho segundo Marcos deve ter aparecido nessa altura); mas a “tempestade” refere-se também a todos os momentos de crise, de perseguição, de hostilidade que os discípulos terão de enfrentar ao longo do seu caminho histórico, até ao fim dos tempos.
Jesus, despertado pelos discípulos, acalma a fúria do mar e do vento, com a sua Palavra imperiosa e dominadora (vers. 39). Já dissemos atrás que, na teologia judaica, só Deus era capaz de dominar o mar e as forças hostis que se albergavam no mar. Jesus aparece assim, como o Deus que acompanha a difícil caminhada dos discípulos pelo mundo e que cuida deles no meio das dificuldades e da hostilidade do mundo.
Depois de aclamar o mar e o vento, Jesus dirige-Se aos discípulos e repreende-os pela sua falta de fé (vers. 40: “porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?”). Os discípulos, depois da caminhada feita com Jesus, já deviam saber que Ele nunca está ausente, nem alheado da vida da sua comunidade. Eles não podem esquecer que, em todas as circunstâncias, Jesus vai com eles no mesmo “barco” e que, por isso, nada têm a temer. A comunidade de Jesus tem de estar consciente de que Jesus está sempre presente e que, portanto, as tempestades da história não poderão impedi-los de concretizar no mundo a missão que lhes foi confiada.
O nosso texto termina com o “temor” dos discípulos e a pergunta que eles fazem uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (vers. 41). O “temor” define o estado de espírito do homem diante da divindade. No universo bíblico, este “temor” não apresenta carácter de pânico ou de medo servil, mas encerra um misterioso poder de atracção que se traduz em obediência, entrega, confiança, entusiasmo. Tal atitude positiva deriva da experiência que o crente israelita tem de Deus: Jahwéh é um Deus presente, que guia o seu Povo com uma solicitude paternal e maternal. Por isso, o crente, se por um lado tem consciência da omnipotência de Deus, por outro lado sabe que pode confiar incondicionalmente n’Ele e entregar-se nas suas mãos. A resposta à questão já está, portanto, dada: o “temor” dos discípulos significa que eles reconhecem que Jesus é o Deus presente no meio dos homens, e a quem os homens são convidados a aderir, a confiar, a obedecer com total entrega.
A catequese que Marcos nos propõe é, portanto, sobre a caminhada dos discípulos, em missão no mundo… Marcos garante-nos que Cristo está sempre com os discípulos, mesmo quando parece ausente. Os discípulos nada têm a temer, porque Cristo vai com eles, ajudando-os a vencer as forças que se opõem à vida e à salvação dos homens.

ACTUALIZAÇÃO

¨ A imagem de um barco cheio de discípulos convidados por Jesus a passar “à outra margem do lago” e a dar testemunho dessa vida nova que Deus quer oferecer aos homens é uma boa definição de Igreja. Antes de mais, o nosso texto convida-nos a tomar consciência de que a comunidade que nasce de Jesus é uma comunidade missionária, cuja tarefa é ir ao encontro dos homens prisioneiros do egoísmo e do pecado para lhes apresentar a Boa Nova da libertação. Os discípulos de Jesus não podem ficar comodamente instalados nos seus espaços seguros e protegidos, defendidos dos perigos do mundo e alheados dos problemas e necessidades dos homens; mas a Igreja tem de ser uma comunidade empenhada na transformação do mundo, que se preocupa em levar aos homens – a todos os homens, sobretudo aos pobres e marginalizados – com palavras e com gestos a proposta libertadora do Reino.

¨ O caminho percorrido pela comunidade de Jesus em missão no mundo é, muitas vezes, um caminho marcado por duras tempestades. Quando a comunidade procura ser fiel à sua vocação e levar a libertação aos homens, confronta-se frequentemente com as forças da injustiça, da opressão e do pecado que não estão interessadas em que o anúncio libertador de Jesus ecoe no mundo (às vezes, essas forças de injustiça e de opressão disfarçam-se com as atraentes roupagens da “moda”, do “politicamente correcto” ou do “socialmente aceitável”)… Por isso, a comunidade de Jesus conhece, ao longo da sua caminhada, a oposição, a incompreensão, a perseguição, as calúnias e até a morte… No entanto, os discípulos devem estar conscientes de que esse cenário é inevitável e resulta da sua fidelidade ao caminho de Jesus.

¨ Muitas vezes, ao longo da caminhada, os discípulos sentem uma tremenda solidão e, confrontados com a oposição e a incompreensão do mundo, experimentam a sua fragilidade e impotência. Parece que Jesus os abandonou; e o silêncio de Jesus desconcerta-os e angustia-os. O Evangelho deste domingo garante-nos que Jesus nunca abandona o barco dos discípulos. Ele está sempre lá, embarcado com eles na mesma aventura, dando-lhes segurança e paz. Nos momentos de crise, de desânimo, de medo, os discípulos têm de ser capazes de descobrir a presença – às vezes silenciosa, mas sempre amiga e reconfortante – de Jesus ao seu lado, no mesmo barco.

¨ “Ainda não tendes fé?” – pergunta Jesus aos discípulos… Se os discípulos tivessem fé, não teriam medo e não sentiriam a necessidade de “acordar” Jesus. Estariam conscientes da presença de Jesus ao seu lado em todos os momentos e não estariam à espera de uma intervenção mais ou menos mágica de Jesus para os livrar das dificuldades. O verdadeiro discípulo é aquele que aderiu a Jesus, que vive em permanente comunhão e intimidade com Jesus, que está em permanente escuta de Jesus, que caminha com Jesus, que a cada instante descobre a presença reconfortante de Jesus ao seu lado. Ele conta sempre com Jesus e não se lembra de Jesus apenas nos momentos de dificuldade e de crise…

¨ A intervenção de Jesus provoca o “temor” dos discípulos. Dissemos atrás que o “temor” significa, neste contexto, que os discípulos reconhecem que Jesus é o Deus presente no meio dos homens e a quem os homens são convidados a aderir, a confiar, a obedecer com total entrega. Esta “catequese” convida-nos a assumir, diante desse Jesus que nos acompanha sempre, uma atitude semelhante (de “temor”) e a aderir incondicionalmente às suas propostas, a confiar n’Ele, a segui-l’O nesse caminho do amor e do dom da vida que Ele nos veio propor.


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 12º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. BILHETE DE EVANGELHO.
Seria para repousar? Seria para propor aos seus Apóstolos uma forma de retiro? O facto é que Jesus convida os seus discípulos a passar para a outra margem. A travessia do lago não é de repouso, levanta-se uma tempestade violenta e os Apóstolos estão aterrorizados. Sabem que não estão sozinhos no barco. Eles, os especialistas do lago, admiram-se com o sono de Jesus. Estão perdidos, então despertam Jesus, Ele que veio salvar os que estavam perdidos. Ele vai manifestar, então, que tem autoridade sobre todas as forças da morte, dá uma ordem: “Silêncio! Cala-te!” E fez-se uma grande calmaria. Os Apóstolos, naquele dia, não passaram apenas para a outra margem… Passaram do medo à confiança, graças ao “Passador” que tinha embarcado com eles. Nunca esqueçamos de fazer subir Cristo para o nosso barco, para passarmos com Ele…

3. À ESCUTA DA PALAVRA.
Jesus no barco da nossa vida. “Ao cair da tarde…” Toda a cena da tempestade acalmada desenrola-se durante a noite. É o momento em que todas as forças do mal podem agir com toda a impunidade. O barco está “no mar”, o lugar onde residem as forças demoníacas. Enfim, a palavra de Jesus ao vento e ao mar – “acalma-te!” – significa também “exorcizar”. Dito de outro modo, Marcos quer fazer-nos compreender que, para além da brusca tempestade, os discípulos – e todos os homens – são confrontados a um combate bem mais profundo e dramático: o combate contra o mal, não somente o mal “natural”, mas sobretudo o mal que habita e trabalha no coração dos homens. Os apóstolos, ultrapassados pela violência da tempestade, simbolizam os homens ultrapassados pelo poder do mal, que parece vencer, ainda e sempre. Para vencer o mal, é preciso recorrer a um poder maior. Felizmente que Jesus está lá! Ele dispõe do poder divino! Sim, mas Ele dorme tão profundamente que as enormes vagas não o fazem despertar. O seu sono torna-se, pois, a imagem da sua morte. Tudo parece perdido: “Mestre, estamos perdidos!” Jesus acaba por “despertar”. Ora, a palavra é a mesma que Marcos empregará para dizer a Ressurreição de Jesus: “Ele despertou de entre os mortos”. Podemos, pois, compreender o sentido mais profundo deste milagre da tempestade acalmada. Jesus veio ao coração da nossa história, desceu até ao fundo do mistério do mal que se desencadeia, ainda e sempre, foi até entrar no sono da morte violenta, que os homens esvaziaram de toda a traça de amor, onde parece que não se ouve mais nada, onde o próprio Deus parece dormir, indiferente aos males dos homens: “Mestre, isto não Te diz nada?” Mas Deus, em Jesus, respeitando infinitamente a nossa liberdade, só podia fazer uma coisa: juntar-se às nossas vidas, esconder-se nas nossas tempestades e nas nossas mortes, para aí colocar a sua presença, mais forte que todas as trevas. Só após a vitória aparente da morte é que Ele manifestará o poder da sua Ressurreição. O que Ele nos pede hoje é de crer, de Lhe dar a nossa confiança: “Porque ter medo?” Com Ele na nossa vida, as forças do mal não terão a última palavra.

4. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
As palavras da nossa fé. No domingo, é importante professar a nossa fé com o Credo da Igreja, para marcar a nossa pertença ao Povo de Deus que nos transmitiu estas palavras. Mas, nesta semana, se pudermos viver uma partilha à volta da questão “quem é Jesus para nós?”, poderemos tentar compor uma profissão de fé que retome o essencial desta partilha.



UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org – www.dehonianos.org

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Tempo Comum - Anos Ímpares - XI Semana - Sábado - 20.06.2015


Lectio

Primeira leitura: 2 Coríntios 12, 1-10

Irmãos: é necessário que me glorie? Na verdade, não convém! Apesar disso, recorrerei às visões e revelações do Senhor. 2Sei de um homem, em Cristo, que, há catorze anos - ignoro se no corpo ou se fora do corpo, Deus o sabe! - foi arrebatado até ao terceiro céu. 3E sei que esse homem - ignoro se no corpo ou se fora do corpo, Deus o sabe! - 4foi arrebatado até ao paraíso e ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir. 5Desse homem gloriar-me-ei; mas de mim próprio não me hei-de gloriar, a não ser das minhas fraquezas. 6Decerto, se quisesse gloriar-me, não seria insensato, pois diria a verdade. Mas abstenho-me, não vá alguém formar de mim um juízo superior ao que vê em mim ou ouve dizer de mim. 7E porque essas revelações eram extraordinárias, para que não me enchesse de orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me ferir, a fim de que não me orgulhasse. 8A esse respeito, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. 9Mas Ele respondeu-me: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.»De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. 10Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte.

Paulo confidencia aos Coríntios o êxtase que teve, havia catorze anos. Não se trata da visão que aconteceu na estrada de Damasco, porque as datas não coincidem. O Apóstolo não se sente capaz de descrever exactamente o que lhe aconteceu: se saiu ou não saiu do corpo. Mas lembra-se do facto, que leva gravado na consciência. Por isso, não se trata de desdobramento da personalidade.
A expressão «terceiro céu» poderá indicar uma etapa superior à «de cima». As «palavras inefáveis», não são palavras indizíveis, mas palavras reservadas aos iniciados, palavras íntimas, que não podiam ser espalhadas aos quatro ventos.
Paulo não pretende com esta confidência demonstrar a sua fé. Sabe que a fé é um dom gratuito. Apenas quer dizer aos Coríntios que também ele teve experiências fora do comum, mas que isso não lhe permite ser orgulhoso e afirmar-se superior aos outros. Até tem um «espinho na carne» para não ser tentado de egocentrismo religioso. Esse «espinho» pode ser uma doença, mas também a angústia que tem pelo povo judeu, ou as contínuas lutas com os falsos irmãos.


Evangelho: Mateus 6, 24-34

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 24«Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.» 25«Por isso vos digo: Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Porventura não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? 26Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? 27Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? 28Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! 29Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. 30Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? 31Não vos preocupeis, dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?’ 32Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. 33Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. 34Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.»

A última secção do capítulo 6 de Mateus refere a alternativa de opção perante a qual se encontra o cristão: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.» Há pois que decidir-se pelo «senhor» a quem se quer servir: ou Deus, ou dinheiro, isto é, o lucro e, portanto, os bens do homem, mas também «a avidez» com que o homem os procura e os possui. A ânsia na busca de bens materiais revela «pouca fé», frequentemente denunciada por Mateus (8, 26¸14, 31; 16, 8; 17, 20), mas também pouca confiança na providência divina. Para inculcar essa confiança, Jesus aponta as aves do céu e os lírios dos campos. Se essas criaturas, que hoje vivem e amanhã estarão mortos, são alimentados pela providência de Deus, quanto os homens, a quem foi prometida a eternidade, serão alimentados por Deus! Há que hierarquizar as nossas necessidades e os bens: o primeiro lugar pertence aos bens espirituais, que dão o sentido e o justo valor aos bens materiais. A verdadeira preocupação do homem há-de ser «o Reino de Deus e a sua justiça» (v. 33), permanecer nele, permanecer no senhorio de Deus.


Meditatio

«De bom grado prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo», afirma Paulo (v. 9). Não é facil gloriar-nos das nossas fraquezas, da nossa sorte humilde, escondida, obscura. Mas, quando temos, ou julgamos ter, alguma razão para nos gloriar, facilmente caímos no orgulho. Paulo estava consciente desse perigo por causa das «revelações extraordinárias» que recebera. Deus permitiu-lhe o «espinho na carne», que lhe fazia recordar permanente a sua fragilidade, mas que também lhe dava a certeza de que a força de Deus lhe era mais do que suficiente para viver e realizar a missão que lhe fora confiada. «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza», diz-lhe o Senhor. O Apóstolo confia, abandona-se, e acaba por verificar a verdade dessas palavras. Por isso, exclama: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (v. 10). Estas palavras são resultado duma experiência forte e dura da sua fragilidade, mas também do poder de Deus, que está com aqueles que escolhe e chama ao seu serviço.
A experiência de Paulo repetiu-se inúmeras vezes na vida dos santos. Mas, ainda antes de Paulo, fê-la a Virgem de Nazaré. Maria reconheceu a sua pequenez, a sua fragilidade, mas também se alegrou com ela, porque lhe atraía especial atenção de Deus: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva» (Lc 1, 47). Perante a missão que o Senhor lhe confia, Maria permanece tranquila, contente, em paz, abandonada à vontade de Deus. Não se preocupa consigo, mas com o projecto em que Deus a quer envolver. E assim viverá toda a vida, ao lado de Jesus, cuidando dele, servindo, acompanhando-o até ao Calvário, em atitude de paz e de confiança.
Como para Maria, como para Paulo, também para todo o Oblato-Sacerdote do Coração de Jesus, o apostolado é um acto de culto, uma liturgia, na qual Cristo oferece os homens como vítimas ao Pai (cf. Rm 15, 16; Fl 2, 17). É uma “redamatio”, uma resposta de amor, realizada na união de amor e de sofrimento com Cristo (cf. 2 Cor 2, 15; 4, 7.10.12; cf. Cst 31.35).
Referindo-nos ao exemplo de Paulo, é significativo o facto de que ele não ponha em primeiro plano a organização da sua obra de evangelização em Corinto, as suas fadigas, o ter-se «feito tudo para todos» (1 Cor 9, 23). O que torna eficaz o seu apostolado é a sua assimilação a Cristo, o reviver o Seu sacrifício. Compreendemos como, mesmo na fraqueza do Apóstolo, de todo o Oblato-Sacerdote do Coração de Jesus, e de todo o cristão, a graça de Cristo, por meio do Espírito, alcance a sua máxima eficácia (cf. 2 Cor 12, 9-10; cf. Fl 2, 17).


Oratio

Senhor Jesus, dá-me a graça de ser humilde e confiante, de permanecer contente e feliz com a vontade do Pai em toda e qualquer situação. Que a Virgem Maria, tua e nossa Mãe, apoie a minha fé e a minha esperança, e me ensine a disponibilidade ao serviço da Palavra.
Virgem misericordiosa, alegre com a fecunda presença do Espírito Santo em Ti, ensina-me a saborear o olhar do nosso Salvador e a glorificar contigo a misericórdia derramada sobre todas as gerações. Amen.


Contemplatio


Quem se humilha será glorificado. Aqui está o princípio da glória de Maria. Ela foi totalmente humilde diante de Deus, e a humildade é a fonte de todas as graças e da glória do céu. A doutrina espiritual ensina-nos os graus da humildade: a obediência aos preceitos divinos que é o grau mais elementar; a obediência aos conselhos, se a eles sou chamado; o amor pelas humilhações, se quero seguir mais plenamente a Jesus, unir-me ao seu divino Coração e contribuir com ele para a salvação das almas. Maria foi a humildade mesma, e Deus olhou com amor e cumulou com as suas graças a sua humilde serva. Onde me encontro, a respeito dos preceitos, dos conselhos, das humilhações? Ó Maria, não posso seguir-vos até aos mais elevados cumes da virtude, mas é preciso, no entanto, que eu caminhe sobre os vossos passos, se quero ir para o céu. É preciso que eu pratique o desapego, a pureza, a humildade. Peço-vos que me obtenhais esta graça. (Leão Dehon, OSP4, p. 501s).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12, 10).


Fonte http://www.dehonianos.org/

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Tempo Comum - Anos Ímpares - XI Semana - Sexta-feira - 19.06.2015



Lectio

Primeira leitura: 2 Coríntios 11, 18.21b-30

Irmãos: Já que muitos se gloriam por motivos humanos, também eu o vou fazer. 19Na verdade, tão sensatos como sois, suportais de bom grado os insensatos. 20Suportais quem vos escraviza, vos devora, vos explora, vos trata com arrogância, vos esbofeteia. 21Para nossa vergonha o digo: como fracos nos mostramos. Mas daquilo de que alguém se faz forte - eu falo como insensato - também eu me posso fazer. 22São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu. 23São ministros de Cristo? - Falo a delirar - eu ainda mais: muito mais pelos trabalhos, muito mais pelas prisões, imensamente mais pelos açoites, muitas vezes em perigo de morte. 24Cinco vezes recebi dos Judeus os quarenta açoites menos um. 25Três vezes fui flagelado com vergastadas, uma vez apedrejado, três vezes naufraguei, e passei uma noite e um dia no alto mar. 26Viagens a pé sem conta,perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus irmãos de raça, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos da parte dos falsos irmãos! 27Trabalhos e duras fadigas, muitas noites sem dormir, fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! 28Além de outras coisas, a minha preocupação quotidiana, a solicitude por todas as igrejas! 29Quem é fraco, sem que eu o seja também? Quem tropeça, sem que eu me sinta queimar de dor? 30Se é mesmo preciso gloriar-se, é da minha fraqueza que me gloriarei.

Quase a terminar a sua carta, Paulo recorre à sua ficha sociológica, enumerando todos os seus títulos de orgulho, não sem uma certa manha, para se defender dos que se lhe opõem e atacam: hebreu, israelita, descendente de Abraão, ministro de Cristo, apóstolo sujeito a mil perigos, dotado de carismas especiais, sobretudo de um célebre arrebatamento místico até ao terceiro céu (11, 21-12, 6). Depois disto, volta atrás e procura justificar e expor as razões da sua conduta, não encontrando motivos suficientes para se arrepender. Não se arrepende de ter oferecido o Evangelho aos Coríntios, gratuitamente (11, 8-10). Mas insiste, sobretudo, no seu método dialéctico de exercer a autoridade. Não quer ser excessivamente brando, mas também não quer ser rigorista (10, 8-9). Havia já nessa altura alguns grupos espiritualistas, que criticavam a Igreja por ser dialogante. Paulo afirma que a Igreja deve estar organizada, que deve haver uma autoridade. Mas essa autoridade há-de caracterizar-se por duas atitudes: ser dialogante para que a comunidade pense por sua própria cabeça e contribua decisivamente, e não só consultivamente, para a sua vida e missão; a actuação dos responsáveis deve ser construtiva e não destrutiva da própria realidade comunitária. Mas, para determinar o que é construtivo e o que é negativo, é preciso recorrer sinceramente à consciência dessa comunidade.


Evangelho: Mateus 6, 19-23

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 19«Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. 20Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. 21Pois, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. 22A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. 23Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas!

À primeira vista, Jesus condena a propriedade privada. Mas, observando o Evangelho, verificamos que Jesus permitia aos seus discípulos a propriedade de casa e campos (Mc 10, 29-30), as mulheres que Lhe prestavam assistência tinham os seus bens (Lc 8, 3; 10, 38) e os casos de Levi (Mc 2, 15) e de Zaqueu (Lc 19, 8) apontam na mesma direcção. O jovem rico é um caso à parte (Mc 10, 21).
As palavras de Jesus compreendem-se a partir da oposição tesouro na terra e tesouro no céu. Quem agir segundo a justiça, praticar o bem, der esmola … terá um tesouro no céu. Era a mentalidade comum no tempo de Jesus, e que devemos ter em conta. Mas a afirmação de Jesus tem uma profundidade maior: a propriedade terrena é passageira e incerta… Como é que se obtém o tesouro no céu? Orientando o coração, isto é, a afectividade, o homem todo, com os seus apetites e desejos mais íntimos e profundos, para Deus. Esse é o tesouro que permanece seguro.
Os olhos são a lâmpada do corpo porque nos permitem ver. Se estiverem sãos, isto é, postos em Deus, que é a luz fonte de toda a luz, será iluminado o mistério da escuridão humana. Se estiverem doentes, isto é, não postos em Deus, viveremos nas trevas, no mistério da nossa própria escuridão.


Meditatio

O evangelho de hoje alerta-nos para o perigo da cegueira: «A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas» (v. 22-23a). Que ligação existe entre estas palavras e a primeira parte do evangelho? Existe, pelo menos, uma bastante directa: a doença dos olhos é a ambição. O ambicioso não vê mais do que o seu interesse. Por isso, vai atrás de tudo o que possa vir a possuir e, sem ver os outros, nem enxergar os verdadeiros valores, avança na direcção errada, como um verdadeiro cego. Mas o Senhor quer que os nossos olhos estejam sãos, para que todo o nosso corpo esteja iluminado. Olhos sadios são a recta intenção, a atitude altruísta. Estes olhos são dom da graça e resultado da nossa colaboração generosa com ela. Havemos de pedi-los ao Senhor.
Aqueles que são iluminados pelo Senhor sabem que o tesouro não são os bens terrenos, certamente preciosos, mas sujeitos a deteriorar-se, a ser roubados. De qualquer modo, são passageiros. O verdadeiro tesouro é o reino dos céus. Em vista dele, vale a pena vender tudo quanto se tem, para o comprar e possuir. O reino torna-se visível no seguimento de Cristo, em pobreza evangélica compensada por «um tesouro no céu» (Mt 19, 21). O «céu» como lugar do depósito e de reapropriação do «tesouro» é certamente a «vida eterna no céu», mas é também o amadurecimento daquela vida que, «no reino dos céus», equivale ao discipulado do Evangelho, ao seguimento de Cristo, à comunhão eclesial na história.
Os discípulos sabem que o Verbo de Deus é a luz verdadeiro que veio ao mundo para iluminar todo o homem (Jo 1, 4.9; 3, 19). Aprenderam do próprio Jesus que é Ele a «luz do mundo», de tal modo que, quem O segue «não anda nas trevas mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12). Aprenderam que, eles mesmos, são a luz do mundo, com o compromisso de testemunhar o seu fulgor (Mt 5, 14-16). Os discípulos sabem que as «trevas» estão fora do Reino, e naqueles que lhe são estranhos. As «trevas» são ausência dos valores evangélicos, afastamento e recusa existencial de Cristo. São lugar de choro e ranger de dentes (Mt 22, 13; 25, 30).
Tal como Jesus, nós não somos do mundo, mas, como apóstolos, n´Ele Apóstolo, enviado pelo Pai, como religiosos de «um Instituto religioso apostólico» (Cst. 1), estamos no mundo, e devemos mesmo ser «luz do mundo» (Mt 5, 14). Diz Paulo: «Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito» (Rm 12, 2). Quando? No momento presente, no «Hoje de Deus» (Cst 144).


Oratio

Senhor, Tu és a luz do mundo. Cura os meus olhos, pois sinto que estão doentes. Dá-me um olhar puro, que me faça conhecer o caminho recto para alcançar o fim da minha vida, que és Tu. Cura a minha ambição pelos bens da terra, e até pelos bens espirituais. Ensina-me a partilhar todos os teus dons com generosidade e alegria. Assim estarei disposto para acolher o verdadeiro tesouro que és Tu. Sê, Senhor, a luz dos olhos e a alegria do meu coração. Amen.


Contemplatio

A pobreza eucarística de Jesus não oferece, como a sua pobreza de Nazaré, um exemplo sensível e fácil a imitar, mas inspira um espírito de pobreza que encontrará a sua realização na nossa vida, segundo a vocação de cada um de nós. Cabe-nos procurar que grau de pobreza, mesmo exterior, a vontade divina pede de nós. E se o nosso estado de vida não pede a pobreza exterior absoluta, resta praticar a pobreza espiritual, o desapego que constitui a primeira bem-aventurança promulgada por Nosso Senhor: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque o reino de Deus lhes pertence». Resta também a pobreza interior, o dom total de nós mesmos a Nosso Senhor, à sua vontade, à sua direcção, manifestada pela nossa regra de vida e pela sua Providência. A santa visitandina, Margarida Maria diz-nos, sob a inspiração do Sagrado Coração, que a alma mais desnudada e mais despojada de tudo possuirá mais o Coração de Jesus e encontrará nela a paz e a felicidade. Ó feliz pobreza! Bendito seja o dia em que, vendo-nos perfeitamente desapegados de tudo o terrestre, seremos ricos de Nosso Senhor, da sua vida em nós, do seu divino Coração, vivendo e reinando nos nossos corações.
Para ganhar o Coração todo amável de Jesus, diz Margarida Maria, é preciso imitá-lo na sua pobreza, deixando-nos dar ou tirar as coisas, como se estivéssemos mortos e insensíveis a tudo; considerando-nos como pobres e pensando que se nos despojassem de tudo, não nos fariam injustiça. (Leão Dehon, OSP3, p. 668s.).


Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Senhor, Tu és a Luz, que ilumina a terra inteira,
Tu és a Luz que ilumina a minha vida» (de um cântico litúrgico).


Fonte http://www.dehonianos.org/