terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Quais são os ventos contrários? - 08.01.2014

Nossa perícope é a sequência do episódio dos pães (cf. Mc 6,45) e a ele se relaciona (cf. Mc 6,52). O mar da Galileia é, na verdade, um grande lago. O fenômeno de ventos que agitam as águas do lago, provocando como que ondas, é comum. Para o imaginário do homem bíblico, o mar é símbolo do mal e da morte. Recolhido em sua oração, Jesus vê a dificuldade da travessia em razão do vento contrário. Para a surpresa dos discípulos, Jesus vai ao encontro deles, caminhando sobre as águas. O Senhor não é alheio às dificuldades da vida humana. O novo Pastor de Israel é aquele que, como Deus, tem o poder sobre o mal e a morte [cf. Sl 89(88)]. Diante dele o mal não triunfa e a agitação e o medo são vencidos por uma Palavra e uma presença que transforma: “Coragem, sou eu!”. A sua presença e a sua palavra dão a verdadeira visão. A dureza do coração, no entanto, impede de reconhecer no episódio dos pães a força e o sustento para viver com fé o tempo da adversidade e da ameaça do mal, pondo a confiança somente naquele que venceu o mal e a morte.

Carlos Alberto Contieri, sj

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A compaixão de Jesus – 07.01.2014

Jesus envia, pela primeira vez, os Doze que ele havia escolhido, dois a dois, em missão. No regresso deles, Jesus os convida a um lugar à parte para descansarem, pois é grande o número de pessoas que acorrem a eles. Tentativa frustrada, pois a multidão não se furta à ânsia de estar com o Senhor. Esse é o quadro introdutório do episódio dos pães. A compaixão de Jesus pela multidão desencadeia uma dupla ação em favor do povo que busca o Senhor: ensina e alimenta. A compaixão não se confunde com o sentimento de pena; ela é o movimento interno, provocado pela ação do Espírito, que permite a alguém ver e socorrer o outro em suas necessidades. É assim que Deus olha o seu povo em suas aflições. O desamparo da multidão, como ovelhas sem pastor, unida à ordem de se assentarem na “relva verde”, evoca o Sl 23(22). O texto tem a clara intenção de apresentar Jesus como Pastor prometido para Israel, cuja palavra e vida são o verdadeiro sustento espiritual do povo que ele mesmo reúne.

Carlos Alberto Contieri, sj

domingo, 5 de janeiro de 2014

Consagrado ao anúncio da Boa-Nova – 06.01.2014

A prisão de João Batista faz com que Jesus volte da Judeia para a Galileia. No entanto, não para Nazaré, mas para Cafarnaum, lugar de afluxo de pessoas. A Galileia é o lugar em que, em grande parte, se desenvolve o ministério de Jesus. O comentário do redator, “para cumprir-se”, faz com que o leitor compreenda que Jesus realiza a Escritura, o que ele afirmará explicitamente mais adiante no relato (cf. Mt 5,17). Mateus segue Lucas no que se refere ao tempo: depois da prisão de João, começa a missão de Jesus com uma pregação, às margens do Mar da Galileia, a qual apela à conversão. É como se estivéssemos em duas etapas da única história da salvação. Sem a confiança nele e na sua palavra, não será possível reconhecer o tempo da visita de Deus, tampouco reconhecer a vida de Deus que habita em Jesus de Nazaré. Jesus é apresentado como um pregador itinerante que, percorrendo toda a Galileia, ensina e, pela sua presença e gestos, transforma para melhor a vida das pessoas. Jesus atrai multidões, e a razão dessa atração é a sua coerência interna e a palavra que ele anuncia, que, acompanhada de seus gestos, comunica a vida e desperta a fé na vida.


Carlos Alberto Contieri,sj

sábado, 4 de janeiro de 2014

Vimos sua estrela no Oriente - 05.01.2014

Com a solenidade da Epifania do Senhor, encerramos o ciclo do Advento-Natal. Epifania é uma palavra de origem grega que significa, grosso modo, “o que aparece”, “manifestação”. Na antiguidade cristã, no Oriente, provavelmente em Alexandria, era a festa do nascimento de Jesus, celebrada no dia 6 de janeiro, festa à qual se associou a festa do Batismo do Senhor.
O que era uma promessa feita no século VI a.C., de que todos os povos seriam atraídos para a Luz (cf. Is 60,3), torna-se realidade com o nascimento de Jesus Cristo. No Ocidente, a partir de uma forte devoção desenvolvida na Idade Média, a Epifania passou a ser a “festa dos reis magos”, motivando a origem da festa popular denominada de “folia de reis”.
Os magos são atraídos e conduzidos por sua estrela. A solenidade da epifania, associada à visita dos magos do Oriente ao recém-nascido, Jesus de Nazaré, é a festa da universalidade da salvação de Deus. Desde todo o sempre, o Deus criador de todas as coisas quis atrair a si todas as pessoas. O texto deste domingo, do profeta Isaías, é só um exemplo, entre tantos outros. Com o nascimento daquele que é “o Sol de Justiça”, plenitude e razão de toda a criação, Deus reúne em torno do seu Filho único todos os povos. Em Jesus, o Senhor desperta nos povos o desejo de Deus. É essa realidade que São Paulo afirma na carta aos Efésios: “os pagãos são admitidos à salvação […], são beneficiários da mesma promessa” (Ef 2,6). Os “magos” são astrólogos ou astrônomos que viam nos movimentos das estrelas o sinal de um acontecimento importante. A evocação de Nm 24,17 é evidente na menção da estrela seguida pelos magos. O astro ilumina, orienta, está presente em todos os lugares e dá uma intensa alegria; alegria dada aos pastores, quando do anúncio do nascimento de Jesus pelos anjos (cf. Lc 2,10). Olhando para a estrela, chega-se a Deus feito homem. A inclinação diante do menino é o ato de reconhecimento e submissão ao rei, não somente dos judeus, mas de toda a terra. Os presentes oferecidos são a confissão da fé de todos os povos na divindade, na realeza e no sacerdócio do Verbo que assumiu a nossa humanidade. Com São Leão Magno podemos dizer: “instruídos nestes mistérios da graça divina, celebremos com alegria o dia das nossas primícias e o princípio da vocação dos gentios à fé e à salvação”.

Carlos Alberto Contieri,sj

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Os dois discípulos - 04.01.2014

O evangelho segundo João é o único a mencionar que discípulos de João Batista se tornaram discípulos de Jesus. A cadeia de testemunhas continua: do testemunho de João, dois de seus discípulos vão atrás de Jesus, um dos quais é explicitamente nomeado, André, irmão de Simão Pedro. O outro permanece anônimo, sugerindo que o leitor do evangelho ocupe o seu lugar e o seu interesse por conhecer Jesus. Por meio de ambos, todo leitor ouve a pergunta que move o coração de cada ser humano: “Que procurais?”. O que buscam, eles o encontraram em Jesus: “Encontramos o Cristo”. André, por sua vez, conduz o seu irmão a Jesus. O olhar de Jesus sobre Simão ultrapassa a aparência, penetra na sua história pessoal e abre para ele a possibilidade de uma transformação radical e a perspectiva do serviço: “Tu te chamarás Céfas”. A precisão temporal, “quatro horas da tarde”, não visa indicar o horário do acontecimento, mas afirmar a realização de um fato decisivo: depois de tanta espera, finalmente, o Messias é encontrado na nossa própria humanidade.

Carlos Alberto Contieri, sj

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Jesus é o Cordeiro de Deus. – 03.01.2014

A festa do “Santíssimo nome de Jesus” remonta ao século XV, e se deve ao empenho de São João Capistrano e São Bernardino de Sena. No Missal Romano em vigor, é memória facultativa. Como se pode notar, o nosso texto não faz nenhuma menção à imposição do nome de Jesus. Ela é própria aos evangelhos de Mateus e Lucas (cf. Mt 1,21-23; Lc 2,21). Toda vez que, no quarto evangelho, a palavra é cedida a João Batista, ele a utiliza para dar testemunho (cf. 1,34) de Jesus. No quarto evangelho, João Batista tem relevância em razão do seu testemunho (cf. 1,6-9). Há quatro afirmações cristológicas importantes: a preexistência do Verbo (v. 30; cf. vv. 1-3); Jesus é o Cordeiro de Deus, cujo sacrifício resgatou o ser humano para Deus (v. 29); ele é, ainda, aquele em quem o Espírito Santo permanece (vv. 32-33); e, finalmente, ele é o Filho de Deus (v. 34; cf. v. 18). A visão de João mencionada no v. 34 não é estética nem exige o exercício ótico. É um movimento próprio da experiência da fé, através do qual a revelação de Deus é acolhida e compreendida em nossa carne.

Carlos Alberto Contieri, sj

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A voz do precursor – 02.01.2014

Há no evangelho segundo João uma verdadeira cadeia de testemunhos em que um personagem remete a outro e todos apontam para Jesus. João Batista é parte dessa cadeia e está na origem da série de testemunhos que conduzem a Jesus. É bastante provável que o nosso evangelho de hoje retenha uma confusão presente no início da era apostólica, posição defendida pelos seguidores do Batista: se João não seria o Messias. A João é dada a palavra para dizer explicitamente que ele não é o Messias. Ele é o precursor, a “voz” a quem é atribuída a profecia de Isaías, remanejada pelo redator do evangelho, e que encontramos também nos evangelhos sinóticos: “uma voz proclama: no deserto, abri um caminho para o Senhor…” (Is 40,3; Jo 1,23). João é submetido a um interrogatório, que tem uma dupla função: a) esclarecimento: João não é o Messias; b) informação histórica: o movimento começado por João teria alcançado tal notoriedade, a ponto de preocupar as autoridades judias. A missão de João Batista tem sentido enquanto referida ao Cristo, Cordeiro de Deus, presente no meio do seu povo.

Carlos Alberto Contieri,sj