sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O banquete do Reino é para todos – 15.02.2014

Estamos ainda em território pagão (cf. Mc 7,31), pois não há nenhuma indicação do contrário. Trata-se do relato da segunda multiplicação dos pães (cf. Mc 6,30-44). Os elementos presentes na narração apontam para uma dupla perspectiva: o povo que o Cristo reúne é constituído de judeus e pagãos e a admissão dos pagãos à mesa eucarística. A razão pela qual a multidão não tinha o que comer (v. 1) é porque estavam com Jesus há três dias. A situação da multidão causa em Jesus “compaixão” (cf. tb. Mc 6,34). É esse sentimento que leva Jesus a entregar-se por todos, judeus e pagãos. No povo que o Senhor reúne alguns “vêm de longe”, uma forma de indicar os pagãos. O nosso texto tem uma forte conotação eucarística. A indicação de que todos ficaram saciados e a menção da sobra são modos de transmitir não somente a abundância do alimento dado, mas também que o verdadeiro alimento do povo de Deus a caminho ultrapassa os limites da materialidade; trata-se de um alimento espiritual simbolizado no pão e no peixe, dois modos primitivos de referir-se ao Cristo e à Eucaristia.

Carlos Alberto Contieri, sj

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Jesus vem para libertar das amarras da exclusão – 14.02.2014

Jesus atravessa as aldeias do mesmo modo como passa pela vida de cada um de nós: fazendo o bem, revelando o rosto misericordioso de Deus e suscitando a fé na vida. O território é pagão, modo de o texto afirmar o chamado dos gentios à salvação. O texto não nos diz quem são os que conduzem a Jesus o surdo que tinha muita dificuldade em falar. No entanto, há de supor que se trata de pessoas que creem no poder de Jesus, pois o que eles pedem é que o Senhor lhe imponha as mãos. Os dedos transmitem o poder (cf. Ex 8,15) que abre os ouvidos (cf. Sl 40,7). A propriedade terapêutica da saliva, sobretudo cicatrizante, já era conhecida na antiguidade. É do céu que vem a ajuda, por isso o “gemido” é expressão da súplica a Deus (cf. Rm 8,26). Os gestos são acompanhados da palavra que liberta: “Abre-te!”. A palavra dá o significado dos gestos. A cura remete o leitor ao advento messiânico em que a realidade é transformada (cf. Is 35,5-6). O enorme espanto que se apossa da multidão a faz dizer algo que evoca o relato da criação (Gn 1,10.12.18.21.31). Em Jesus Cristo se dá, efetivamente, uma nova criação; ele devolve à criatura a possibilidade de reconhecer que Deus fez tudo bem.

Carlos Alberto Contieri, sj

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Jesus entra na casa – 13.02.2014

Jesus não conseguia ficar escondido, pois a luz brilha para iluminar toda a “casa” (cf. Mc 4,21-22). Depois da controvérsia sobre o puro e o impuro, Jesus vai para uma região pagã. O que foi dito na controvérsia (Mc 7,1-23) pode ser verificado na prática e ampliado: não há lugar nem pessoa a quem não seja oferecida a salvação. Jesus rompe a barreira da impureza. Nem a missão de Jesus nem a salvação que ele oferece como dom têm como destinatários exclusivos os “filhos” (v. 27), Israel; pertencem também aos “cachorrinhos”, uma forma de designar os pagãos. Todo nosso relato está centrado no diálogo de Jesus com a mulher. Na sua resposta a Jesus, aquela mulher siro-fenícia mostra a sua fé, chamando Jesus de Kyrios, “Senhor”. Com essa invocação os cristãos se dirigiam ao Cristo ressuscitado. A palavra da mulher e os seus gestos demonstram a confiança em Jesus e a convicção de que nele e somente por meio dele é que o mal que aprisiona a sua filha pode ser vencido. Se o mal está presente em todos os lugares, a vitória do Senhor sobre ele não tem fronteiras.

Carlos Alberto Contieri, sj

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

É com o coração, e não com as mãos, que os discípulos devem se preocupar. – 12.02.2014

Na controvérsia sobre o puro e o impuro, Jesus dá um princípio para que os discípulos compreendam que o mal, o que distorce e rompe a harmonia da criação, desfigura o ser humano e o distancia de Deus, se encontra no coração do próprio homem. Se o Levítico ordena separar o puro do impuro (cf. Lv 10,10; 20,24b-25), Jesus parece abolir essa lei, observando que se trata de tradição humana (cf. Mc 7,7.8.9). É com o coração, e não com as mãos, que os discípulos devem se preocupar. O que importa é a pureza do coração. O coração e os rins são para a Escritura a sede do saber e do discernimento, a fonte de uma vida em conformidade ou não com a vontade de Deus. É a pureza do coração, e não simples práticas externas, que revela o grau de engajamento da pessoa em relação ao Reino de Deus. Considerar o mal como algo exterior a si é, no mínimo, um modo de exprimir a incompreensão acerca da realidade do próprio mal e de não assumir a responsabilidade ante as consequências da inclinação enigmática e perversa do coração do ser humano.

Carlos Alberto Contieri, sj

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Jesus e Maria são solidários ao povo – 11.02.2014

Situado na parte do evangelho segundo João denominada “livro dos sinais” (Jo 1–11), o relato das bodas de Caná é o “primeiro dos sinais” (v. 11). No centro do relato está a pessoa de Jesus que, com toda a sua vida, terrestre e gloriosa, inaugura os tempos messiânicos. Característica do relato das bodas de Caná é que se trata de uma narração simbólica que exige do leitor o esforço de ultrapassar a materialidade do que é descrito e dito. As bodas evocam a Aliança de Deus com o seu povo (cf. Os 2,18-21; Ez 16,8; Is 62,3-5), Aliança passada e reiterada ao longo da história decorrida (Noé, Abraão, Moisés) e a Aliança nova e definitiva em Jesus (cf. Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Lc 22,19-20). O vinho, símbolo da alegria e da prosperidade (Sl 104,15; Jz 9,13; Eclo 31,27-28; Zc 10,7), oferecido por Jesus é melhor do que o primeiro. Isso significa que, em Jesus Cristo, a Aliança atingiu a sua plenitude. A mãe de Jesus, que ele mesmo no relato designa “mulher”, é símbolo de Israel que espera, confia e vê realizada a promessa de salvação feita por Deus a seu povo.

Carlos Alberto Contieri, sj

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Jesus vem para libertar e restaurar a vida – 10.02.2014

A cada travessia do lago, Jesus leva não somente a esperança às pessoas, mas a experimentarem a salvação e a misericórdia de Deus. A cada encontro o Senhor, por seus gestos e palavras, revela que Deus é bom para com todos e que não há lugar onde o Senhor não esteja. Todo e qualquer lugar é ocasião para a manifestação da salvação de Deus. Nosso texto é um sumário cuja finalidade é condensar em poucas linhas a atividade de Jesus e o sucesso de sua missão. As pessoas buscam tocar ao menos na franja do manto de Jesus (cf. tb. 5,28). Cria-se que uma pessoa revestida do poder de curar alguém poderia fazê-lo, inclusive, através de suas vestes (At 19,11-12) e até de sua sombra (At 5,15). O fato é que, e é isso que importa fazer saber o leitor do evangelho, a passagem de Jesus pela vida das pessoas desperta, lá onde parece não haver mais o que esperar, a esperança e a fé na vida. As pessoas que tocavam Jesus experimentavam-se tocadas por ele e sentiam a força desse encontro no próprio corpo.

Carlos Alberto Contieri, sj

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sermão da Montanha - 09.02.2014

Grosso modo, todo o capítulo 58 do profeta Isaías é uma grande crítica e rejeição da parte de Deus acerca de uma religião que feche o indivíduo em si mesmo e de uma prática religiosa que patrocine a vaidade pessoal ou de grupo. De que adianta a prática do jejum e a observância do sábado, se elas não conduzem à solidariedade nem visam socorrer o próximo em suas necessidades? É esse engajamento em relação ao próximo que faz com que a pessoa brilhe como uma luz (cf. Is 58,8). A fé de Israel no Deus único e verdadeiro exige “amar o próximo como a si mesmo”. A relação com o Deus que tirou o seu povo do país da escravidão e lhe deu uma Lei exige da parte do povo que ele preserve em tudo o dom da vida e da liberdade. Na prática do amor fraterno, na misericórdia, o ser humano brilha como uma luz, porque ele reflete a Glória divina.
O texto do evangelho é parte do discurso introdutório do Sermão da Montanha (Mt 5–7). As imagens do sal e da luz permitem definir a identidade dos discípulos. O sal serve para dar sabor, para conservar e purificar; é, ainda, ingrediente indispensável para o sacrifício e a aliança (Lv 2,13; Ez 43,24). O sal utilizado na aliança simboliza a perenidade do pacto. Os discípulos, pela graça de Cristo, dão sabor ao mundo, sentido à existência humana. No entanto, é preciso estar atentos, pois o sal pode ser adulterado; quando isso acontece, ele não serve para mais nada, pois perdeu sua função. Atenção: sal demais estraga a comida! A vocação de Israel é a de ser luz (Is 42,6; 49,6). Também é a vocação dos discípulos de Jesus. A luz que resplandece nos discípulos é a de Cristo Ressuscitado, ele que é a “luz do mundo” (Jo 8,12). É através das boas obras, as obras de misericórdia, que a luz resplandece e ilumina, não para enaltecer a pessoa, mas para remeter os beneficiários dessas boas obras Àquele que é a fonte de todo bem: “o Pai que está nos céus”. Luz demais ofusca a visão! A medida do sal e a intensidade da luz são a medida da ação de Deus na vida do discípulo. Somente desse modo sal e luz conservam sua propriedade e função específicas. Apenas quando o discípulo se deixa conduzir pelo sopro de Deus e é movido unicamente pelo desejo de servi-lo, é que ele exprime a sua verdadeira identidade.

Carlos Alberto Contieri, sj